Doria fez previsão 'muito otimista' sobre uso da ButanVac em julho, diz pesquisador da Fiocruz

Redação Notícias
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Brazilian acting Secretary of Health Surveillance Julio Croda speaks during a press conference about coronavirus control and prevention, in Brasilia, on January 23, 2020. - Chinese officials on Thursday expanded the shutdown of public transport around Wuhan, a central city believed to be the epicentre of a new SARS-like virus. (Photo by Sergio LIMA / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Júlio Croda disse que os estudos até a fase 3 - a última antes do uso no PNI - podem demorar até 6 meses. (Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images)
  • Ex-diretor do Ministério da Saúde crê em previsão 'muito otimista' de Doria para uso da ButanVac em junho

  • Julio Croda acredita que o imunizante, se aprovado pela Anvisa, estará disponível a partir de agosto

  • Fiocruz também estuda a possibilidade de desenvolver uma vacina própria

Pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-diretor do Ministério da Saúde, o infectologista Julio Croda avaliou como "muito otimista" a previsão de uso da ButanVac já para julho deste ano feita pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). 

Durante o anúncio de detalhes da vacina brasileira contra a Covid-19 que está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan, Doria afirmou que espera que o imunizante seja aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e integre o PNI (Programa Nacional de Imunização) no começo do segundo semestre de 2021.

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"É um prazo muito otimista. É muito difícil já estabelecer uma data. Pelo que entendi, iniciar a produção em maio. Isso ele (João Doria) pode afirmar. Essas doses podem ser estocadas. Mas uma coisa é a produção. A aplicação na população só vai ser feita depois que Anvisa analisar os estudos da fase 3", afirmou Croda, em entrevista à CNN Brasil.

TESTES DE FASE 3 LEVARIAM MAIS DE 3 MESES

O pesquisador acredita que as fases 1 e 2 dos testes podem ser concluídas dentro de 1 ou 2 meses. Contudo, a fase 3 — que envolve um número maior de voluntários — deve demorar, no mínimo, mais 3 meses. No fim, o imunizante estará autorizado ao uso somente em agosto. 

Segundo o Instituto Butantan, serão 1.800 voluntários nas fases 1 e 2. Na fase 3, 9 mil pessoas devem participar. A ideia é que participem cidadãos que ainda estão fora do Plano Nacional de Imunização.

"A gente precisa de dados de eficácia. Então vai precisar de um tempo, mais ou menos de 3 a 6 meses, se tiver circulação viral alta. Então não vai dar tempo de fazer esses estudos já com finalização de dados de eficácia", concluiu Croda.

FIOCRUZ ESTUDA VACINA PRÓPRIA

O infectologista indica ainda que a Fiocruz também estuda a possibilidade de desenvolver uma vacina própria. Mas, segundo Croda, está focada na transferência de tecnologia que permitirá a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil.

"Tem propostas de vacina dentro da Fiocruz, no sentido de ter uma vacina 100% brasileira. Mas aqui a transferência de tecnologia da vacina de Oxford vai ser rápida. No 2º semestre já vão produzir sem necessidade de IFA. Se isso acontecer, a gente vai ter autonomia. E é isso que importa, para programar a vacinação dos brasileiros com tranquilidade".

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - FEBRUARY 12: A laboratory technician prepares vials of the first experimental batch of the AstraZeneca/Oxford vaccines against Covid-19 at the Institute of Technology in Immunobiology (Bio-Manguinhos) on February 12, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. The Oswaldo Cruz Foundation (Fiocruz) started to bottle vaccines manufactured in partnership with AstraZeneca and finished in Brazil with raw materials (active pharmaceutical ingredients) imported from China. The first million doses are due by March 19. (Photo by Wagner Meier/Getty Images)
Fiocruz cogita desenvolver vacina própria, mas, segundo Croda, está focada na transferência de tecnologia que permitirá a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil. (Foto: Wagner Meier/Getty Images)

O QUE JÁ SABEMOS SOBRE A BUTANVAC

Em que estágio está o estudo da ButanVac?

Até o momento, foram feitos estudos pré-clínicos da vacina, ou seja, apenas em animais. Nesta sexta, o Butantan vai enviar à Anvisa o pedido de autorização para iniciar os testes em pessoas. Também serão enviados documentos referentes à vacina para a Organização Mundial da Saúde.

O objetivo é que, em abril, com a autorização da Anvisa, o Butantan possa começar a nova etapa de testes, com as fases 1 e 2.

Quem pode se voluntariar para os testes?

“No primeiro momento, serão adultos, acima de 18 anos, e podemos abrir o voluntariado para aqueles que não estão sendo vacinados pelo Programa Nacional”, afirmou Dimas Covas.

Quando a vacina começará a ser aplicada?

Caso os planos do Butantan se concretizem, a vacina pode começar a ser aplicada em julho de 2021. Segundo Dimas Covas, a celeridade do processo é possível porque o Instituto sabe mais sobre o coronavírus do que sabia quando começou a testar e produzir a CoronaVac, por exemplo.

“O que leva a nós termos esse cronograma é a experiência adquirida, inclusive com o estudo clínico da CoronaVac”, disse Covas durante coletiva de imprensa nesta manhã. Em julho, o Butantan pretende ter 40 milhões de doses da ButanVac.

Quantas doses terá a ButanVac?

O número de doses necessárias para a imunização completa com a ButanVac só será definido após os testes clínicos da vacina. No entanto, Dimas Covas afirmou que o imunizante apresentou bons resultados imunogênicos, ou seja, boas respostas imunológicas.

Com isso, o Butantan não descarta a possibilidade de que a ButanVac será aplicada em dose única.

A vacina é só para São Paulo?

Não, a ButanVac, se autorizada, será repassada ao governo federal para que seja usada no Plano Nacional de Imunização. “São Paulo faz parte do Brasil”, disse o governador João Doria. “A opção é salvar os brasileiros.”

Além disso, o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, ainda cogitou a possibilidade de exportar a vacina, depois que o Brasil for atendido.

"Nosso compromisso é fornecer essa vacina para países de renda baixa e média. Porque é lá que nós precisamos combater a pandemia. Se o mundo rico combate porque tem recursos, e vai ficar relativamente livre do vírus, os países com renda baixa ou média, que tem dificuldades para obter recursos, vai continuar com a pandemia", explicou Covas.

O que acontece com a CoronaVac?

A CoronaVac continuará sendo produzida normalmente pelo Instituto Butantan. Até 30 agosto, o governo do estado de São Paulo entregará um total de 100 milhões de doses da vacina produzida em parceria com a SinoVac.

A ButanVac e a CoronaVac serão produzidas em fábricas diferentes, por isso, não haverá qualquer tipo de interferência, segundo o Butantan. “Essa vacina [ButanVac] será produzida em uma outra fábrica, não é a fábrica que está sendo reformada para produção da CoronaVac. É uma fábrica usada para a vacina da gripe, e vai começar a ser produzida em maio, logo após a campanha da gripe”, relatou Covas.

Além disso, Doria não descartou a compra de outras vacinas, de outros laboratórios