Dor e impotência dos filhos de brasileiros 'contaminados' pelas 'fake news'

"Contaminados" por 'notícias falsas', alguns brasileiros mais velhos sofrem de insônia, ansiedade e ataques de pânico. Seus filhos carregam um fardo duplo: a preocupação com a saúde dos pais e a dor pela fragmentação familiar causada por disputas políticas alimentadas por desinformação.

L. conta que sua mãe, professora aposentada, de 80 anos, começou a sofrer de insônia por medo de que moradores de rua se mudassem para seu apartamento em São Paulo por um suposto plano do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante a campanha eleitoral que resultou na vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, espalhou-se uma mentira que ainda hoje vigora, três meses após a eleição: a vitória da esquerda obrigaria alguns brasileiros a hospedar famílias em situação de rua.

"No dia do Ano Novo ela se vestiu de branco, porque o que mais queria era paz. Porque ela já não tinha mais. Coitada, e é verdade, porque a ansiedade dela é constante", contou à AFP L., administradora de 54 anos, que não quer ser identificada para evitar transtornos.

Sempre de direita, sua mãe foi se aproximando de Bolsonaro quando ele ainda estava no governo e os grupos de WhatsApp, muito usados pelos bolsonaristas, assim como o Telegram, passaram a ser sua fonte de informação.

- "Mais vulneráveis" -

"As pessoas são muito criticadas, eu sou antibolsonarista desde sempre, mas também tem esse lado dessas pessoas sofrerem", explica L.

A desinformação é desenfreada no Brasil há anos, com especialistas concordando que teve impacto nos resultados das eleições de 2018, vencidas por Bolsonaro.

Agora, os especialistas apontam efeitos na saúde, mas alertam para a falta de estudos sobre o assunto.

"O que a gente vê hoje de fato é essa poluição informacional afetar a saúde mental e também a saúde da pessoa quando acredita que se tomar a vacina vai acabar virando jacaré", explica Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, que desenvolve programas de mídia-educação para maiores de 60 anos.

Embora ninguém esteja isento de cair em notícias falsas, Blanco afirma que os idosos são "mais vulneráveis" porque foram educados de forma diferente para consumir informação, com veículos de comunicação sólidos e confiáveis.

"A OMS chamou de ‘infodemia’, que é esse nível de produção de informação acaba gerando pânico, ansiedade na medida em que você não sabe interpretar corretamente essa informação", aponta.

- "Não estão iludidos" -

L. agradece por ter convencido a mãe a se vacinar contra o novo coronavírus, mas cansou de tentar fazer com que ela visse que algumas notícias que recebe não são verdadeiras.

Para manter o relacionamento saudável, elas concordaram em não falar sobre política. A defesa de Bolsonaro ou Lula, por outro lado, causava intensas brigas entre C. e seu pai, um corretor de imóveis de 63 anos.

Esta advogada paulistana de 31 anos, que também falou sob condição de anonimato, conta que o pai tem sofrido de insônia devido à "enorme quantidade de notícias falsas" que chegam no WhatsApp.

Há duas semanas ele deixou esses grupos após a invasão de bolsonaristas radicais às sedes dos Três Poderes em Brasília, buscando a queda de Lula. Mais de 2.000 pessoas foram presas e correm o risco de serem condenadas por esses atos.

"Falamos com ele porque começou a adoecer, acreditando que as pessoas entrariam em sua casa, que seu dinheiro na conta bancária seria congelado. Seus amigos tiveram crises de pânico", conta sua filha.

"O ataque desinflou seu discurso. Ele pensava que Lula não assumiria o poder porque alguma coisa iria acontecer", explica.

A divulgação de informações falsas foi um elemento relevante para a "racionalização" do ataque, afirmam especialistas. Após os acontecimentos de 8 de janeiro, Lula anunciou dureza contra as 'fake news'.

Para Leonardo Nascimento, especialista em sociologia digital da Universidade Federal da Bahia, o combate à desinformação exige campanhas educativas e o fortalecimento da mídia. Além de empatia.

"Nós precisamos mudar nossos pontos de vista, nossas crenças sobre a realidade, e entender que eles não estão iludidos, realmente sentem que essas coisas são reais", afirmou.

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