Doria precisa ter mais empatia com população sob dificuldade, diz prefeito de Campinas

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), espera que o governador João Doria (PSDB) confie mais na avaliação dos prefeitos do estado e anuncie nesta sexta-feira (8) o início da flexibilização da quarentena --do contrário, diz, será difícil manter o isolamento, porque a população já está esgotada.

"É o momento de ele começar a ter um pouco mais de empatia com a camada da população que está sofrendo. Se ele chegar no dia 8 e disser que será estendido até dia 30, vai ser muito complicado, vamos ter grandes dificuldades, porque a gente está vivendo em um Estado de Direito, e estamos cerceando os direitos das pessoas", disse à reportagem.

Doria afirmou na segunda-feira que as cidades com taxa de isolamento social abaixo de 50% estarão excluídas do relaxamento de quarentena que será anunciado no dia 8.

Campinas, onde houve 25 mortes por Covid-19 e 418 casos confirmados, registrou índice de 45% na segunda-feira (4) e tem se mantido nessa faixa durante a semana.

Donizette, que também é presidente da Frente Nacional de Prefeitos, critica esse critério. "O olhar frio sem ter a compreensão do contexto local é injusto."

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Pergunta - Até agora, qual foi o custo econômico para Campinas em queda de arrecadação e perda de empregos da pandemia do coronavírus?

Jonas Donizette - Esses números sempre refletem o passado, então vamos sentir agora no mês de maio. Mas em relação ao mês de abril já dá para perceber entre 20% e 30% queda de arrecadação nos municípios.

Há estimativa de demissões em Campinas?

JD - O que está sendo mais abalada é a economia informal, que já não estava nos registros oficiais. Aumentou muito a demanda por assistência social. Antes havia 6.00 pessoas no Cartão Nutrir em Campinas, que era só para alimentação, para pessoas em estado de pobreza e extrema pobreza. Com a Covid, incluímos produtos de higiene pessoal e fomos para 26 mil cartões.

No dia 8 de maio, o governador João Doria vai divulgar o plano de flexibilização no estado. Ele afirmou que as cidades que não chegarem a um índice de isolamento acima de 50% não terão relaxamento. Como o senhor encara a possibilidade de adiamento da abertura?

JD - O Doria está correto na linha dele, mas precisa ouvir um pouco mais os prefeitos. Minha expectativa é que no dia 8 ele anuncie medidas diferentes para as diferentes regiões do estado.

Nós não estamos vivendo o que a capital ou a Grande São Paulo estão vivendo. Campinas, Sorocaba, São José dos Campos não têm tanta interdependência com São Paulo.

É grave, é uma travessia perigosa, mas a gente pode fazê-la com responsabilidade. Em Blumenau, o grande problema foi a abertura do shopping. No nosso plano, a abertura dos shoppings ocorrerá só na segunda fase. Esse plano foi aprovado pelo governo do estado, com elogios, mas eles disseram que não anunciariam nada antes do prazo determinado pelo governador.

O presidente Jair Bolsonaro fala sobre a necessidade de reabrir para retomar a economia.

JD - Esse espírito dele está presente em mim, está no governador Doria. Aliás, o Bolsonaro fala uma coisa que não é verdade. Ele fala que os prefeitos tomam decisões [de isolamento] sem consultar ninguém. Nós enviamos uma consulta ao Conselho Nacional de Saúde, o órgão máximo de assessoramento do presidente para a área de saúde, e o documento recomenda isolamento e, para quem já está fazendo, aumentar o isolamento.

Mas eu faço eco com ele quando ele diz que todos estão sofrendo com a quarentena. Uns estão sofrendo com mais qualidade de vida, vendo Netflix e pedindo comida no delivery, e outros com necessidade, sem saber como vão conseguir comer no dia seguinte. A gente precisa ter essa sensibilidade na equação, sem deixar de valorizar a vida, mas tendo um olhar mais integral.

Campinas, uma cidade de 1,2 milhão de habitantes, registrou 25 óbitos e 418 casos confirmados de Covid-19, cenário menos grave do que em muitas cidades no estado. Como o senhor tem feito para convencer a população a manter o isolamento?

JD - Decretar isolamento não é difícil, o difícil é saber quando sair e como sair. As pessoas dizem 'Campinas não está igual a Manaus'. Vou entregar hospital de campanha com 115 leitos, com pressão negativa. Tem gente que me critica, se o hospital está vazio, por que fazer mais?

A ocupação da UTI está na faixa de 60%. Estava numa faixa menor, mas aumentou por causa de traumas, muitas entregas de moto, e acidente doméstico queimaduras, com muita criança em casa.

Ou seja, temos só 40 internados por Covid numa cidade de 1,2 milhão de habitantes. E 40% são da região metropolitana. É muito difícil para a população entender essa questão. Eles acham que estamos no céu, e não é verdade, estamos controlados, mas a qualquer momento a gente pode precisar de leito.

O ônus político do isolamento vai cair no colo dos prefeitos e governadores?

JD - Fui acusado de estar jogando para a torcida [ao anunciar plano de flexibilização], para dizer que o prefeito quer abrir e o governador não deixou. Não foi isso. [Propus o plano] porque tenho convicção de que o Doria precisa também ter uma flexibilidade na posição dele.

Ele já mostrou que ele tem autoridade, que é um cara capaz de conduzir. É o momento de ele começar a ter um pouco mais de empatia com a camada da população que está sofrendo. Se ele disser no dia 8 que será estendido [o isolamento] até dia 30, vai ser muito complicado, vamos ter grandes dificuldades, porque a gente está vivendo em um Estado de Direito e cerceando os direitos das pessoas.

Se precisar dar um passo atrás, eu vou dar quantos forem necessários. Estaremos monitorando diariamente.

Um dos obstáculos para flexibilização, segundo epidemiologistas, é que várias cidades próximas dependem de Campinas para tratamento médico, talvez São Paulo precise.

JD - Claro que, se eu tiver leito vazio e tiver gente morrendo em São Paulo, não vou dizer não. Mas nós não estamos neste momento.

Então isso, a princípio, não é um impedimento para flexibilização?

JD - Não, acho que não. O governador estaria certo em estender o isolamento na região metropolitana e talvez até dar um aperto na capital, em São Paulo, porque lá está muito complicado. Mas ele precisa olhar para a realidade das outras regiões, dar mais independência e poder de decisão. É isso que eu defendo em nome dos prefeitos.

Se tudo der certo e a gente reabrir, ninguém vai ser louvado por causa disso. Se não der certo, o prefeito será o culpado. Então é uma decisão que precisa ser tomada com muito embasamento técnico.

O senhor questiona a exigência de 50% de isolamento em uma cidade como Campinas?

JD - 50% de isolamento em Campinas é muito mais significativo do que 60% para São Sebastião e Ubatuba, que são cidades turísticas. Campinas, Jundiaí, Sorocaba são cidades industriais, e a indústria está funcionando. Não se pode fazer um corte linear. O olhar frio sem ter a compreensão do contexto local é injusto.

Logo depois que o senhor anunciou o plano de flexibilização, em 27 de abril, caiu muito o índice de isolamento...

JD - Não caiu muito, nós estávamos na faixa de 50%, já estava tendo essa oscilação, e não foi um fenômeno só de Campinas. Eu credito muito mais ao esgotamento por causa do tempo e invoco o doutor Carmino [secretário de saúde de Campinas, Carmino de Souza]. O máximo de isolamento que conseguiram fazer foi em Wuhan, 72 dias. Ele fala que o isolamento que dá para ser controlado é entre 50 e 60 dias. Nós vamos completar dois meses.

Uma das críticas ao plano de flexibilização que vocês apresentaram é incluir academias de ginástica e restaurantes entre os primeiros estabelecimentos que seriam reabertos. Segundo alguns médicos, esses locais são muito propícios a contaminação.

JD - No decreto, pus restaurante com 30% da capacidade. Acho que assim tem condições de ter até mais asseio do que o serviço de delivery. O delivery está enfrentando um verdadeiro estrangulamento. Na academia de ginástica as regras são uso individual, com distanciamento e higienização, e ajuda a parte emocional das pessoas. Eu defendo, sim.

Eu estou pedindo uma audiência com o secretário-executivo do Ministério da Saúde, general Eduardo Pazuello, para discutir todas essas coisas. O Nelson Teich [novo ministro da Saúde] vai ser uma figura decorativa, nunca trabalhou no setor público. Até entender aquilo vai um ano. Então pedi audiência com o general porque sinto que é ele que fará a logística funcionar.