Por um triz: o drama dos LGBTs em situação de rua na maior metrópole do Brasil

Aos 41 anos, Lorrany carrega as marcas das agressões que sofreu ao longo da vida. “Não conheço nenhuma história trans sem violência", afirma (Foto: Arquivo pessoal)

Por Everton Menezes

É noite em São Paulo. Enquanto muitos dormem em suas casas, Raphaella Santos, de 29 anos, estica um lençol no chão e deita sob uma marquise próxima à estação do metrô Marechal Deodoro, na região central. A mochila, com as poucas roupas que tem, vira travesseiro. E, logo, a carioca – que está há quatro anos nas ruas - vai se acomodando como pode. Já passa das 22 horas e, mesmo cansada, a jovem resiste em dormir.

“É um olho fechado e um outro aberto. Vida de trans não é fácil”, afirma.

E Raphaella tem razão.

De acordo com os dados do último Censo, realizado em 2015 pela Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe) a pedido da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, 61% do público considerado LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em situação de rua sofreu algum tipo de violência física vivendo em São Paulo. O levantamento – mesmo defasado - revela, ainda, o aumento de outras ocorrências contra essa população.

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LGBT

HETERO

Foi barrado em lugares públicos

46%

30%

Sofreu agressão verbal

77%

60%

Sofreu agressão física

61%

42%

Sofreu tentativa de homicídio

28%

19%

Sofreu violência sexual

25%

3%

Roubo/Furto

75%

62%

Remoção forçada

36%

30%

Fonte: Fipe/Censo 2015

Na última pesquisa, dos 15.905 moradores em situação de rua registrados na capital paulista, apenas 106 se identificaram como LGBT (51 entre os acolhidos e 55 na rua).

“É apenas uma estimativa. O número oscila muito porque esse público se desloca pela cidade e, muitas vezes, não se declara LGBT por medo de uma rejeição dos próprios companheiros”, declara o coordenador municipal de Políticas LGBTI (A letra “I” refere-se a Intersexo, orientação antes conhecida como hermafrodita) na cidade de São Paulo, Ricardo Dias. Segundo Dias, um censo específico para a população trans está em fase de elaboração. “Precisamos conhecer o perfil dessas pessoas e desenvolver políticas públicas. Além de sofrer discriminação por ser quem é, esse grupo é ignorado por desejar fazer parte da sociedade”, comenta.

Raphaella sabe dos riscos e tenta se proteger, como pode. Nunca anda sozinha. Está sempre acompanhada dos amigos. No grupo, há três gays, uma lésbica e outras duas trans. “Todo mundo se ajuda. Se um dorme, o outro fica acordado. Se alguém sofre violência, a gente se junta pra defender. Unidos somos mais fortes”, diz ela.

O país que mais mata LGBT no mundo é, também, o que mais discrimina. Um relatório parcial produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) revela que, somente neste ano, 210 LGBTs foram assassinados em todo o país e 25 cometeram suicídio. O fundador do GGB, Luiz Mott, acredita que há uma razão para o crime homofóbico: o preconceito. “Um homem, que abdica da sua própria masculinidade, por exemplo, é considerado um traidor porque ele ameaça a continuidade da hegemonia do macho hétero”, afirma Mott.

Em um trecho, retirado do Relatório Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil, ao qual a reportagem teve acesso, o autor da pesquisa, Eduardo Michels, explicou a percepção do preconceito enraizado na sociedade:

“99% destes ‘homocídios’ contra LGBT têm como agravante seja a homofobia individual, quando o assassino tem sua própria sexualidade mal resolvida e quer lavar com sangue seu desejo reprimido (motivado pela homofobia individual internalizada); seja a homofobia cultural, que pratica bullying contra lésbicas e gays, expulsando as travestis para as margens da sociedade onde a violência é endêmica; seja a homofobia institucional, quando os Governos não garantem a segurança dos espaços freqüentados pela comunidade LGBT ou vetam projetos visando a criminalização da homolesbotransfobia. Mesmo quando uma travesti está envolvida com ilícitos, sua condição de ‘viado’ (cultura transfóbica) aumenta o ódio e a violência na execução do crime.”

