Dono de guincho que içou o avião de Marília Medonça conta o que viu no local: 'Parecia que tinha passado um furacão'

·4 min de leitura

Amadeu Alexandre tem 55 anos e trabalha no ramo de guinchos há 35, sempre em Piedade de Caratinga, lugarejo encravado na região Leste de Minas Gerais. No último sábado (6), pela manhã, seu celular tocou - a empresa da qual é dono ainda está fucionando em esquema de home office por causa da pandemia. A ele foi feita a proposta de retirar o avião que caíra na véspera no Córrego do Lage, dentro de um condomínio da cidade, matando a cantora sertaneja Marília Mendonça e mais quatro integrantes do voo.

Amadeu nunca tinha guinchado uma aeronave. Não sabia nem como se fazia isso. Seu dia a dia de trabalho consiste majoritariamente na retira de carros e ônibus acidentados. Embarcou na caminhonete 4 x 4 e seguiu rumo ao cenário que já tinha visto pela TV: um avião que parecia, a olhos leigos, quase intacto.

— De longe era uma coisa, de perto, parecia que tinha passado um furacão. O assoalho estava todo destruído, os bancos fora do lugar... Tudo foi arrancado dentro do avião. Não tem como não pensar no que as pessoas passaram. Fiquei atordoado — lembra.

O trabalho de Amadeu para a PEC Táxi Aéreo, dona do avião, começou 17h30 e seguiu até perto de meia-noite. Antes de começar, ele fez as contas e viu que precisaria acionar funcionários da Fervel e da JV Guinchos, seus dois negócios, para dar conta. Oito pessoas e dois caminhões foram mobilizados. Por dois caminhões leia-se: um guincho de 200 toneladas e outro de 40. O acesso à cachoeira era difícil, o tempo não anda bom por aquelas bandas, as ruas do condomínio não foram projetadas para a passagem de veículos "medidos" em toneladas, que dirá de um avião que pesa oito.

— A parte mais complicada foi a remoção de um dos motores. Ele se desprendeu do corpo do avião e foi lançado a cerca de 300 metros, numa região íngreme e escorregadia, com muito limo. Caminhão não chegava até lá. Tivemos que ir com a caminhonete e amarrar os homens em cordas, como um corrimão, para que tivessem segurança ao retirar as peças, sem cair na cachoeira.

Cada motor do King Air C90A pesa cem quilos. O segundo estava bem perto da aeronave, um bimotor com turboélice fabricado em 1984 para o transporte de até seis passageiros. Para esse bastaram cabos de aço e um caminhão-guincho tradicional. A polícia local afirma que um cabo foi encontrado enrolado à hélice de um dos motores. No entanto, ainda não é possível afirmar que ele seria da torre de transmissão de energia da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que fica perto do aeroporto. Por ora essa uma das suspeitas sobre o que teria provocado o acidente.

Amadeu conta que não percebeu nada no sentido mais "investigativo" da história:

— Ficou tudo uma bagaça tão grande que não deu nem pra ver. Além disso, a gente está ali para desenrolar o serviço e é leigo no assunto.

A remoção dos motores tomou toda a segunda-feira de Amadeu e sua tropa. No sábado e no domingo, coube a eles o deslocamento do avião da cachoeira até um terreno, que chamam de terreirão, onde ficavam os caminhões. Para ser embarcada, a aeronave foi dividida em quatro partes. Primeiro foi necessário tirar cada asa para que fosse transportada pelas tais ruas estreitas. O corpo da aeronave se partiu naturalmente em dois no momento do içamento. Todo o material foi sendo levado para as sedes das empresas. No total, oito viagens foram feitas durante o fim de semana.

Na manhã desta terça-feira, um caminhão com uma prancha de 11 metros vai transportar os destroços da fuselagem para o Terceiro Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa III), que ficará responsável pela investigação das causas do acidente. Amadeu vai nesse veículo, fiscalizando e dirigindo na viagem que deve terminar por volta das 20h, no Galeão.

Os dois motores sairão de Caratinga na quarta-feira, dia 10, de manhã e por volta das 20h devem chegar ao aeroporto de Sorocaba, onde ficarão à disposição da empresa Pratt Whitney Canada do Brasil para ajudar a contar a história do que aconteceu naquela sexta-feira. O trabalho foi acompanhado por investigadores do Seripa, órgão regional do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), e por policiais civis da cidade. Segundo ele, nada ficou no córrego:

— Tá tudo limpo. Não deixei um parafuso. Parece que nem teve acidente.

Apesar da saga, Amadeu diz que esse não foi o maior desafio que já enfrentou.

— Avião foi o primeiro, é verdade, mas já peguei serviços que deram mais trabalho — garante ele, que não revela quanto vai cobrar — Não estou sabendo botar preço...

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos