Doria desistiu de ser presidente e isso muda bastante sua vida

João Doria e a mulher, Bia, durante o anúncio da desistência (REUTERS/Carla Carniel)
João Doria e a mulher, Bia, durante o anúncio da desistência (REUTERS/Carla Carniel)

Uma das grandes notícias desse ano eleitoral aconteceu na segunda-feira: João Doria, ex-governador de São Paulo, desistiu da disputa para a presidência da República. E a verdade é que eu, você, temos muito a ver com isso, porque perdemos todos. Democracias se estabelecem por terem na disputa o debate.

Mesmo o Brasil com tantos partidos políticos que não beneficiam a boa argumentação, sempre possuiu mais de uma via forte nas eleições: PT, PSDB e outro partido correndo por fora. E o que vamos ver nesse ano? Uma polarização entre Lula e Bolsonaro que de saudável não tem nada. Uma verdadeira guerra onde vale tudo para manter ou voltar ao poder. Dois candidatos que têm no seu histórico a “fuga” de debates.

João Doria não tinha chances. Não pontuava nas pesquisas e não tinha o apoio do partido. Por mais que a gente não vote mais em partidos políticos (votamos no candidato, no personagem) não tem como vencer uma eleição sem eles. O PSDB estava completamente rachado. Doria não tinha apoio dos governadores, sendo um deles, o do Rio Grande do Sul, seu maior inimigo. Como ele iria atuar nas eleições? Pedir palanque para quem? Imaginem ele chegar no seu estado, onde seu governador apoia, por exemplo, Bolsonaro, e pedir votos? Fica isolado. Falando para as moscas.

Nem em São Paulo, seu próprio estado, Doria tinha apoio. O candidato do PSDB ao governo, Rodrigo Garcia, estava tentando ao máximo se distanciar de Doria, que colecionou inimigos desde sua chegada ao poder. Doria sempre mostrou um ego gigante, o que na política, é odioso. Foi considerado um traidor por seus correligionários quando liberou o partido para apoiar quem quisesse na eleição de 2018: Bolsonaro ou Haddad. Detalhe: Alckmin era candidato e Doria se intitulava “Bolsodoria”.

O PSDB corre um risco sério de se tornar irrelevante. O mesmo PSDB de Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso. Que jamais ficava fora de uma disputa eleitoral e trazia para o debate a social democracia no país.

O Brasil conviveu com hiperinflação por décadas. Vocês lembram daquela época em que tínhamos que ir correndo ao mercado fazer as compras porque no outro dia os preços mudariam de novo? Pois o PSDB corrigiu isso. Gostem ou não, o partido corrigiu uma economia caótica e deu ao país uma moeda. Estável. E, por mais que hoje a lembrança esteja meio apagada, isso foi fundamental para ser quem somos hoje: olhar o pão na padaria na terça e saber que na quarta estará lá, no mesmo preço.

Foi no governo de Fernando Henrique Cardoso que Jose Serra, também PSDB, possibilitou a aprovação da Lei dos Genéricos. Se hoje você compra um remédio pela metade do preço, é por causa dessa lei. Isso é tão comum na nossa vida que eu nem preciso explicar a você os benefícios dessa lei. Está atrelada ao nosso dia a dia.

Mas o próprio PSDB enterrou tudo isso. Jogou na lama sua história. Com João Doria, Alckmin, Aécio Neves, Eduardo Leite e Bruno Araujo que deixaram uma briga de egos prevalecer em relação a unificação do partido. O projeto de nação deu lugar aos projetos pessoais de poder. E, política não se faz sem aliados. Até Bolsonaro percebeu isso. Parabéns aos envolvidos. Enterraram o partido. Jogaram a pá de cal. O PSDB hoje não se elege para síndico de prédio. Não tem mais quadros sólidos.

E, nós perdemos porque até o momento nenhum outro partido parece ocupar essa cadeira vazia. A de contrapor argumentos da esquerda no terreno democrático. Bolsonaro não tem essa capacidade. Fala para uma claque que bate palmas a tudo que disser. Com profundidade ou não. Ciro precisa corrigir a mensagem, ainda prolixa, de difícil entendimento. Não chega no eleitor. Doria não tinha chances. Mas certamente provocaria um debate qualificado e questionador, afinal, gostem ou não, ninguém no país lutou pelas vacinas na pandemia como ele. Nós temos muito a ver com isso.

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