Drag queens participam de concurso online e bar vira ponto de coleta de cesta básica: "Nós por Nós

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo

Por Felipe Iruatã (@felipe.iruata)

Mesas e cadeiras vazias, ambiente silencioso, não tem palco. Há 17 anos, Valerie é drag queen e foi em março de 2020 que inaugurou o Carmén, uma casa de show especializada para a Cultura Queer, em Salvador, na Bahia.

A surpresa foi quase imediata: dois dias após a inauguração, o estabelecimento fechou por conta do coronavírus e Valerie viu seu empreendimento ruir. "Viver de drag já é difícil, na pandemia é quase impossível. Não só pra mim, mas para todas", afirma.

Leia também

Sem renda, Sasha visitou o Carmén algumas vezes durante a pandemia - não para performar, mas para sobreviver. O bar de Valerie se tornou um ponto de coleta de cestas básicas.

Alguns empresários, Ongs e as próprias drags se uniram para ajudar umas as outras neste cenário de crise. Porém, até arrecadar produtos para doação está complicado por causa da falta de dinheiro causada pela recessão. “ Não temos amparo, não temos ninguém, nenhum órgão, é sempre nós por nós” reforça Valerie.

A LGBTfobia mata. O Brasil é considerado um dos países mais violentos do mundo contra minorias. De acordo com dados do relatório anual do Grupo Gay da Bahia, 445 LGBT foram assassinado em 2017. Isso representa um aumento de 30% em relação a 2016. Os dados são de 2018.

Concursos online, editais... a sobrevivência

As histórias das drags Sasha Heels e Tyna Vhermont são parecidas. Ambas despertaram o lado da transformação a partir da curiosidade e a partir daí surgiram a aceitação e consolidação do existir em sociedade.

“A minha conexão com a arte drag foi a partir de um vislumbre assistindo "RuPaul" há muito tempo, porém não entendia nada como artista transformista da minha cidade. Após anos frequentando boates em Salvador entendi sobre a arte que consigo me expressar, conta Tyna.

Já para Sasha, uma festa foi o gatilho para a artista começar a sua produção. “Meu primeiro contato com a arte drag foi em uma boate, achei lindo mas não tinha me despertado curiosidade. Até que em um Halloween resolvi me montar por brincadeira e a recepção da galera foi incrível que fiz outras vezes”, detalha.

Antes da pandemia, a madrugada era o horário das drags mostrarem a sua arte. As casas especializadas começavam seus shows a partir das 23 horas, um horário em que a cidade já está adormecida e a cultura LGBTQIA + pode mostrar a sua cara.

As artistas passaram a utilizar a internet como fonte de visibilidade e rentabilidade, com aparições em lives, concursos e até reality shows com o tema. Editais de cultura publicados pelo Estado da Bahia também foram uma saída. “É importante esse papel da internet e dos editais na nossa carreira, pois colocamos a arte drag no horário nobre e saímos da penumbra da madrugada e do obscurantismo”, destaca Heels, que lembra que "se montar" é caro.

O concurso TND ( "The New Think Drag") criado pela drag Desirée Beck foi um deles. Começou em 2018 e era disputado em um único dia com o objetivo de mostrar novos rostos da cena — assim como ocorre na série "Poser", da Netflix. Atualmente a disputa ocorre online com o nome TNT - "The Next Talent". A primeira edição contou apenas com queens locais e no segundo ano do concurso, Sasha Heels foi uma das participantes, única de Salvador disputando com outras artistas de vários estados do país.

"Não tive bom rendimento devido a pouco conhecimento na área digital e nos quesitos de edição, captação de vídeo e outras ferramentas, mas foi uma experiência incrível para mim”, conta a artista.

Antigamente na cena drag para você “amadrinhar” uma artista nova que estava começando era necessário que a mais velha tivesse um nome importante no movimento. Hoje em dia, o que vale mesmo são os laços e as relações afetivas, como destaca Vhermont. Na cena ela é filha de Ela Vargas e Suzzy D'Costa, ambas a ajudaram na construção dela como artista.

Resistir como drag

As drags sofrem com a dificuldade de achar maquiagens e roupas para figurino com preço acessível. Um batom pode custar até R$ 100. Cada apresentação rende em torno de R$ 70 , mais a “cumbuca”, o famoso “chapéu” que recolhe gorjetas de três horas de show. “Não sei se me tornaria drag se não tivesse emprego”, diz Alexandre Barnabé, ou Tyna Vermont, que trabalha em uma Unidade de Pronto Atendimento, na Prefeitura de Salvador, e ganha em média R$ 1.400 mensais.

“Nunca ganhei nada com a web, mas também não parei para investir, para trabalhar minhas redes sociais. Meu canal do youtube tem funcionado como local de armazenamento de vídeos de performances para que as pessoas vejam, mas não é algo que eu divulgo. Além disso, pretendo trabalhar mais as minhas redes para gerar conteúdo, até porque antes do meu emprego da prefeitura não conseguiria comprar materiais de investimento”, conta Tyna.

O esforço para manter a arte viva é grande. Todas as artistas apesar dos problemas sociais existentes, carregam consigo uma força e vontade para continuar se montando e se apresentando nas casas de shows da cidade. Diante da invisibilidade e marginalização da cultura, a união entre elas é o que mantém a a sagacidade para continuar. “Mesmo trabalhando em outro lugar, não deixaria de ser drag”, afirma Sasha que possui sete anos de carreira, e atualmente está desempregada.

O circuito drag de Salvador funciona no centro da cidade. Na avenida Carlos Gomes, uma das mais tradicionais da cidade, estão localizadas o Carmen Lounge Bar e o Ancora do Marujo, específicosda cena drag. Além dos bares, as drags fazem apresentações em saunas situadas também na região central e em festas particulares quando são contratadas.

É preciso ter esperança para resistir

A cultura queer e a comunidade drag carregam uma importante missão dentro da Comunidade LGBTQIA +. O acolhimento e o amplificador de voz dos gays na sociedade ocorre por meio da força do coletivo como um todo, lutando contra as injustiças e preconceitos enraizados na sociedade. “Drag é um caminho que encontrei para colocar pra fora toda essa inquietude artística aqui dentro de mim. E quero que isso contagie os outros” pontua Tyna.

Performar é sair do ambiente de opressão que inviabiliza e silencia. "Arte nos dá voz, direito de nos expressarmos, mostrar nosso talento, nossas emoções e o protagonismo que todos nós merecemos em nossas próprias vidas. Há também quem descubra suas próprias sexualidades após permear o universo drag, cada um tem uma particularidade com sua experiência, mas que em geral é positiva e revigorante”, afirma Sasha.

Os amores — como não poderia ser diferente — também são a principal força das artistas para continuar "Atualmente meu maior incentivo é o meu namorado que também faz drag e se revela a cada dia meu maior fã e isso sempre me motiva muito”, diz Heels.

A arte que percorre a linha tênue da marginalização nas metrópoles brasileiras e o mainstream de "Rupaul", busca novas possibilidades para conseguir sobreviver em meio a maior crise sanitária e econômica do país.