Doria chama Pazuello de 'vergonha nacional' após denúncia de superfaturamento da Coronavac

·4 minuto de leitura
Brazil's Sao Paulo state Governor, Joao Doria, is pictured as the inputs for production the CoronaVac, Sinovac Biotech's vaccines against the coronavirus disease (COVID-19), arrive at Sao Paulo International Airport in Guarulhos, near Sao Paulo, Brazil March 4, 2021. REUTERS/Carla Carniel
Em janeiro, o governo já havia anunciado a aquisição de 100 milhões de doses da Coronavac do Instituto Butatan, pelo preço de US$ 10 a dose. Ou seja, a negociação com a World Brands sairia quase três vezes mais (Foto: REUTERS/Carla Carniel)
  • O governador de São Paulo, João Doria (PSBD), chamou o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de "vergonha nacional" após denúncias de superfaturamento da vacina Coronavac

  • Mais cedo, reportagem revelou que o ex-ministro prometeu a um grupo de empresários comprar 30 milhões de doses da Coronavac por quase o triplo do preço negociado pelo Butantan

  • A reunião aconteceu fora da agenda oficial, no dia 11 de março; Pazuello foi demitido por Jair Bolsonaro (sem partido) quatro dias depois, no dia 15 de março

O governador de São Paulo, João Doria (PSBD), chamou o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de "vergonha nacional" após denúncias de superfaturamento da vacina chinesa Coronavac durante sua gestão no Ministério da Saúde.

"Enquanto trabalhávamos para viabilizar a Coronavac de forma segura e com preço justo para os brasileiros, o ex-Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em nome do Governo Bolsonaro, negava a vacina e superfaturava seu preço nos bastidores. Uma vergonha nacional!", escreveu Doria em uma rede social.

Leia também:

Mais cedo, reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou que o ex-ministro prometeu a um grupo de empresários comprar 30 milhões de doses da Coronavac por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan.

Segundo denúncia, a reunião aconteceu fora da agenda oficial, dentro do ministério, no dia 11 de março. O então ministro foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quatro dias depois, no dia 15 de março

Nas imagens divulgadas, quase que de um vídeo institucional, o general da ativa do Exército aparece ao lado de quatro pessoas que representariam a World Brands, uma empresa de Santa Catarina que lida com comércio exterior.

“Já saímos daqui hoje com o memorando de entendimento já assinado e com o compromisso do ministério de celebrar, no mais curto prazo, o contrato para podermos receber essas 30 milhões de doses no mais curto prazo possível para atender a nossa população”, diz Pazuello, na gravação.

De acordo com a Folha, a proposta da World Brands oferece os 30 milhões de doses da vacina do laboratório chinês Sinovac pelo preço unitário de US$ 28 a dose, com depósito de metade do valor total da compra (R$ 4,65 bilhões, considerando a cotação do dólar à época) até dois dias após a assinatura do contrato.

Em janeiro, o governo já havia anunciado a aquisição de 100 milhões de doses da Coronavac do Instituto Butatan, pelo preço de US$ 10 a dose. Ou seja, a negociação com a World Brands sairia quase três vezes mais.

Former Brazil's Health Minister Eduardo Pazuello attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 20, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O então ministro foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quatro dias depois, no dia 15 de março (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Pazuello disse à CPI que nunca negociou com empresas

A gravação já está de posse da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado.

Além da discrepância no preço, o encontro fora da agenda contradiz depoimento de Pazuello à CPI. Na ocasião, ele afirmou que não liderou as negociações com a Pfizer sob o argumento de que um ministro jamais deve receber ou negociar com uma empresa.

“Pela simples razão de que eu sou o dirigente máximo, eu sou o ‘decisor’, eu não posso negociar com a empresa. Quem negocia com a empresa é o nível administrativo, não o ministro. Se o ministro… Jamais deve receber uma empresa, o senhor deveria saber disso”, disse.

Butantan ofereceu entregar 100 milhões de doses até maio

Em depoimento à CPI da Covid, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que enviou um ofício ao Ministério da Saúde oferecendo 100 milhões de doses da Coronavac, em 7 de outubro de 2020.

"Eu refiz um outro ofício, em 7 de outubro, reafirmando os ofícios anteriores, e oferecendo 100 milhões de doses. Sete de outubro enviei um outro ofício ao Ministério [da Saúde], vistoriando e ofertando 100 milhões de doses, sendo que desses 100 milhões, 45 milhões seriam produzidas no Butantan até 2020, 15 milhões de doses no final de fevereiro e 40 milhões adicionais até maio deste ano", detalhou.

Antes disso, a primeira oferta havia sido em 30 de julho, de 60 milhões de doses, segundo Covas.

Tratativas paralisadas após declarações de Bolsonaro

As tratativas, no entanto, foram paralisadas após as falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que se opôs à compra da CoronaVac. Em depoimento à CPI da Covid, o ex-ministro Eduardo Pazuello negou que o presidente tenha impedido o Ministério da Saúde de comprar as doses. No entanto, há falas públicas do presidente contra o imunizante, nas quais ele expressa que "já mandou cancelar" a compra.

Segundo Covas, em dezembro, o Butantan tinha 5 milhões de doses prontas para serem aplicadas e outras 4 milhões em processamento. Mas, sem contrato. "Poderíamos ter começado a vacinar antes, tínhamos as doses, estavam disponíveis", declarou.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos