Draghi encerra rodada de consultas para tirar a Itália da crise política

Gaël BRANCHEREAU
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Mario Draghi, ex-presidente do BCE, no Palácio do Quirinal, em Roma, em 3 de fevereiro de 2021

O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi encerrou neste sábado uma rodada de consultas para tentar formar um governo com maioria na Itália, do qual o líder da Liga (extrema-direita), Matteo Salvini, se declarou disposto a participar, o que gerou mal-estar em parte da classe política.

Draghi, conhecido como "Super Mario" por seu papel no resgate da zona do euro em 2012, em plena crise da dívida, foi convocado pelo presidente Sergio Mattarella após a renúncia do primeiro-ministro Giuseppe Conte, abandonado pelo partido Itália Viva, essencial para a coalizão de governo.

Draghi espera reunir partidos nos extremos do tabuleiro político em um governo de transição responsável por aplicar o plano de recuperação econômica e organizar a campanha de vacinação contra a covid-19, que já provocou mais de 90.000 mortes no país.

Draghi já tem o apoio de pequenos partidos e bancadas parlamentares, além do Partido Democrata (PD, centro-esquerda) e do Itália Viva, formação de centro que provocou a implosão do governo Conte por uma divergência sobre o plano de recuperação.

O partido do empresário e ex-chefe de Governo Silvio Berlusconi, Força Itália (FI, centro-direita), também comprometeu a apoiar Draghi.

O imprevisível Salvini, líder de um partido nacionalista, anti-imigração e eurocético, e para quem Draghi é a encarnação da elite europeia e tecnocrática, estendeu neste sábado, no entanto, a mão ao ex-presidente do BCE.

"Estamos à disposição. Somos a maior força política do país, temos uma força que deve governar (...) Ao contrário dos outros, não acreditamos que é possível avançar afirmando sempre não", declarou Salvini após um encontro com Draghi.

"Prefiro estar dentro e controlar o que o Executivo aplica", explicou.

O Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema), que governou o país com Salvini como ministro do Interior em 2018 e 2019, também se declarou disponível para "superar qualquer obstáculo no interesse do país".

O PD quer dar os votos de seus deputados a Draghi, mas sem entrar no governo, caso o Executivo atribua ministérios à Liga.

Como era esperado, o partido de extrema-direita Fratelli d'Italia disse não a Draghi.

Conte, apoiado até o fim pelo M5E - ao qual não pertence, mas do qual é próximo -, prometeu na quinta-feira não ser um obstáculo para Draghi, a quem desejou boa sorte.

"Sempre trabalhei pelo bem do país", afirmou o primeiro-ministro demissionário.

- Um desafio colossal -

Draghi se reunirá na segunda-feira com as "forças sociais" - sindicatos, associações, organizações profissionais - antes de uma segunda rodada de contatos com os partidos políticos nos dias seguintes.

Para o economista de 73 anos, o desafio é colossal.

A Itália espera receber a maior parte - quase 200 bilhões de euros (240 bilhões de dólares) do fundo de recuperação europeu aprovado em julho, mas deve apresentar um plano de gastos a Bruxelas até o fim de abril.

A terceira maior economia da Eurozona está em crise, devastada pelos efeitos catastróficos da pandemia. A península sofreu em 2020 uma das quedas mais expressivas do PIB na UE, com um retrocesso de 8,9%.

A Itália, país europeu mais atingido pela pandemia, adotou um confinamento rígido em março e abril, o que paralisou grande parte das atividades econômicas.

Se Draghi não conseguir a maioria parlamentar ou não conquistar a confiança do Parlamento, o país pode ter eleições legislativas antecipadas.

O presidente Mattarella, o único que pode convocar eleições antes do fim da legislatura, em 2023, já ressaltou que deseja evitar eleições antecipadas em plena crise de saúde e econômica.

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