Doria anuncia retorno de Miami após vice receber diagnóstico de Covid-19

CAMILA MATTOSO E MARCO RODRIGO ALMEIDA
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*ARQUIVO* SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 21.07.2020.  O Governador João Doria.  (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 21.07.2020. O Governador João Doria. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governador João Doria (PSDB-SP) cancelou sua licença de dez dias do cargo e anunciou que vai retornar a São Paulo ainda nesta quarta-feira (23). Seu vice, Rodrigo Garcia (DEM-SP), que está em seu lugar, recebeu resultado positivo para Covid-19.

"Acabo de receber a notícia de que o vice-governador testou positivo para Covid-19. Por conta disso, estou cancelando minha licença e retorno ainda hoje para SP para seguir o trabalho à frente do governo de SP. Desejo pronta recuperação ao Rodrigo Garcia", escreveu Doria nas redes sociais.

Doria viajou com a mulher para Miami na noite desta terça (22). A informação foi publicada pela Revista Oeste.

Em nota, a equipe de comunicação do governador informou que "Doria comunicou na segunda-feira (21), durante coletiva de imprensa, que se afastaria por dez dias a partir desta terça (22) para se dedicar à família, pois se ausentou desse convívio durante o combate à pandemia do coronavírus".

Segundo a assessoria de imprensa, mesmo na ausência do governador o centro de contingência continuaria com suas ações ininterruptas para conter a pandemia.

A divulgação da viagem para passar o fim de ano em Miami gerou nas redes sociais uma onda de indignação e críticas de grupos variados do espectro político: bolsonaristas, nomes da direita não alinhados ao presidente e esquerdistas.

As queixas eram de que Doria teria sido hipócrita ao embarcar para os EUA no dia em que anunciou mais restrições para o fim de ano em São Paulo.

Na terça, o governador determinou que o estado regrida para a fase vermelha, a mais restritiva do plano de contenção da pandemia do novo coronavírus, durante os feriados de Natal e do Ano-Novo. Nessa etapa, é permitido o funcionamento apenas de atividades consideradas essenciais, como serviços de saúde e supermercados.

O governo do São Paulo também proibiu celebrações em estabelecimentos comerciais, como bares, restaurantes, hotéis e salões de festas, e recomendou que as festas caseiras não reúnam mais do que dez pessoas e evitem a presença de idosos.

Nomes ligados a Jair Bolsonaro concentraram a maior parte das críticas a Doria, tido como rival do presidente para 2022.

"Doria embarcou para Miami. Teria problema nenhum, se não fosse o fato dele decretar restrições em São Paulo para o Natal. Isso não é só hipocrisia, é desrespeito com a fé alheia. Lockdown para você, viagem para mim. É um total sem moral esse aí, que já tá sendo apelidado de ditadoria", escreveu o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.

Bolsonaro e Doria travam uma luta, ambos de olho na eleição de 2022, em relação aos métodos de enfrentamento da pandemia. O presidente sempre se opôs ao isolamento social e a restrições ao comércio, além de incentivar desconfianças sobre as vacinas. Já o governador aposta no Coronavac, imunizante produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a fabricante chinesa Sinovac, para ganhar projeção nacional.

"Lockdown para vocês! Férias em Miami para mim... 1000 vezes, CANALHA!", protestou Carla Zambelli (PSL-SP), uma das principais aliadas do presidente, em rede social.

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, disse que Doria se comporta como "rei absolutista" e aproveitou o caso da viagem para criticar a vacina Coronavac. "Lockdown para vocês; para mim, Miami! A pretexto de combater uma epidemia e impor vacina sem comprovação, trata o povo de São Paulo como cães, e vê a si mesmo como um rei absolutista."

Também aliado de Bolsonaro, Roberto Jefferson, presidente do PTB, chamou o governador de "cara de pau".

"Doria, com toda a sua hipocrisia, anunciou que sairia por dez dias de férias e iria para Miami, enquanto em São Paulo o seu governo arroxa as medidas de perseguição à população. Sentindo o cheiro de queimado, Doria cancelou a viagem usando uma desculpa furada. É um cara de pau!"

Nomes e grupos de direita menos alinhados ou mesmo críticos a Bolsonaro também rechaçaram a atitude do governador. "O sujeito que mandou fechar tudo em SP partiu pra Miami? Pelo amor", rebateu o MBL (Movimento Brasil Livre).

O senador Major Olímpio (PSL-SP), ex-correligionário do presidente, também se manifestou: "Lockdown e fase vermelha para o povo? Em Miami, segundo Doria, estaria liberado. Ele foi, deixou várias viaturas cuidando do seu muro, mas não aguentou a pressão e está voltando!".

Já o deputado estadual Arthur do Val (Patriota-SP), candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo, aproveitou o caso para tecer críticas a Doria, Bolsonaro e Bruno Covas, prefeito de São Paulo.

"No agravamento da crise, o prefeito da maior cidade aumenta seu salário em 46%, o governador do maior estado tranca todo mundo em casa e vai pra Miami e o presidente compra cloroquina e vai pescar. Boas festas."

No campo da esquerda, Guilherme Boulos (PSOL), também derrotado na disputa municipal paulistana, disse que ato de Doria foi vergonhoso. "Doria passou meses negando a piora na pandemia em SP pra influenciar as eleições. Agora, com o agravamento dos casos, o que ele faz? Embarca pra passar férias em Miami. Vergonhoso!"

Sua colega de partido, a deputada federal Sâmia Bomfim, também se manifestou. "Enquanto Doria vai tomar sol em Miami, e Covas aproveita o aumento de salário, o povo sofre."

A onda de críticas a Doria pode parecer uma vitória de Bolsonaro nesta etapa da luta, mas outro acontecimento da pessoa aponta na verdade um empate, do qual ambos saíram arranhados. A prisão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), apoiado pelo presidente na eleição da qual saiu derrotado, gerou desgaste para Bolsonaro, que se esquivou de comentar o caso.

Nesta quarta, de férias em Santa Catarina, disse a jornalistas não querer "entrar no mérito" da prisão.