Duas integrantes do Coral Paulistano testam positivo para coronavírus

Aline Ribeiro

SÃO PAULO - Duas integrantes do Coral Paulistano Mário de Andrade, ambas com mais de 60 anos, testaram positivo para o novo coronavírus. A Fundação Theatro Municipal de São Paulo não divulga a identidade e a função das mulheres no coro. Apenas informa que estão internadas e estáveis.

A maestrina do Coral Paulistano, Naomi Munakata, encontra-se internada no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Segundo apurou GLOBO com membros do teatro, ela apresenta problemas respiratórios, mas ainda não há confirmação de que esteja com a COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Na última sexta-feira, 13, depois de já decretada a pandemia do novo coronavírus pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 integrantes da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coro Lírico Municipal e do Coral Paulistano se reuniram na cúpula do teatro para o ensaio da montagem Aída, ópera de Giuseppe Verdi.

Integrantes da montagem presentes no ensaio reclamam da realização do encontro. Segundo um deles, o maestro Roberto Minczuk, titular da Orquestra Sinfônica e responsável pela direção musical e regência de Aída, chegou a fazer piada com o coronavírus antes de começar o ensaio.

- Ele chegou gripado de uma viagem internacional, em plena crise do coronavírus, e fez ensaio e reunião com Deus e o mundo num espaço fechado. Cometeu uma atrocidade, foi negligente. E ainda começou dizendo que faríamos "do início ao fim, sem fermata, sem corona". (Na linguagem musical, algo como "sem nenhuma parada") - afirmou o músico.

Segundo outro artista que integrava a montagem Aída, representantes dos corpos estáveis do Theatro Municipal chegaram a alertar a direção para os perigos de manter o encontro da sexta-feira. Como seria um ensaio musical, e não coreográfico, os artistas teriam de cantar a plenos pulmões, em tese aumentando os riscos de transmissão.

- O cantar inclui duas atitudes que podem proliferar o vírus: a exalação de ar, que põe para fora partículas de saliva; e muito mais respiração - disse.

O ensaio teve início às 16h da sexta-feira na cúpula do Theatro Municipal, um salão circular com 12,5 m de altura entre o tablado e o ponto mais alto do telhado e 475 m2. Só os homens do Coral Paulistano, além da maestrina Naomi Munakata, estavam presentes na ocasião, mas as mulheres do coro vinham se encontrando regularmente no teatro para outra programação.

No intervalo do ensaio, os músicos foram convocados para uma reunião de emergência à noite, na plateia. Ali, foram comunicados da decisão do então prefeito de São Paulo em exercício, Eduardo Tuma, tomada naquela mesma tarde, de cancelar todos os eventos de massa na cidade, com mais de 500 pessoas. As atividades do Theatro Municipal foram adiadas imediatamente.

Após a confirmação de dois casos da doença no Coral Paulistano, o Instituto Odeon, que administra o Theatro Municipal, emitiu um comunicado interno aos funcionários, obtido pelo GLOBO. No texto, recomendou "o constante monitoramento de possíveis sintomas", uma vez que houve contato das integrantes infectadas "com parte dos corpos artísticos e equipe técnica durante os ensaios de Aída e Mahler".

Em nota, a assessoria de imprensa do Theatro Municipal afirma que "todas as suas atividades foram interrompidas no dia 13 de março, às 17 horas, para prevenir riscos de transmissão do vírus Covid-19 - Coronavírus". A decisão, segundo o texto, foi tomada logo após o encerramento da reunião em que Tuma determinou o cancelamento dos eventos em massa. "O ensaio da ópera Aída, que ocorria naquele momento na cúpula do teatro, foi suspenso imediatamente e todos os participantes foram orientados a desocupar o teatro. A duração do recesso não está definida".

Procurado, o maestro Roberto Minczuk, titular da Orquestra Sinfônica e responsável pela direção musical e regência de Aída, não se manifestou.