Doria prevê 'entendimento pacífico' do empresariado com novo governo

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 31.03.2022 - O ex-governador de São Paulo João Doria. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 31.03.2022 - O ex-governador de São Paulo João Doria. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no 2º turno, o ex-governador de São Paulo João Doria diz acreditar que o empresariado não terá dificuldade em dialogar com a nova gestão do petista.

"Assim que a política econômica e os gestores dessa política econômica do governo Lula forem definidos, o empresariado brasileiro deve seguir adiante com as suas propostas e em um entendimento pacífico e sereno com o novo governo, sem nenhum viés, nem ideológico nem partidário", afirma.

Doria, que declarou voto nulo no 2º turno, com críticas a Lula e a Bolsonaro, e carrega o rompimento com o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin, afirma que o Lide, empresa de sua família, sempre teve a participação de representantes de todos os governos em seus eventos com empresários. "E continuará agora a fazer também no futuro governo Lula", diz.

Em sua saída da política, encerrada com a desfiliação do PSDB no mês passado, Doria volta ao setor privado com a consultoria D Advisors e o posto de conselheiro do Lide, que realiza sua próxima conferência nos dias 14 e 15, em Nova York, com a presença de ministros do Supremo e outros nomes da economia.

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Pergunta: Como tem sido o retorno ao setor privado?

João Doria: Eu volto para onde eu vim, o setor privado, onde investi 45 anos da minha vida, tendo começado como office boy e terminado como empresário, depois de seis anos de vida pública, entre campanha, prefeitura, campanha e governo de São Paulo. Nos últimos quatro meses, esse retorno foi bastante positivo, com imagem de credibilidade no setor privado, acumulado pela gestão pública da maior cidade e do maior estado do Brasil.

P.: Além da Paper Excellence, quais são os outros clientes da sua consultoria e em quais setores vai atuar?

JD: Por contrato, não posso revelar quais são os clientes. O da Paper Excellence vazou de alguma maneira. Não posso negar, mas não posso indicar os outros clientes. A cada contrato que eu assino há um compromisso de confidencialidade.

É compreensível, diante disso, em circunstâncias que são empresas que competem no mercado, disputam mercado, e muitas delas são de capital aberto, nacionais e multinacionais. Então, não é prudente fazer revelações dessa ordem. Os setores que estou atendendo são serviços, tecnologia, indústria e comércio.

P.: Como fica o Lide agora? Tem uma agenda internacional?

JD: Agora eu sou vice-chairman do Lide. Divido a posição com Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda, ex-presidente do Banco Central, ex-secretário da Fazenda de SP, e Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, e sob o comando de Luiz Fernando Furlan, que é o chairman. Nossa competência é orientar o Lide nos trabalhos que realiza perante a economia, o desenvolvimento econômico do país no setor privado, contribuição nas análises internacionais.

O Lide tem 16 unidades no exterior para realizar eventos que possam promover o Brasil, trazendo novos investidores e, ao mesmo tempo, contribuindo para a economia, sem nenhum vínculo partidário e muito menos político.

P.: Uma parte do empresariado se posicionou a favor de Bolsonaro. Na sua avaliação, esse empresariado vai ter dificuldade de dialogar com o novo governo? Como deve ser feita essa reaproximação?

JD: Creio que não. O empresariado tem que empresariar. Tem que desenvolver os seus negócios, ampliar os seus campos de atuação. É assim que o empresariado faz. O mercado competitivo exige isso. E ao exigir isso faz com que empresários não tenham que ter vínculos, nem partidários nem ideológicos. Os vínculos são com as suas empresas, com os seus negócios, seus funcionários, seus colaboradores e seus acionistas.

Eu vejo com naturalidade. Houve uma mudança de governo. Dado este fato, assim que a política econômica e os gestores dessa política econômica do governo Lula forem definidos, o empresariado brasileiro deve seguir adiante com as suas propostas e em um entendimento pacífico e sereno com o novo governo, sem nenhum viés, nem ideológico nem partidário.

P.: E o Lide? Já começou esse movimento?

JD: Já começou. O Lide, como instituição apartidária, tem dever e obrigação de defender o Brasil e, ao mesmo tempo, estimular novos investimentos no país, de empresas nacionais ou multinacionais.

Em 2023, o Lide vai realizar seis eventos internacionais com grandes investidores na Europa, no Oriente Médio, na China e nos EUA, exatamente para cumprir o seu papel de mostrar as coisas positivas do Brasil e as inúmeras oportunidades de investimentos nos setores do agro, indústria, comércio, serviços e tecnologia.

P.: No início do governo Bolsonaro, o fórum do Lide teve uma presença muito forte de autoridades do governo Bolsonaro, mas essa presença desapareceu nas edições mais recentes. Como deve ficar a partir de agora?

JD: Tanto no governo Lula, quanto no Temer, quanto no Bolsonaro, ministros e presidentes de estatais participaram dos eventos do Lide regularmente, com mais ou menos intensidade, mas participaram.

O Lide é uma instituição apartidária. Não tem nenhum vínculo partidário ideológico ou a favor ou contra governo. É a favor da livre iniciativa. Portanto, ao longo destes últimos 15 anos, que é o tempo de vida do Lide, ele atuou, promoveu, debateu com gestores e ministros dos governos Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. E continuará agora a fazer também no futuro governo Lula.

P.: O nome de Meirelles, que foi secretário de Fazenda do seu governo, tem sido comentando nas apostas para tocar a Economia. Como avalia?

JD: Caberá ao presidente Lula a decisão do seu futuro ministro da Fazenda e dos ministros da área econômica. O que posso testemunhar é a alta capacidade e credibilidade de Meirelles, tanto junto aos mercados no Brasil, como no plano internacional. Viajei com Meirelles a Davos, no Fórum Econômico Mundial, e a vários países, onde vivenciei seu prestígio e sua representatividade.

P.: A questão do ESG ganhou foco nos fóruns recentes do Lide, mas restrita ao tema ambiental. Já a questão racial tem ficado em segundo plano. No fórum deste ano, no Rio, por exemplo, o tema racial só foi tratado no fim do evento. E no mesmo palco que discutiu o assunto ainda havia um palestrante [falando de outros temas, o ativista digital Antonio Lee, de 12 anos, branco], que, por ser criança, trazia algo jocoso ao momento. O Lide pretende dar mais importância ao tema racial?

JD: Naquele momento, eu ainda não estava no board do Lide. Mas eu queria contestar você. Não era uma criança. Era um adolescente. A mesma oportunidade que se dá a uma pessoa experiente pode se dar também a um adolescente. O adolescente também tem opinião, razão, vivência. E representa o futuro. Seria o mesmo que discriminar uma mulher por ser negra e ser mulher para poder participar de um debate.

O fato de ser um jovem adolescente, de 13 anos, não deve impedir que ele emita opinião. É o futuro do Brasil. São esses jovens que vão fazer o futuro da nação. Portanto, não houve nada de jocoso nisso. Houve, sim, a pertinência de se colocar um jovem no debate. E foi bastante aplaudido.

E a presença negra, positiva, de uma mulher, falando sobre a questão racial, era a secretária de Cultura do município de São Paulo, Aline Torres, que é uma pessoa de grande envergadura nesse debate da diversidade e dos valores que representam o respeito, a não discriminação. Esse tema foi tratado sim. E ambientado dentro do Lide.

Agora, a questão específica ambiental tem uma predominância forte porque ela expressa também, no mercado internacional um valor que o Brasil, infelizmente, perdeu ao longo do período do governo Bolsonaro. O Brasil se enfraqueceu nas suas posições perante os eventos da COP, pelo comportamento errático que o governo atual infelizmente aplicou na questão ambiental.

Então, isso ganhou uma relevância maior, já que investidores europeus e japoneses não costumam implementar investimentos em países que não mantenham um respeito ambiental e políticas claras de preservação do seu meio ambiente e das comunidades indígenas e quilombolas.

Por essa razão, este tema ganhou uma preponderância um pouco maior. Mas não houve descuido, nem distanciamento das questões raciais.

P.: E o próximo evento do Lide, em Nova York? Como a questão democrática deve ser tratada?

JD: É o primeiro grande evento depois das eleições. O debate trata de temas substantivos para o Brasil, a democracia, o respeito à Constituição e à liberdade.

Tem a presença de sete ministros da Suprema Corte e economistas, empresários, executivos, ex-ministros, representantes da sociedade civil, que estarão debatendo, com 260 empresários do Brasil e representantes de bancos e fundos sediados nos EUA, que também têm interesses e investimentos no Brasil já consolidados e provavelmente interesse em ampliar seus investimentos nos próximos anos.

RAIO-X

João Doria, 64

Fundador e ex-presidente do Grupo Doria, assim como do Lide (Grupo de Líderes Empresariais), empresa que promove debates entre representantes dos setores público e privado, João Doria foi prefeito de São Paulo de 2017 a 2018, governador de São Paulo entre 2019 e 2022