Em 2018, foram registradas 420 vítimas da homolesbotransfobia no Brasil (320 homicídios e 100 suicídios). O equivalente a uma morte ou suicídio a cada 20 horas.

Crimes de Homofobia no Brasil em 2018

Gays

191

Trans

164

Lésbicas

52

Bissexuais

8

Heterossexuais

5

Fonte: Grupo Gay da Bahia

Não estranhe o termo heterossexual na estatística. A inclusão refere-se ao número de pessoas que foram assassinadas por terem sido confundidas com gays. A esse grupo de héteros, inclui-se o “+” na sigla. O relatório sobre mortes violentas de LGBT+ aponta que quase metade dos crimes de homofobia (49%) ocorreu nas ruas. As travestis profissionais do sexo, por exemplo, foram executadas com tiros de revólver, pistola e escopeta. Sem falar nos casos de espancamento, atropelamento criminoso, pauladas e pedradas.

Crimes contra Transexuais no Brasil em 2018

Travestis

81

Mulher Trans

72

Homem Trans

6

Drag Queens

2

Não-binária

2

Transformista

1

TOTAL

164

Fonte: Grupo Gay da Bahia

O Grupo Gay da Bahia estima que cerca de um milhão de pessoas trans vivam no Brasil. Diante dos casos de violência, o risco de uma pessoa trans ser assassinada é 17 vezes maior que um gay, com população estimada de 20 milhões no país. Segundo as agências internacionais de direitos humanos, mata-se muito mais homossexuais e transexuais no Brasil do que nos 13 países do Oriente Médio e África, onde tem pena de morte contra LGBT.

O Mundo de Sofia

Sofia mora nas ruas e esquinas da região central de São Paulo há sete anos (Foto: Everton Menezes/Yahoo Notícias)

Sofia Ventura perdeu as contas das agressões que sofreu nas ruas de São Paulo. É só olhar o corpo da jovem travesti, de 26 anos, para perceber as cicatrizes. “Já passei por muita desgraça. Quase fui assassinada. Vi muitas amigas serem mortas na rua. Se estou aqui é por sorte”, comenta. Os problemas existem desde sempre na vida da garota, que nasceu pobre e trans. Mas é preciso voltar no tempo para entender o mundo de Sofia.

Foi em Belém, no Pará, que tudo começou. O menino magro com traços finos, ainda criança, já demonstrava os primeiros sinais da sua transexualidade. A família nunca aceitou e rejeição foi imediata. Sem apoio dos pais, a solução foi morar na rua, onde encontrou abrigo e afeto. Aos 14 anos, Sofia resolveu se aventurar em São Paulo.

A viagem durou três dias. “Eu fazia programa em Belém e um cafetão arrumou um documento falso para eu entrar no ônibus. Foi a primeira vez que vi minha nova identidade”, lembra a jovem. O sonho de criança, logo, virou pesadelo nas ruas da maior metrópole do Brasil. Foi explorada na prostituição, conheceu o mundo das drogas e deu de cara com o preconceito de uma sociedade transfóbica.

Para ganhar dinheiro nos programas sexuais, a adolescente teve de fazer a transição de gênero. Aplicou silicone industrial nos glúteos, quadril e na coxa. “Uma travesti pegou uma seringa, usada para cavalos, e injetou óleo de avião no meu corpo. Foi uma dor horrível”, diz. Não morreu por pouco. Já a amiga não teve a mesma sorte. “Sofreu uma forte hemorragia e caiu dura na minha frente após a aplicação do produto”, relembra. O trauma da infância não seria o primeiro. Muito menos, o último.

