Dono da rede Belmonte, nascida de um bar de 1952, está resgatando casas tradicionais da cidade

Nascido em Hidrolândia, município com menos de 20 mil habitantes no Ceará, Antônio Rodrigues repetiu a trajetória de muitos conterrâneos e, aos 16 anos, veio ganhar a vida no Rio. Poucos, no entanto, foram tão longe. Por aqui, Antônio deu duro como faxineiro, lavador de pratos, cumim e garçom. Tornou-se dono de negócios próprios, a exemplo do extinto Carlito’s, na Cinelândia, mas a grande tacada veio em 2001, quando assumiu um boteco antigo e, na época, maltratado, na Praia do Flamengo, de nome Belmonte.

Bar luiz na mira

Os dias de glória do bar já iam longe quando Antônio reformou o lugar, que começou a encher de gente bebendo em pé na calçada e de pessoas levadas pela fama do risoto de camarão. Era o início de uma rede. Na inauguração de cada nova unidade, o nome na fachada é acompanhado pelas palavras “desde 1952”, o ano de nascimento da matriz no Flamengo. É esse marketing da nostalgia que ele vem buscando ao investir em novas empreitadas: suas aquisições mais recentes foram casas cariocas de tradição, como o Nova Capela, na Lapa (desde 1903), o Bar Amarelinho, na Cinelândia (desde 1921), e o Cervantes, em Copacabana (desde 1955).

O próximo endereço nessa lista de clássicos vai ser a Pizzaria Guanabara (desde 1964), epicentro do Baixo Leblon, point boêmio que viveu momentos de glória nos anos 80 do século passado. Antônio ainda não revela o que será feito por lá, só diz que o ponto é dele e “vamos ver que bicho que vai dar”.

— Gosto da cidade, tenho que fazer por ela o que ela fez por mim — diz o empresário. — Não dá para pensar no dinheiro o tempo todo, e estou com a minha vida financeira resolvida.

Outro histórico salão carioca que não sai dos seus pensamentos nasceu no tempo de Dom Pedro II e faz parte da paisagem carioca desde 1887.

— Uma coisa que eu gostaria muito que não acabasse é o Bar Luiz. Já tentei várias vezes, mas a negociação empaca. As pessoas que administram se amarraram naquilo. Não têm condições de tocar o negócio, mas não abrem mão para quem quer botar para funcionar — lamenta, dizendo que o ponto em si nem traria muito retorno. — O movimento ali é muito ruim, mas é um lugar simbólico.

Antônio conta que vendeu seu maior bem, uma ovelha que ganhou do tio, para poder viajar até o Rio. Hoje, aos 54 anos, cuida de um pequeno império, composto por 19 casas (oito delas com a marca Belmonte): 15 no Rio, uma em São Paulo e três na cidade do Porto, em Portugal. Ele garante que nunca teve ninguém por trás de seus negócios, ou seja, não tem o popular “sócio investidor”.

— Meus negócios foram feitos com o meu dinheiro. Posso dizer que nunca devi um real a ninguém, e nunca pedi um real a ninguém para montar uma casa. Já recebi propostas para vender o Belmonte, mas não quis. Isso é um negócio que eu fiz, que deu certo, não vou trabalhar para banco. Não quero — orgulha-se. — Sou um cara simples, não tenho luxos, e trabalho de segunda a segunda.

Na função de salvador de históricos redutos cariocas, o empresário ouve aplausos e críticas. A princípio, as casas mais conhecidas sofrem o mínimo de intervenção possível. Mas mexer com a memória afetiva de um povo tão passional quanto o carioca tem lá seu preço. Depois que reinaugurou o Cervantes, até a própria esposa se queixou das ripas de madeira que, na decoração do teto do bar, fazem alusão ao Belmonte. A clientela também sentiu falta do pão de leite, marca registrada dos sanduíches no cardápio tradicional.

— Chega um monte de gente dando palpite. As coisas têm que mudar, precisamos evoluir — justifica-se o novo dono. — Isso aqui estava fechado. Hoje tenho 50 funcionários, e a casa cheia. Preciso ter a minha opinião. É claro que você tem que ouvir e respeitar o cliente, mas se você fizer o que todo mundo quer não faz é nada.

A aparente teimosia se traduz em disciplina férrea no dia a dia: ele acorda todos os dias às 5h20, visita cada um de seus endereços cariocas e só dá o expediente por encerrado lá pelas 23h. Essa dedicação fez diferença quando a pandemia da Covid-19 chegou. Dos 1.100 funcionários no Brasil e dos 110 em Portugal sob sua tutela, não demitiu nenhum.

— Ficava olhando a televisão para saber se ia ter vacina, se não ia ter, e o dinheiro encurtando. Teve hora em que eu achava que ia perder tudo que tinha feito. Mas não sou deslumbrado. Sempre tenho reservas para um colapso de cinco meses. E se também tivesse que vender refrigerante na praia, ia vender e começar tudo de novo.

O primeiro trabalho por aqui, em um boteco de Icaraí, em Niterói, abriu a porteira para uma rotina de sacrifício, mas o levou a outras casas, com muitos turistas e gorjetas generosas.

— Não tinha família, não tinha nada, então trabalhava das 11h às 2h. Era uma época em que o Rio recebia muitos turistas, e as gorjetas eram muito boas — lembra ele, que morava numa vaga com quatro beliches em Botafogo. — Nos dias de folga, comia uma vez só, um PF. À noite, ouvia música no rádio, mastigava um biscoito e ia dormir.

Nada a reclamar

No seu primeiro pé-sujo, ele investiu o equivalente a R$ 50 mil e não parou mais:

— A cozinha era tão pequena que eu tinha que entrar de frente e sair de bunda. Chegava às 5h e saía às 21h — lembra.

Antônio continua dando duro, mas não abre mão do jantar em família das terças-feiras e de dez dias de férias por ano. “É o suficiente”, diz:

— Eu nasci pelado e estou vestido. Vou reclamar do quê?