Doutorando da UFRGS assediou e enviou mensagens antissemitas à namorada de israelense

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RIO — Investigado por racismo, o doutorando Álvaro Körbes Hauschild, de 29 anos, assediou e enviou mensagens antissemitas para a namorada de um judeu, que deu entrevista ao GLOBO na condição de anonimato. A abordagem ocorreu em 12 de setembro, quando Hauschild adicionou uma jovem de 17 anos nas redes sociais. Durante a conversa, o suspeito foi questionado sobre negacionismo e afirmou que não há provas de que Holocausto existiu. O diálogo foi anexado ao inquérito policial.

— Eu senti bastante raiva (no momento em que vi as mensagens), ainda mais quando descobri que ele realmente tinha esse padrão de assediar as namoradas de pessoas com quem ele tem preconceito — afirmou o judeu de 20 anos, que trabalha como cineasta independente e editor.

— Que gatinha deliciosa — escreveu Hauschild em uma das mensagens. A jovem afirma, no decorrer da conversa, que o investigado tem idade para ser tio dela. — Estou no momento certo para sairmos juntos — respondeu o suspeito, que é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Depois de ver as postagens de Hauschild nas redes sociais e em seu blog, a jovem perguntou ao doutorando se ele é negacionista do genocídio judeu. Hauschild publicava, no Facebook e em seu site, textos nos quais nega o Holocausto e defende a eugenia, além de imagens hoje em dia associadas ao neonazismo e à supremacia branca.

— Sobre o Holocausto: é uma questão científica. Ou tu tem evidências ou tu não tem (sic). Simplesmente não há a menor evidência até hoje; pelo contrário, há estudos mostrando que matematicamente já é um absurdo. Mas se alguém vier e me mostrar o que aconteceu e como aconteceu, eu passo a acreditar — escreveu Hauschild.

— Só científica? Provas históricas, relatos não contam? — respondeu a adolescente. Ela acrescentou que o bisavô e o tataravô do namorado eram sobreviventes do Holocausto.

— Todo judeu que fugiu para cá se diz sobrevivente — respondeu Hauschild.

— Eles não fugiram para cá. Meu namorado é israelita, só mora aqui por causa da mãe — replicou a jovem. Mas Hauschild insiste que não importa para onde o judeu foi, que ele "sempre vai dizer que foi fugido do Holocausto".

A negação do Holocausto é crime em diversos países europeus. No Brasil, pode ser enquadrada pela Lei de Racismo.

Hauschild afirmou que quem o conhece sabe de sua posição sobre o Holocausto. "O ônus da prova é de quem acusa. Cadê as provas? Para alguns na mídia essa questão agora é antissemitismo, logo para cima de mim que estudo e admiro a tradição judaica. Vão arrumar o que fazer, gente! De qualquer maneira tudo será devidamente tratado com as autoridades e os delinquentes poderão responder por calúnia e difamação", escreveu.

Um professor que deu aula para Hauschild no ensino médio, em Arroio do Meio (RS), também relatou ao GLOBO que o comportamento do estudante preocupava os docentes. Os dois se conheceram em 2008 no Colégio Bom Jesus São Miguel. Procurada pela reportagem, a escola não retornou até esta publicação.

— Ele nunca deixou nada velado, ele sempre expressou esse pensamento — disse o professor, que pediu para não ser identificado. O docente descreveu Hauschild como uma pessoa "altamente inteligente" e que costuma se "vangloriar de ser alemão".

Hauschild é alvo de um inquérito na Polícia Civil do Rio Grande do Sul para investigar o teor das mensagens enviadas por ele em 29 de setembro à psicóloga Amanda Klimick, de 23 anos. Na ocasião, o doutorando afirmou que negro "exala um cheiro típico", "tem um cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder" e que "pode não ser um problema lá onde a natureza dá cabo deles".

Amanda é namorada de um jovem negro, o estudante de Políticas Públicas da UFRGS, Jota Júnior, de 23 anos, que registrou ocorrência de por racismo. Alunos da universidade já haviam submetido à instituição um dossiê sobre o comportamento de Hauschild. Mas, diante da repercussão do caso, novas testemunha decidiram colaborar, entre elas a do editor.

Em depoimento à Polícia Civil nesta terça-feira, o doutorando confirmou a autoria das mensagens, mas negou o crime. Ele argumentou que suas palavras não configuram injúria racial e tampouco racismo. Disse que foi “mal-entendido” pelas partes.

Os investigadores também receberam um dossiê feito por alunos e ex-alunos da UFRGS. O material foi organizado a partir de publicações de Hauschild em redes sociais e blogs.

— A gente recebeu uma denúncia anônima com um material que contém textos escritos por ele e que, de certa forma, corroborariam essa posição que ele tem de não miscigenação — disse a delegada Andrea Mattos, titular da delegacia de Combate à Intolerância.

O dossiê também foi entregue à UFRGS. Tudo foi encaminhado no dia 2 de agosto pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia ao Núcleo de Assuntos Disciplinares (NAD) da universidade, que recomendou ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas a abertura de um processo disciplinar. O diretor do IFCH, Hélio Ricardo Alves, afirmou que duas denúncias estão sendo investigadas.

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