Duas décadas depois, vítima de bala perdida aos 19 anos é homenageada e defende direitos das pessoas com deficiência

Maíra Rubim
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RIO — Aos 37 anos e tetraplégica desde os 19, a assistente social Luciana Novaes busca se manter otimista e ativa mesmo no isolamento necessário devido à pandemia. A música “Guerreira de fé”, da banda Multiversos, feita para ela e lançada este ano, dá o tom: “Guerreira de fé/Respiradora ela é/Mostra a sua garra, inspiradora, sonhadora”. A websérie “Narrando mulheres”, de Luciana Zule, em cartaz gratuitamente no YouTube desde o mês passado, resume sua história. A movimentação causada pelas gravações do programa e a homenagem musical agitaram sua quarentena. Mas, além da fé, o que a estimula mesmo, revela, é buscar ajudar outras pessoas da forma como é possível atualmente: por meios virtuais.

— Conto minha história de forma motivacional e busco informar as pessoas sobre os seus direitos, principalmente as que têm deficiência e os idosos — explica.

Luciana estudava Enfermagem na unidade da Universidade Estácio de Sá no Rio Comprido quando foi atingida por uma bala perdida, disparada do Morro Turano, segundo testemunhas. Na época moradora de Nilópolis, conta, quando estava no ônibus, a caminho da faculdade, chegou a pensar em voltar para casa. Mas duas provas marcadas e o medo de perder a bolsa de estudos que poderia fazer dela a única de quatro irmãos a obter um diploma de graduação fizeram com que seguisse adiante. No intervalo entre as provas, foi à cantina e a tragédia aconteceu.

— Não foi uma bala perdida; ela me achou e está em mim até hoje. Pegou no maxilar, atingiu a cervical e uma parte do bulbo cerebral. Os médicos disseram que eu tinha 1% de chance de sobreviver e que, se isso acontecesse, ficaria em estado vegetativo — recorda.

Ela passou um ano e dez meses no CTI. E diz que todas as dificuldades a fizeram aprender que é preciso nunca desistir.

— Eu sempre acreditei em mim e em Deus. É isso que me dá forças. Sabia que eu iria conquistar meus objetivos — diz ela, que é católica.

Em 2003, ano do acidente, balas perdidas não eram ainda uma triste rotina no Rio de Janeiro, e o caso repercutiu imensamente. Ela lamenta que a situação tenha piorado desde então:

— Hoje as balas atingem crianças dentro de escolas. Eu tive uma chance, mas muitos não tiveram. Deveria existir uma política pública de não violência.

Experiência na política

Luciana acabou se formando em Serviço Social e fez pós-graduação em Gestão Pública. Após um processo judicial, a Estácio construiu uma casa para ela em Jacarepaguá, onde vive com a mãe e uma tia, e arca com suas despesas médicas e o pagamento dos cuidadores que a acompanham em tempo integral. Mas ela não quis ficar parada.

— Foi importante voltar a estudar. Tinha o sonho de me formar e vontade de ter contato com as pessoas. E queria que meus pais tivessem um filho com diploma — recorda.

Ela fez estágio no Hospital Colônia de Curupaiti, em Jacarepaguá, e trabalhou como conselheira da Secretaria municipal de Direitos Humanos. Foi quando começou a entender mais sobre os direitos das pessoas com deficiência e a fazer palestras em locais como escolas e hospitais, iniciativas só interrompidas pela pandemia. No momento, ela tem feito lives, muitas delas ao lado de profissionais de saúde.

Em outra frente, Luciana tornou-se a primeira tetraplégica a ser vereadora no Rio, de 2016 a 2020. Conta que participou da elaboração de 115 projetos de lei, dos quais 51 acabaram aprovados.

—Entrei para a política porque infelizmente as pessoas com deficiência não têm muita visibilidade, e a falta de acessibilidade ainda é enorme na cidade — diz ela, que concorreu novamente no ano passado, mas não se elegeu.

A ventilação mecânica e a cadeira de rodas não a impediram de procurar levar uma vida comum, garante. Mas, desde o início da pandemia, por causa do respirador, que capta o oxigênio do ambiente, não tem saído de casa e recebe poucas visitas, todas de parentes. A exceção foi a equipe do projeto “Narrando mulheres”, que combina vídeos e exposição de fotos no Instagram e compara personagens fortes de contos ancestrais a mulheres contemporâneas igualmente combativas. Luciana é homenageada no primeiro episódio, dedicado a Sherazade, por ter feito da palavra sua principal forma de lutar, assim como a lendária rainha do folclore persa.

— O programa foi extremamente importante para mim. Só através da cultura e da educação poderemos ter uma mudança na sociedade — afirma.

Enquanto aguarda a vacina contra a Covid-19, ela faz planos. Está ansiosa para gravar o clipe da música “Guerreira de fé” e voltar às palestras presenciais. Quer também escrever um livro, convicta de que ainda tem muito a dizer. Até que tudo isso seja possível, convida quem precisar de ajuda a procurá-la, inclusive pelo WhatsApp (98049-1371) e pelo Instagram (@luciananovaes2022). E deixa uma mensagem:

—Independentemente das dificuldades, é preciso fé para superar problemas. Coisas simples podem mudar a nossa vida e a de quem está próximo.

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