Drag kings ironizam comportamentos masculinos e pautam debates de gênero

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Criada na Alemanha, entre a infância e a juventude, a mãe de Renat Ferrer até cogitou batizá-la exatamente com o nome de gênero neutro, como é adotado no país europeu. Por influência de uma numeróloga, porém, optou pela inclusão do “a” e registrou a filha como Renata. Quis o destino que a psicóloga, de 35 anos, removesse a letra por conta própria, algumas décadas depois, graças à influência de sua persona drag king, Luca von Füder.

A história narrada por Renat mostra como essa cultura em que pessoas de diferentes identidades se vestem e fazem performances como homem, numa lógica similar, porém inversa, às das drag queens, é capaz de promover verdadeiras revoluções internas. Depois de participar de diferentes eventos como Luca e apresentá-lo para os seus seguidores no Instagram @renatferrerconta, a psicóloga afirma que ele a ajudou a resolver várias inseguranças, além de ter virado seu objeto de pesquisa no mestrado em Saúde Coletiva, cursado na Uerj. “Tinha dificuldade em flertar e agora não tenho mais porque pude exercitar isso através dele. É um pedacinho meu que deixo ir para o mundo.”

A cena drag king proporciona interpretações livres mas, em geral, quem entra nesse universo enfatiza o desejo de ironizar a masculinidade hegemônica, ao zombar de estereótipos (barba, voz grossa, postura marrenta etc). Foi justamente esse aspecto que fisgou a atenção de uma das pioneiras no Brasil, a multiartista Rubia Romani, de 35 anos, criadora de Rubão (@rubao.ruby). “Quando comecei, estava passando por um momento difícil. Havia sido traída por homens em quem deveria confiar, como meu pai e meu ex-marido”, recorda-se. “Sentia-me frágil, com uma sensação de impotência. Então, notei um chamado do meu corpo para trabalhar o masculino, expurgando e debochando da virilidade, liberando as dores do patriarcado. Continuo sendo uma mulher cis, mas não sou mais a mesma. A masculinidade dominante virou fantoche na minha mão.”

O mergulho profundo na arte deu à Rubia as bases para criar, em 2017, a Oficina de Drag King com Rubão e a festa performática Kings of the Night (@kings.of.the.night), nome dado também a um coletivo criado por ela. Moradora de Curitiba, a artista difundiu a cena não só na cidade, como em diferentes cantos do Brasil, já que corre o país com suas performances e oficinas que abarcam, como ela elenca, mulheres cis, mulheres e homens trans e pessoas não binárias. “Não esperava tanto quando botei um bigode na cara”, orgulha-se.

Foi num retiro da Igreja da Comunidade Metropolitana que a assistente social Dandara Pinheiro, de 31 anos, cruzou o mesmo “portal” que Rubia. Num show de talentos, ela e a sua namorada na época resolveram dublar a música “Rubens”, de Mário Manga e que tem na interpretação de Cássia Eller uma das versões mais célebres. Foi a primeira vez que Dandara se apresentou como Dando (@dando.king) e, desde então, nunca mais largou sua persona e já a levou a diferentes eventos presenciais e virtuais, como aconteceu durante a pandemia. “O que me impacta é a possibilidade de subverter o gênero, de não estar engessada na minha condição de mulher cis”, relata. “A arte drag king é uma forma de desestabilizar as coisas postas pela sociedade.”

A artista visual e cabeleireira Rafa Ferreira, de 30 anos, que deu vida ao seu Rafaello a partir de uma experiência com o coletivo Piratas de Gênero, concorda com a colega. Do mesmo jeito, torce para que a cena ganhe ainda mais força no Brasil. “A cultura drag king tem tido uma visibilidade maior nos últimos anos, mas ainda tem uma dimensão pequena, se comparada à de drag queens, que conquistaram até programas na TV. Estamos à margem, galgando nosso lugar e voz”, avalia. Cada espaço alcançado, porém, é inegociável, e o caminho, elas dizem, é sem volta. Como cantava Cássia Eller na música interpretada por Dando: “O mundo todo na crença/ Que tudo isso vai parar/ E a gente continuando”.

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