Drogados em notícias

A notícia é péssima: mais de metade da população brasileira simplesmente desistiu de ler, ver e ouvir notícias. De tão ruins e frequentes, durante tanto tempo, só provocam os piores sentimentos e a sensação de absoluta impotência diante delas. Então, para que ler ? Para ser espancado pela realidade brutal dos telejornais? Claro, a função fundamental do jornalismo é produzir notícias, o mensageiro não pode ser culpado pela mensagem. Mas, ao mesmo tempo em que não querem perder tempo com notícias reais, as pessoas parecem se interessar por sua interpretação por comentaristas especializados ou influencers, que já dão as notícias mastigadas, editadas e opinadas.

A realidade no Brasil está tão insuportável que o público está fugindo em busca de diversão, inspiração e informação nas séries de ficção, nas novelas, nos filmes, nos shows, e principalmente na internet cheia de distrações, fake news, memes, fofocas, bundas, fantasias de luxo e beleza que substituem as notícias sérias, sujas e desagradáveis da mídia tradicional. Até dá para entender. O tempo perdido é o mesmo. Então o que fazer?

Às vezes, consigo fazer um detox de dois ou três dias quando estou viajando e ficar em abstinência total de notícias do Brasil. É libertador, mas é raro, até mesmo pelas exigências profissionais, durante toda a vida li diariamente um ou mais jornais de cabo a rabo, inclusive anúncios fúnebres.

Às vezes, tinha acabado de ler e uma filha passava e perguntava o que havia de interessante. “Nada”, eu respondia com uma sensação de tempo perdido.

Meu colega de orgias noticiosas era o Papa Paulo VI (1897-1978 ), que dizia “rezo todos os dias para que Deus me livre do vício de ler jornais”. Se um Papa diz isso, imaginem um news junkie como eu? Para um drogado em notícias, um dependente, um viciado como o Papa, a internet foi a maior das bênçãos, e a pior das desgraças. O deslumbramento inicial de ter acesso a todas as notícias o tempo inteiro era embriagador. Mas logo veio a overdose de notícias, ruins e péssimas principalmente, revoltantes, horrorizantes, porque as boas geram menor interesse, e o único remédio é um detox de abstinência e limpeza.

Em algum momento me imaginei diante de um grupo dizendo:

“Boa noite, meu nome é Nelson e sou um doente de notícias.”

“Boa noite, Nelson”, eles respondiam em coro, amistosos e solidários.

E terminamos rezando juntos a “Oração da serenidade”, que parece ter sido criada para os adictos brasileiros como eu, numa leitura política:

“Senhor, concede-nos a serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, a coragem para mudar as coisas que podemos, e a sabedoria para diferenciar umas das outras.”

Só por um dia.

LEIA TODAS AS COLUNAS DE NELSON MOTTA.

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