Troca de farpas entre Doria e Bolsonaro dá a largada para 2022

O presidente Jair Bolsonaro recebe João Doria após a eleição, em Brasília. (João Doria/Redes Sociais)

Em janeiro de 2018, ano eleitoral, 53% dos entrevistados ouvidos em uma pesquisa Datafolha diziam que não votariam em nenhum nome indicado pelo ex-presidente Lula na disputa pela Presidência.

A rejeição, em um percentual próximo ao apontado pelo instituto, se confirmaria em outubro daquele ano, quando 55,13% dos eleitores escolheram Jair Bolsonaro (PSL) como presidente. O petista Fernando Haddad obteve 44,87% dos votos.

Bolsonaro não era o candidato favorito da maioria dos eleitores no início da disputa, quando rondou a casa dos 20% das intenções de voto e seu nome batia no teto da rejeição. Ele se fortaleceu à medida que conseguiu incorporar o antipetismo, o desejo de mudança e o desencanto com os partidos tradicionais com um discurso conservador aliado à promessa de combate à corrupção na esteira da Lava Jato, de quem virou não só o nome favorito, mas o chefe de seu maior símbolo, o ex-juiz e hoje (por enquanto) ministro da Justiça Sergio Moro.

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Em oito meses de gestão, ninguém esperava que Bolsonaro amenizasse as críticas ao PT e à herança petista/esquerdista, da qual ele se alimenta e sem a qual ele sequer existiria. Mas era imaginado que, em algum momento, ele sairia do palanque, abrandaria o discurso e sinalizasse, se não um governo de coalizão, ao menos de distensão em relação a possíveis aliados da chamada centro-direita, campo que ele agora diz pertencer (risos).

A alta temperatura “contra tudo e contra todos” tem uma explicação.

Na reta final do segundo turno, com chances reais de derrota, o então candidato ao governo de São Paulo João Doria, do PSDB, estimulado pela recém-eleita deputada pelo PSL Joice Hasselmann, abraçou o slogan “Bolsodoria” para turbinar sua campanha na esteira da vitória quase certa do capitão. A ideia era convencer os eleitores paulistas de que ele era o nome mais alinhado ao presidenciável que, ao fim da disputa, venceria em 631 das 645 cidades do estado de São Paulo.

A aproximação rendeu alguns afagos, hoje substituídos por cotoveladas. Quando Bolsonaro afirmou que sabia como havia morrido, durante a ditadura, o pai do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Fernando Santa Cruz, Doria, na época, considerou a fala “inaceitável”.

Bolsonaro respondeu na primeira oportunidade, dizendo que Doria “mamou” nos governos petistas quando comprou um jatinho a juros subsidiados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

“Nunca mamei em teta nenhuma”, respondeu Doria.

Aparentemente de forma gratuita, o presidente voltou à carga ao atribuir a ascensão de Doria, um empresário há três anos que se tornou o presidenciável mais viável hoje do PSDB, a uma “ejaculação precoce”.

A declaração levou a primeira-dama do estado, Bia Doria, a se manifestar em seu perfil do Instagam, onde ela disse repudiar “com veemência as declarações do Presidente da República, que usa expressões chulas, que ferem e desrespeitam a família brasileira e a importância do cargo que ocupa”.

A expressão “família brasileira” não estava ali à toa. Na mesma semana, o governador paulista, de olho no campo conservador que só cresce no país, mandou recolher da rede estadual de ensino um material didático que faria uma suposta “apologia à ideologia de gênero”.

A apostila trazia temas como equação de primeiro grau, figuras de linguagem e revoltas no Brasil colonial, mas o que pegou foi a reprodução, em três das 141 páginas, de conteúdo do Ministério da Saúde, segundo o qual “a identidade de gênero refere-se a algo que não é dado e, sim, construído por cada indivíduo a partir dos elementos fornecidos por sua cultura”.

Foi o estopim para um escarcéu tecido no populismo mais barato. Doria, parece óbvio, quer avançar em um campo onde Bolsonaro nadou de braçada em 2018. Fará isso alimentando e manejando o antipetismo que jogou a faixa presidencial no colo de um ex-deputado do baixo clero há alguns meses e que hoje é rejeitado por 38% da população, segundo o Datafolha.

O presidente, por sua vez, não quer concorrência no próprio quintal, o que talvez explique as caneladas, sempre aparentemente gratuitas, não só em Doria, mas em qualquer um que possa fazer sombra e ele, inclusive Sergio Moro, cuja aprovação no Datafolha é 25% superior à do chefe.

A postura de Bolsonaro, até aqui, é de eucalipto, que não permite que nada, além dele, cresça ao seu redor.

O resultado é um campo erodido, e é lá que Doria tenta fincar a bandeira. Na última semana, ele classificou como “indelicadeza” as declarações de Bolsonaro sobre a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet e seu pai, preso, torturado e morto em 1974 pela ditadura militar no país. Ele aconselhou o presidente a cuidar mais do país e disse que “não será com brigas que vamos construir uma imagem positiva do Brasil no mercado internacional”.

Os sinais já permitem visualizar os dardos para as eleições municipais do ano que vem, mas também o terreno minado de Bolsonaro em busca da reeleição que ele jurava, até pouco tempo atrás, abdicar. 2022 começou.