Doria truca PSDB, mas pressa em ganhar partida pode trazer problemas

Tiago Dantas
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O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), é frequentemente descrito por seus pares como um jogador que gosta de apostar alto e agir com pressa. Com esse estilo, ele pulou, em cinco anos, do comando de uma empresa que organiza encontros entre políticos e empresários para a cadeira de prefeito da maior cidade do país e, dali, para o governo do estado mais rico do Brasil. As apostas renderam dividendos, mas também alguns reveses.

Ao apresentar ao PSDB um plano para tomar controle da legenda, Doria age como se tivesse um "zap" na mão, uma carta tão alta que seria suficiente para trucar o partido e ganhar o que deseja. Logo, em troca do seu capital político inflado pelo controle da máquina paulista e pela CoronaVac, ele receberia a presidência da legenda, a expulsão de desafetos, como Aécio Neves, e a certeza da candidatura em 2022.

Mas na política, ao contrário do que acontece no truco, as vitórias dependem de consenso — e levam tempo.

Mesmo tucanos que concordam o projeto presidencial de Doria acham que ele avançou o sinal na forma como comunicou suas intenções na segunda-feira. Nem o atual presidente do partido, Bruno Araújo, nem o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, foram informados previamente que o governador pretendia se oferecer para comandar o PSDB já a partir de maio.

A falta de articulação interna pode atrapalhar os planos de Doria, como já ocorreu recentemente. No segundo semestre de 2017, 18 meses após assumir a prefeitura, ele investiu em uma disputa pela candidatura à Presidência. Viajou pelo país e chegou a declarar que caberia ao tempo dizer se ele deveria concorrer às prévias. Não foi preciso. O governador Geraldo Alckmin soube costurar apoio dentro e fora da sigla e viabilizou sua candidatura.

Abandonar a prefeitura tão cedo fez com que Doria não vencesse o adversário Márcio França (PSB) na capital paulista na disputa pelo governo do estado em 2018. No ano passado, com uma avaliação de péssimo e ruim acima de 50% em São Paulo, ele sequer participou da campanha de Covas.

Se o "zap" de Doria for só um blefe e o partido apresentar uma carta mais alta, há quem acredite que o tucano deixou pronto o caminho para deixar o PSDB.