Doria corta cartolina, tinta guache e sulfite e atrasa verba para escolas

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PAULO SALDAÑA E ARTUR RODRIGUES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As escolas municipais de São Paulo, sob responsabilidade do prefeito João Doria (PSDB), não vão receber material escolar de uso coletivo neste semestre, como papel sulfite, tinta guache e cartolina. Além disso, não há previsão de quando chegará nas unidades uma verba extra que poderia ser usada para suprir essa necessidade.

Esses materiais são aqueles usados pelos professores durante as aulas, enviados para todas as escolas, de creche a unidades de EJA (Educação de Jovens e Adultos).

No início do mês, a prefeitura publicou uma portaria na qual determinou um corte para menos da metade no tamanho desses kits, segundo comparação com a tabela que valia até o ano passado.

Questionada, a Secretaria da Educação informou que não é possível comparar as duas relações, uma vez que as escolas não receberam esse kit no ano passado, durante a gestão Fernando Haddad (PT), e o novo quantitativo só valerá para o segundo semestre. Na portaria, entretanto, não há essa informação.

Segundo a gestão Doria, as próprias escolas poderiam complementar os kits com o dinheiro de uma transferência chamada PTRF (Programa de Transferência de Recursos Financeiros). Mas até agora as escolas não receberam a primeira parcela --as aulas começaram em fevereiro.

O gestão Doria também não deu previsão de quando os valores serão transferidos para as escolas, que já deixaram de receber a última das três parcelas no ano passado, durante a gestão Haddad.

A falta de material nas escolas ocorre em contexto de cortes promovidos pela Secretario de Educação, sob o comando de Alexandre Schneider. A administração afirma ter um rombo de R$ 7,5 bilhões no orçamento geral do município deste ano.

Para amenizar o problema, a prefeitura já anunciou o corte no programa Leve Leite, o que provocou uma redução neste ano na quantidade de alunos beneficiados.

Katia Regina de Morais, coordenadora pedagógica da escola de educação infantil Porto Nacional, na zona norte, diz que não há mais estoques de materiais nem dinheiro no caixa. O último recurso caiu no meio do ano passado, segundo ela.

"Meus professores estão chegando a usar dinheiro do bolso para comprar materiais, o que não é correto", diz. "Não tem como realizar o projeto pedagógico dessa forma."

Na escola dela, os alunos também não haviam recebido o material escolar individual até a semana passada. Estudantes da escola de ensino fundamental Prof. Primo Pascoli Melaré, também na zona norte, não receberam nada até agora, reclamam pais.

Moradora do Jardim dos Francos, a diarista Siderlene Chagas da Cruz, 39, diz que teve de parcelar os R$ 280 que gastou com o material da filha. "Os dois que estudam na escola estadual receberam. A minha filha que está na escola da prefeitura, não. Então, tive que comprar", diz.

Siderlene diz que nem todas as mães tiveram dinheiro para o gasto extra e que ainda há crianças sem material.

O presidente do Sinesp (sindicato dos especialistas de educação municipal de São Paulo), Luiz Ghilardi, reforça o alarme para a situação. "Como pode fazer educação desse jeito? As escolas estão no sufoco, até agora não há material nem dinheiro."

KITS COLETIVOS

A entidade realiza a cada ano uma pesquisa com profissionais da educação municipal. Na última sondagem, divulgada em julho de 2016, 86% dos professores haviam dito que o material entregue já era insuficiente. "As escolas é que deveriam escolher os materiais de acordo com seus projetos pedagógicos", ressalta o presidente do sindicato.

Comparando a nova relação de materiais definida por Doria com a lista anterior, uma creche de grande porte, que receberia 3.158 unidades de itens como papel, tinta e pincéis, passará a ter 1.634 unidades, queda de 48%. Já o lote para pré-escola sairá de 3.981 unidades para 1.616, redução de 59%. Com isso, professores acostumados a usar 48 pincéis atômicos terão que se virar com 24. As 50 unidades de cola viraram 15.