A garrafa de cachaça está sempre do lado. “É como se fosse um antidepressivo. Esqueço a saudade, o passado e tudo o que me fez mal. Eu fico leve”, diz Sofia (Foto: Everton Menezes/Yahoo Notícias)

A mulher, que perdeu a virgindade aos oito anos e contraiu HIV aos 17, ficou conhecida na noite paulistana. Ela conta que foi prostituta de luxo na casa noturna Love Store, na República. O dinheiro veio fácil e, com ele, a mudança de vida. “Eu ganhava entre R$ 500 e R$ 1000 por noite. Fui pra cama com artistas, empresários, policiais e políticos. Eles adoram uma travesti”, afirma Sofia. A paraense casou com um ator pornô e morou, com ele, em um apartamento de classe média no bairro da Bela Vista, também na região central de São Paulo. Essa foi, sem dúvida, a melhor época para ela. Usou roupas de grife, freqüentou bons restaurantes e, todas as noites, ‘torrou a grana’ com baladas e drogas. A travesti parecia caminhar na contramão das estatísticas.

Em pouco tempo, Sofia foi do céu ao inferno. Perdeu dinheiro, casa, o companheiro e os clientes. Mergulhou nas drogas e, nesse abismo, encontra-se até hoje. É nas ruas e esquinas da região central de São Paulo que mora, há sete anos. Já não tem o vigor de uma jovem. Sorri com os poucos dentes que ainda lhe restam. Rosto manchado, feridas no corpo e ‘olhos de zumbi’ – resultado do uso freqüente do crack e do álcool. Sobrevive de doações e dos programas sexuais que ainda faz na rua. O dinheiro é pouco, mas já garante a compra das drogas. A garrafa de cachaça está sempre do lado. “É como se fosse um antidepressivo. Esqueço a saudade, o passado e tudo o que me fez mal. Eu fico leve”, diz. Pergunto se, um dia, Sofia deseja largar o vício. A resposta vem na ponta da língua: “se eu parar eu morro”.

James: “Sou chamado de bicha e lixo”

Os moradores sabem que, para viver na rua, é preciso vencer o medo. “A gente sempre acha que vai acordar com um chute na cara ou com o corpo em chamas. Não temos muita escolha”, diz Jamerson Oliveira ou, como ele prefere ser chamado, James. Após assumir a homossexualidade, o cearense, de 27 anos, foi rejeitado pela família e decidiu largar tudo para viver em São Paulo. O jovem, que chegou a estudar um ano do curso de Turismo na Universidade Federal do Piauí, vive, hoje, sob o Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, no centro da capital paulista. Faz três refeições por dia, graças às doações de grupos de apoio. Toma banho, ao menos, duas vezes por semana em um brechó da região. E quando a situação aperta, procura um supermercado ou posto de saúde mais perto para fazer as necessidades. “Estou há quatro anos pelas esquinas. Não sabia nem ‘manguiar’ (pedir), mas aprendi rapidinho. A gente se acostuma a tudo”, conta James.

A vivência nas ruas o levou para o mundo das drogas. Virou usuário de crack e busca força para largar o vício. “Quando a solidão chega, minha companheira é a droga”, diz. Há alguns anos, o rapaz foi diagnosticado com HIV. Não faz tratamento e, muitas vezes, admite ter relações sexuais sem o uso do preservativo. “Às vezes, para um carro aqui e o motorista pergunta se eu estou com fome. Chega discreto e me oferece uma grana para fazer sexo”, comenta.

A entrevista se prolonga e James quer falar mais. “Não é todo dia que alguém aparece pra me ouvir”, argumenta. Oferece o único pão com manteiga que tem. Eu aceito. Mal dou a primeira mordida e o rapaz, curioso, pergunta: “você também é gay?”. Digo que sim e ele chora, aliviado, como se tivesse encontrado um confidente. James, por um instante, parece estar à vontade na minha presença. “Ser gay em situação de rua é assustador. Quando não tentam te matar, querem abusar de você”, lamenta o rapaz. A rotina nas ruas também inclui ofensas, das quais aprendeu a ignorar. Já foi xingado de bicha e lixo várias vezes por pedestres e motoristas. Pergunto se não seria melhor ir para um abrigo – acreditando ser mais seguro. Ele nega. “Tem agressão, machismo e homofobia lá dentro. Aqui fora, eu consigo correr deles e me proteger de alguma forma”, conta.

Para passar o tempo, James costuma ler livros para a cachorrinha Mina, que encontrou na rua. É nos contos de Harry Potter que o morador vira criança e viaja nas aventuras dos alunos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Lê cada palavra em voz alta como se a companheira entendesse alguma coisa. O único livro que tem só lhe permite contar a mesma história, todas as noites. Mas ele não se incomoda. “Eu invento alguma coisa, mudo os capítulos, ponho a Mina e meus colegas no livro. Daqui a pouco, eu reescrevo tudo do meu jeito”, brinca o garoto. James está cansado e se prepara para dormir. Arruma o colchão, puxa a Mina para os braços e se despede. “Essa vida é tão dura que eu prefiro acreditar que vou acordar desse pesadelo como num passe de mágica”, desabafa.

A ressurreição de Lorrany

Há quatro anos em São Paulo, a paranaense Lorrany Arantes viveu de tudo que se pode imaginar. Assim que chegou à capital, foi morar numa casa de prostituição. O dinheiro era pouco e a travesti precisou ‘vender o corpo’ nas ruas. Frequentou as esquinas de Higienópolis, da Paulista e, principalmente, da avenida Lineu de Paula Machado, perto do Jockey Club, na Zona Sul da cidade.

Aos 41 anos, ela carrega as marcas das agressões que sofreu ao longo da vida. “Não conheço nenhuma história trans sem violência. É uma realidade presente em todo o país. É agressão do cliente, da polícia e de anônimos”, conta. Ela prefere não lembrar dos momentos difíceis, mas deixa escapar que, anos atrás, foi atingida por três golpes de facão (no rosto e nos braços). Um cliente a feriu ao descobrir que era travesti.

A cracolândia, região de tráfico de drogas no centro da capital paulista, serviu de moradia por um tempo. Usou crack, cocaína e LSD. “Tudo que eu fazia ali era para consumir qualquer droga que via pela frente. Se não tivesse dinheiro, me prostituía - por muito pouco - apenas para dar um ‘teco’ na beira da calçada”, diz. Lorrany já não se enxergava no espelho. Estava magra, esquelética. Por várias vezes, tentou tirar a própria vida. E numa dessas tentativas de suicídio, conheceu Carmen, uma assistente social que estendeu-lhe a mão e a levou para um abrigo.

Foi na Casa Florescer, instituição que atende cerca de 30 mulheres trans e travestis, localizada no bairro do Bom Retiro, no Centro, que Lorrany teve a chance de escrever uma nova história. O espaço oferece hospedagem e refeição, além de cursos de qualificação profissional e exames médicos. “Essas mulheres chegam com uma saúde física e psicológica muito fragilizada. Elas não entendem quem são. Muitas acham que estão erradas e que a vida não vale a pena”, afirma Alberto Silva, gerente de Serviços da Casa Florescer.

Os cursos profissionalizantes dão ânimo e dignidade a essa população mais vulnerável. Garantir a tão sonhada empregabilidade de trans e travestis é o objetivo de muitas instituições, que buscam parceiros privados interessados em incluir essas mulheres no mercado de trabalho. De acordo com o coordenador de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, Marcelo Gallego, a identidade de gênero ainda é uma grande barreira. “A gente precisa ter um olhar mais carinhoso para esse grupo”, afirma.

Ao longo dos quase quatro anos de existência, a Casa Florescer já recebeu 288 mulheres trans e travestis. Dessas, 88 conseguiram autonomia plena. É o sonho de muitas delas. Lorrany que o diga. Longe das ruas, ela agora está cursando o EJA (Educação de Jovens e Adultos) e participa de cursos profissionalizantes voltados para a área da beleza. O mundo de oportunidades começa a surgir. E a estudante já tem planos: ser maquiadora profissional e abrir o próprio negócio. “Eu sou apaixonada por isso. É um encontro com o meu ego. Eu voltei a sentir a vida de novo”, diz com orgulho.