Driblar isolamento com sereneridade vira tática para enfrentar pandemia

A arquiteta Natasha Alvarez, de 33 anos, brinca com ofilho Joaquim em casa

SÃO PAULO - Em tempos de ameaça do novo coronavírus, a aposentada Ana Maria Botelho, de 69 anos, deixou seu apartamento de 49 metros quadrados na capital paulista para se refugiar num sítio da família, no interior do estado. Como mora próximo da filha e do neto e é parte do grupo de risco, achou previdente se distanciar por um tempo. Considerou também que, com mais espaço e sol, conseguiria atravessar com mais tranquilidade os dias de incerteza que vêm pela frente.

- Moro num apartamento pequeno, aquilo estava me dando uma angústia grande. A partir do momento em que me isolei, ficou complicado de me imaginar ali, sem ter condições de sair - diz.

No último dia 12, um dia depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar a pandemia mundial em decorrência do novo coronavírus, Ana Maria pegou um ônibus e viajou 330 quilômetros até a casa da irmã de 80 anos, em Bauru. De lá, partiu com ela, a sobrinha e o filho de carro para o sítio da família: um casa simples e acolhedora, cercada por uma varanda com redes, pomar, galinhas e algumas vacas leiteiras.

Na mala, além de roupas e mantimentos, as irmãs levaram alguns apetrechos para passar o tempo com manualidades - EVA, retalhos de tecidos, cola quente e até uma máquina de costura. Como é professora aposentada de Educação Artística, Ana Maria decidiu resgatar suas habilidades neste sabático forçado.

- O jeito é manter a mente ocupada para não ficar nervosa. Estamos fazendo umas asas de bichos para o aniversário do bisneto da minha irmã e vamos construir uma pista de carrinho portátil para a creche - diz.

O isolamento imposto aos países onde o novo coronavírus se espalhou com rapidez vem elevando o nível de estresse de parte da população mundial. Descansar o suficiente, comer alimentos saudáveis, praticar atividade física, manter contato virtual com familiares e amigos e se informar com moderação são algumas das recomendações da OMS para enfrentar os novos tempos, num guia com 31 pontos destinado à população em geral, profissionais de saúde, cuidadores, idosos e isolados.

- Algo que ajuda a lidar com o estresse gerado pela mudança é entender que esse é o novo normal, agora é assim. A partir do momento em que ficamos resignados com a nova realidade, a gente aceita - diz o psiquiatra Daniel de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de São Paulo.

Barros ressalta que desenvolver novas rotinas na casa e estabelecer regras são medidas essenciais para o bom convívio durante o confinamento. Para manter a saúde mental, é importante aceitar que a ansiedade é um sentimento natural em tempos de crise.

- As pessoas ficam ansiosas por estarem ansiosas. Ficam tensas porque estão tensas. Com medo porque estão com medo. Para não desesperar, é preciso compreender que esses sentimentos fazem parte da reação do momento - afirma Barros.

Com a suspensão das aulas, outro desafio do distanciamento social é entreter os filhos pequenos em casa. Artigo publicado na revista médica "The Lancet" sobre os efeitos do confinamento em crianças sugere que, quando elas estão fora das salas de aula, são fisicamente menos ativas, passam mais tempo na frente de telas, apresentam padrões irregulares de sono e dietas desfavoráveis, podendo levar ao ganho de peso e perda de aptidão cardiorespiratória. Esses efeitos são provavelmente agravados em situações de restrição de atividades ao ar livre e interação com amigos.

O artigo "Mitigate the effects of home confinement on children during the COVID-19 outbreak" (algo como "Atenuar os efeitos do confinamento em casa nas crianças durante o surto de COVID-19, em tradução livre) mostra que, em caso de isolamento, os pais são os melhores recursos para as crianças. Uma comunicação aberta e próxima é primordial para identificar questões físicas e psicológicas.

A arquiteta Natasha Ligneul Alvarez, de 33 anos, mãe de Joaquim, de três, criou um manual em PDF de brincadeiras para fazer durante a quarentena. Ela, o filho e o marido aderiram ao isolamento total - "ninguém entra, ninguém sai". Em seu Instagram, compartilha passo a passo e materiais necessários para entreter a criançada.

- É tudo com este conceito: ser simples. Para mostrar que é fácil brincar, que não precisa ter tanto dinheiro. A inspiração vem de vários lugares. Sigo alguns perfis que gosto, invento coisas, adapto ideias à minha realidade - diz Natasha.

A arquiteta colocou o manual sem grandes pretensões em suas redes sociais, mais para ajudar as amigas "a não pirarem muito". Viralizou. Ela já enviou o arquivo para mais de 500 e-mails, em geral outras mães que escrevem pedindo. Em casa, o guia faz tanto sucesso quanto. A brincadeira favorita de Joaquim é a "pé com pé, mão com mão". Para colocá-la em prática, bastam folhas de papel sulfite, canetinha e bastante disposição.

- Ele pede pra descer, andar de bicicleta, ir no parquinho. Em algum momento, a gente apela para a televisão. Mas, dentro do possível, tentamos gastar energia da melhor forma dentro de casa - diz ela.