Doria anuncia novo comandante-geral e tenta afastar mal-estar com cúpula da PM

ROGÉRIO PAGNAN
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 26/01/2020 - o governador de São Paulo João Doria antes do Ato Solene em Memoria as Vitimas do Holocausto, na sinagoga Etz Chaim. Coluna Moniga Bergamo. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governador João Doria (PSDB) anunciou na tarde desta segunda (9) o coronel Fernando Alencar Medeiros, 51, como o novo comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, em substituição a Marcelo Vieira Salles, que entregou o cargo na semana passada.

O nome de novo comandante foi apresentado durante cerimônia de premiação do chamado Policial Nota 10, em discurso no qual Doria fez elogios ao trabalho de Salles e tentou afastar as notícias de mal-estar com a cúpula da Polícia Militar gerado após o episódio de Paraisópolis.

Coronel Alencar, como é conhecido na tropa, já era o subcomandante da PM desde 2018. Foi a primeira vez na corporação que alguém é indicado ao posto máximo da corporação após ter esse papel de adjunto. Em regra, o número 2 vai para a reserva junto com o número 1.

Considerado uma pessoa discreta e econômica com as palavras, Alencar já passou pelo comando de alguns batalhões, entre eles o mais famoso de São Paulo, o 1º de Choque, conhecido como Rota. Também foi instrutor de direitos humanos para forças de segurança.

“Sou um policial militar, filho de um policial militar, que tem como objetivo agora cuidar da Polícia Militar”, resumiu Alencar sobre si mesmo, em entrevista do lado do governador Doria.

Conforme a Folha de S.Paulo revelou na semana passada, um dos motivos que levaram o comandante-geral Salles a entregar o cargo (dois anos antes do previsto) foi seu descontentamento com Doria após o afastamento de todos os 31 PMs envolvidos na ocorrência durante baile funk em Paraisópolis, no final do ano passado, quando 9 pessoas morreram e 12 ficaram feridas.

O governador negou problemas com a cúpula da Polícia Militar e disse que as notícias do litígio entre ele e Salles estavam erradas. “[Salles] É meu amigo e continuará meu amigo. Tomou uma decisão bem pensada. Há razões para isso e eu respeito”, disse.

Questionado pela reportagem sobre se havia considerado um erro ter afastado os 31 policiais militares que participaram da ocorrência em Paraisópolis, Doria disse que tomou a decisão por sensibilidade porque os PMs corriam perigo se continuassem nas ruas.

“Eu entendi, pela minha sensibilidade, que não atender ao apelo dos familiares iria colocar em risco a própria vida dos policiais militares ou em risco a situação de paz e de equilíbrio que nos desejamos para Paraisópolis”, disse ele.

O afastamento ocorreu em dezembro do ano passado, após reunião entre Doria e familiares das vítimas da ação policial desencadeada na favela da zona sul paulistana.

Salles concentrou seu discurso em agradecer a Doria e ao general Campos pela oportunidade de comandar a PM, mas não deixou de pontuar que a relação entre eles nem sempre foi harmônica. “As palavras ao senhor são de gratidão. As relações das pessoas que trabalham juntas, não aquelas almas frias e tímidas, por vezes têm momentos tensos, é natural porque todo mundo quer acertar, fazer o melhor”, disse.

Em seu discurso, Salles deu indicativos de nem ter sido consultado sobre a escolha de seu substituto, ao dizer que só ficou sabendo nesta segunda (9) quem era o escolhido para o comando.

Também fez elogios para afastar a possibilidade de uma debandada de oficiais da PM, como circulou em grupos de policiais neste final de semana. “Não há nenhum problema. Nossa tropa continua altiva e trabalhando muito. Com o coronel será melhor ainda, porque ele é muito melhor do que eu”, disse.

O comandante-geral que deixa o cargo não negou que vá disputar um cargo eletivo. Disse, porém, que é candidato a cuidar da família, em especial do pai. “Ele tem 87 anos. Quero cuidar um pouquinho dele.”

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RAIO-X

Nascimento: São Paulo, 28 de maio de 1968

Ingresso na Polícia Militar: fevereiro de 1985 (como aluno na academia)

Formação Acadêmica: bacharel em direito e educação física; doutorado em ciências policiais de segurança e de ordem pública


Onde trabalhou:

- 4º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano;

- Instrutor na Academia de Polícia Militar do Barro Branco

- Instrutor na Escola Superior de Soldados

- 23º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano;

- CPA/M – 5;

- 33º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano;

- Casa Militar do Estado de São Paulo;

- Comandante do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano – (Paraisópolis);

- Comandante do 1º Batalhão de Choque

- Comandante do CPA/M – 10;

- Instrutor de Direitos Humanos para Forças de Segurança na América Latina - CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha)