Doria quer pressa em prévia nacional, mas adia a estadual por Alckmin

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 10.10.2018 - O governador tucano João Doria. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 10.10.2018 - O governador tucano João Doria. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Parafraseando nosso governador Geraldo Alckmin: ano par é ano de discutir eleição em São Paulo, ano ímpar a gente trabalha. [...] A minha posição já é diferente em relação a nível nacional. Eu acredito que é fundamental, no momento que nós estamos vivendo, de polarização, que o PSDB possa escolher seu candidato ainda neste ano de 2021", afirmou o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, na última sexta-feira (14), logo após se filiar ao PSDB ao lado do governador tucano João Doria.

Na entrevista, Doria defendeu a realização de prévias de maneira geral e comentou a eleição interna do PSDB, marcada para outubro, que deve escolher o presidenciável da sigla. O governador e seu vice evitaram abraçar a ideia de prévias estaduais.

Garcia, escolhido de Doria para sucedê-lo no Palácio dos Bandeirantes, desconversou sobre candidatura. "No momento certo vamos olhar o futuro, não é nesse momento de filiação. [...] Vou me submeter às regras de candidatura que o partido definir para 2022."

As definições do PSDB no estado dependem do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que busca mais um mandato --o quinto-- à frente do estado. Como já mostrou o jornal Folha de S.Paulo, parte dos aliados de Alckmin defendem prévias entre ele e Garcia.

Como a filiação do vice foi um gesto de Doria para interditar a candidatura de Alckmin e, pensando na candidatura à Presidência, preparar com Garcia palanque favorável no estado, a questão das prévias estaduais ficou no ar.

Nem Garcia nem Doria admitiram o embate com Alckmin, que considera deixar o PSDB, como revelou Mônica Bergamo. Ainda que o ex-governador fique no partido, há entre seus aliados quem avalie que não vale a pena comprar a briga por prévias estaduais.

Os dois citaram Alckmin enquanto empurravam a candidatura estadual para 2022 e elogiavam prévias nacionais.

"Sou defensor das prévias. E aprendi a defender as prévias com Geraldo Alckmin. Foi Geraldo Alckmin que me ensinou, então governador do Estado de São Paulo, o valor das prévias, a importância das prévias, e a necessidade das prévias", disse Doria.

"Como filho das prévias, eu não posso me opor às prévias, ao contrário, eu compreendo a importância delas para o fortalecimento do partido e também no fortalecimento da democracia", completou.

O ex-deputado estadual e ex-presidente do PSDB de São Paulo Pedro Tobias, defensor de Alckmin no partido, lembra esse apoio do então governador para que Doria disputasse prévias em 2016 e em 2018 para cobrar as prévias agora.

"Geraldo tem amor pelo PSDB, é fundador. Vamos lutar pelas prévias dentro do PSDB e vamos ganhar", diz Tobias completando que "só porque Garcia assinou a ficha" não tem preferência".

O presidente do PSDB em São Paulo, Marco Vinholi, secretário de Doria, evitou se comprometer com as prévias e disse que é preciso conversar com as partes interessadas sobre cenários eleitorais.

"Encontraremos o melhor caminho, respeitando a todos e também a democracia interna. Há uma complexidade no cenário estadual que demanda muito diálogo", disse.

Vinholi também é a favor de uma definição nacional em outubro, mas, no estado, pondera que o quadro se complica com a possibilidade de reeleições --caso de José Serra no Senado e de Garcia para o governo, se ele assumir o estado em abril com a saída de Doria para disputar a presidência.

"Há uma ampla gama de quadros com estatura para cargos majoritários. O fato de o partido ser forte, com muitos quadros de qualidade, não é problema, ao contrário, é algo muito positivo", completa.

Aliados de Doria já defenderam, nos bastidores, que a preferência é de quem disputar a reeleição, como seria o caso de Garcia, e que não caberiam prévias. Outros tucanos não têm esse entendimento.

Em seu discurso, Garcia, que foi secretário de Alckmin por dois mandatos, agradeceu ao ex-governador. "Ter gratidão é um exercício bom de simplicidade e humildade. Muito obrigado, Geraldo, pelas oportunidades que você me deu."

Para Doria, é preciso "respeitar a experiência, mas inovar com os mais jovens", em referência direta a Garcia e velada a Alckmin.

Doria quer prévias com o mesmo peso de votos a todos os filiados --o que lhe favorece, dada a concentração de tucanos em São Paulo. Ele agradeceu a militância e deu um recado. "Todo voto é um voto. [...] Todos são iguais perante a democracia."

Se Doria prefere que as prévias nacionais sejam em outubro, outros possíveis presidenciáveis, como o senador Tasso Jereissati (CE), querem adiá-las para o ano que vem.

Para Garcia, prévias ainda neste ano darão "o tempo necessário para que o candidato do PSDB possa expor suas ideias para o Brasil".

O governador de São Paulo quer ter tempo para construir uma campanha e resgatar sua imagem. Ele marcou 3% na última pesquisa Datafolha, em que Lula (PT) aparece com 41% e o presidente Jair Bolsonaro com 23% das intenções de voto.

Sobre a pesquisa, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, disse poder haver convergência do partido para que as prévias ocorram ainda este ano, já que outros candidatos estão em franca campanha. Uma comissão tucana irá definir as regras e a data da eleição interna.

Já Alckmin conversa com uma série de partidos --não só sobre migração, mas sobre alianças em 2022. As siglas mais citadas são PSD e DEM, cujo presidente, ACM Neto, rompeu com Doria após a filiação de Garcia. Também já houve aproximação com PSB, PV, Podemos e PSL. Procurado pela reportagem, Alckmin não se manifestou.

Tucanos apostam que a morte do prefeito Bruno Covas (PSDB) vai esfriar por enquanto a ação de Alckmin. Covas foi fiador da filiação de Garcia e deixou claro o apoio ao vice em carta escrita na sexta, quando foi sedado com quadro irreversível.

Alckmin está diante de um dilema, segundo aliados. Como fundador do PSDB, ele prefere ficar na sigla, mas isso significa abdicar de ser candidato ao governo ou enfrentar a máquina do Bandeirantes num embate de prévias com um tucano novato, algo que o diminuiria politicamente.

No entorno de Doria, a aposta é a de que ele não deixará o PSDB e a ideia é buscar diálogo para acertar a chapa de 2022. A proposta de que Alckmin dispute o Senado, por exemplo, tem dois problemas: o ex-governador não gosta do arranjo e Serra pode buscar a reeleição.

Diversos partidos afirmam que o ex-governador seria bem-vindo. Apoiadores de Márcio França (PSB), por exemplo, incentivam a repetição da chapa com Alckmin, vitoriosa no estado em 2014, caso ele realmente deixe o PSDB.