Doria acena a aliados com coordenação dupla na campanha em 2022

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***ARQUIVO***São Paulo, BRASIL, 15-11-2021: Retrato do  governador João Doria (PSDB-SP) durante entrevista no Palácio dos Bandeirantes. (Foto: Eduardo Knapp/ Folhapress)
***ARQUIVO***São Paulo, BRASIL, 15-11-2021: Retrato do governador João Doria (PSDB-SP) durante entrevista no Palácio dos Bandeirantes. (Foto: Eduardo Knapp/ Folhapress)

A campanha do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a presidente em 2022 deverá ter dois coordenadores-gerais. Um cuidará do programa de governo e outro, que pode não ser um tucano, será responsável pela articulação política.

O desenho foi exposto por Doria durante conversa com a Folha em Nova York no sábado (4), dia em que encerrou sua participação em uma missão empresarial que incluiu conversas com alguns dos maiores atores da finança mundial, todos "extremamente preocupados com o risco do populismo no Brasil", segundo o tucano.

"Acredito mais na probabilidade do entendimento do que do distanciamento. Todos sabem que, divididos, não venceremos. E o pior pesadelo para o Brasil é um segundo turno com [o ex-presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva] e o presidente [Jair] Bolsonaro", disse.

Em fase de contenção de seu estilo assertivo, ao mesmo tempo em que apresentava seus planos de campanha, Doria evitou falar da ideia levantada pelo presidente do PSDB, Bruno Araújo, de realizar uma espécie de prévia com partidos da terceira via.

"O Bruno Araújo não comentou essa proposta comigo, então não sou capaz de analisá-la. O que eu defendo é o bom diálogo com os partidos que podem compor esse centro democrático e liberal", disse.

A sugestão foi muito mal recebida entre aliados de Doria, que enxergaram nisso uma forma de a ala adversária do tucano na sigla de tentar enfraquecer sua posição de negociação. O paulista foi ungido pré-candidato do partido para a corrida de 2022 ao derrotar o governador gaúcho, Eduardo Leite, em prévias no sábado passado (27).

"É um longo caminho até abril do ano que vem, quando acho que teremos essa resultante", afirmou Doria, que afirma que irá ficar no cargo até a data-limite legal, quando o entrega para seu indicado à sucessão, o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB).

Doria também não quis retrucar Leite, que passou a semana concedendo entrevistas desqualificando a proposta de aliança feita pelo paulista, que havia dito à Folha que o queria com "protagonismo" na campanha.

Neste sábado, Leite inclusive divulgou em suas redes sociais foto de encontro com o ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) Sergio Moro, que se movimenta como candidato pelo Podemos.

"Meu desejo é que ele tenha um papel de protagonista, e nós vamos conversar no final desta semana. Mas eu nunca o convidei para ser coordenador, até porque ele não pode por ser governador. O fato de ele encontrar com o Moro é positivo", afirmou.

Segundo Doria, "a economia será o guarda-chuva da campanha", então o comitê do setor terá de seis a oito nomes.

Metade deles será de mulheres -a economista Ana Carla Abrão é vista como nome certo se receber o OK de seu empregador, e a secretária estadual Patrícia Ellen (Desenvolvimento Econômico) está na lista dos convites a serem feitos. Um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida, poderá integrar o grupo.

Nesta semana, o secretário da Fazenda de Doria, Henrique Meirelles, havia dito que seria o coordenador do grupo. O governador fez um reparo sobre isso, leve dada o status do ex-ministro e ex-presidente do Banco Central.

"O Meirelles será o porta-voz desse comitê econômico, não o coordenador. Em vez de um posto Ipiranga, teremos uma rede de postos", afirmou, em referência do hoje pálido apelido dado a Paulo Guedes, ministro da Economia que já foi visto como multifuncional como a propaganda da empresa de combustível vende.

Cada área de governo terá seu comitê com três coordenadores. Para a chefia geral dupla, o cargo mais nevrálgico é o da articulação política, papel que coube a Garcia, então no DEM, na campanha estadual de 2018.

O aceno de Doria está secundado em uma vitória política importante, que foi o apoio dado pelo apresentador José Luiz Datena ao governador e a Garcia em 2022, até então operando com adversários do tucano

Datena havia deixado o PSL e ia disputar o Senado pelo PSD de Gilberto Kassab, mas a indefinição em torno da candidatura estadual do ex-governador Geraldo Alckmin (que está deixando o PSDB e deve ir ao PSD) o empurrou para o lado de Doria.

Com isso, o tucano sinaliza uma flexibilidade a eventuais parceiros. Doria não quis nem polemizar com seu maior adversário interno no tucanato, o deputado Aécio Neves (MG).

Sobre Alckmin, outro travo amargo em sua relação com o PSDB pela acusação que o ex-governador faz de traição após o apoio dado na reta final das prévias tucanas para a Prefeitura de São Paulo em 2016, Doria foi um pouco mais incisivo.

Questionado acerca do namoro do ainda tucano com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ventilou a possibilidade de tê-lo como vice na chapa em 2022, Doria afirmou que essa seria "uma decisão solitária". "Eu não desejaria estar aliado a alguém que o PSDB combateu nos últimos 30 anos", afirmou.

No time de Doria, a campanha desenhada até aqui prevê Bolsonaro como o candidato a ser batido no primeiro turno, levando o tucano à segunda rodada presumida contra o petista.

A Folha quis saber se o tucano não achava que o presidente, dono de algumas vitórias nesta semana, como o avanço do programa assistencial Auxílio Brasil no Congresso e a confirmação de André Mendonça como ministro do Supremo Tribunal Federal, não corria o risco de ser minimizado.

"O maior risco é do Brasil, seja a renovação do mandato do Bolsonaro ou a volta do Lula. É o pesadelo de que o Brasil não precisa", afirmou. "Pessoalmente, não desprezo nenhum candidato."

Na mesma linha, reafirmou que considera Moro "parte do centro democrático liberal que defenderá o Brasil dos extremistas da esquerda e da direita".

O ex-juiz tem empolgado alguns setores com um potencial eleitoral descolado dos pelotões inferiores da terceira via, mas falta-lhe capilaridade, máquina partidária. Para Doria, isso não deverá tirar esse gás inicial dele.

Em sua estada em Nova York, Doria, 26 empresários e 3 secretários de estado participaram de 14 reuniões e da inauguração do escritório da agência de fomento paulista InvestSP na cidade. Em 6 delas, o tucano conversou com grandes investidores, como a maior gestora de fundos do mundo, a Blackrock -US$ 9,5 trilhões administrados, US$ 30 bilhões no Brasil.

"Todos demonstraram muita preocupação com o futuro do Brasil. Há, sim, uma preocupação com a perspectiva de um novo governo populista, de um lado ou de outro", disse ele.

Segundo a reportagem ouviu de outros integrantes dessas conversas, um dos alvos principais de críticas dos americanos era Guedes, antes uma estrela neste meio. Doria foi sabatinado como candidato a presidente, defendendo uma agenda liberal.

A próxima parada internacional do tucano será em Davos (Suíça), em janeiro, onde participa do Fórum Econômico Mundial.

 

*O jornalista Igor Gielow viaja a convite da InvestSP