Dublê em 'Cara e coragem', Paolla Oliveira relembra dificuldades para se tornar destemida: 'Fui criada para ser medrosa'

De cabeça para baixo, Pat desce um prédio de 70 metros de altura fazendo rapel. Para ela, isso não é novidade, afinal é uma experiente dublê de ação acostumada a correr riscos. Por outro lado, é a primeira vez que Paolla Oliveira, atriz que dá vida à personagem, interpreta uma dublê e dispensa a sua, sempre que possível. “Da próxima vez, gravo as cenas antes de jantar”, disse ela sobre a descida de ponta-cabeça à diretora artística de “Cara e coragem”, Natália Grimberg. Protagonista da próxima novela das sete da Globo, Paolla vai pular containers, entrar em carros em movimento e até praticar dança vertical — performances feitas em fachadas de prédios com o uso de equipamentos de escalada. Ao lado de Moa, papel de Marcelo Serrado, Pat irá atrás de uma fórmula secreta que vale milhões. Além da profissão de risco, a heroína precisa lidar com os dois filhos e um marido doente (Carmo Dalla Vecchia). Corajosa na tela e na vida, Paolla conta que precisou enfrentar todo tipo de medo para chegar onde chegou:

— Eu fui criada para ser medrosa. Uma criação em que as pessoas faziam coisas por mim ou que menina não podia fazer. Os homens eram melhores, meu pai era o provedor. Eu não poderia me expor demais, falar demais. Precisei enfrentar meu pai para fazer teatro. Até para gostar de certo tipo de música lá em casa precisava de coragem, meu pai não entendia. Mas nunca deixei o medo me paralisar. Em um lugar em que eu era permitida, eu podia tudo e trouxe isso pra vida. Uso isso para pular dos prédios, para fazer as coisas que a Natália pede para a gente — diz a atriz, que medo mesmo só tem de barata: — Tenho pavor (risos).

Criada com três irmãos na Zona Leste de São Paulo, Paolla avalia que a soma de sua personalidade com uma “infância triste, sem muito prazer ou criatividade” pode ter lhe dado uma vontade de ser livre e independente. O desejo culminou em disciplina mental e física, já que precisava fazer dar certo. Depois de quase 20 anos de carreira só na Globo, a atriz diz que o segredo é não relaxar e manter a cabeça sã.

— Você tem que estar pronto para o que vem. A maior preparação que eu tenho hoje é para o trabalho em si, como eu vou conseguir ser “fresh” depois de tantas personagens. Minha maior dieta é a da cabeça. Preciso fazer as pessoas acreditarem que sou uma dublê, estar com meu joelho disponível para pular de 15 metros e, ao mesmo tempo, estar com a ansiedade no lugar — conta Paolla, que malha há 15 anos diariamente: — Já fiz terapia, já fiz ioga... Neste trabalho, o físico é tão intenso que só dormir até mais tarde tem resolvido o problema.

Mas nem sempre dormir e acordar em paz foi possível, e Paolla precisou se desvencilhar do que ela chama de “ciladas”. Enquanto “Cara e coragem” marca uma quebra de estigmas na dramaturgia — na qual a trama estaria diretamente relacionada ao viril e ao masculino, mas, opostamente a isso, traz Cláudia Souto como autora, Natália Grimberg na direção e Paolla no centro da ação —, a atriz precisou destruir essas caixinhas na vida para se impor.

— Enfrentei o estereótipo de frágil, de muito doce. Mas um momento que me marcou foi o carnaval. Eu ouvi que era pra eu tomar cuidado porque iam achar que eu só fazia isso ou que eu acabaria sensual demais. Fiquei com medo e me afastei durante dez anos da Avenida. A sensualidade foi um pacote ruim para mim. Mas eu batalhei para que vissem todos os meus lados, consegui ser “camaleônica” — reflete a atriz, que já foi muito associada ao corpo (quem não se lembra dela “quebrando a internet” quando apareceu de fio dental na janela em cena da série “Felizes para sempre”?).

A Acadêmicos do Grande Rio agradece a superação do trauma em relação aos desfiles na Marquês de Sapucaí. A escola da qual Paolla é rainha de bateria venceu o carnaval de 2022, com a atriz numa microfantasia vermelha que representava a entidade espiritual pombagira:

— Eu adoro religiões e acho que qualquer gesto de fé é o que nos segura e nos mantém. Eu venho de uma família que tem kardecista, católico, tudo misturado, e sempre me coloquei como uma pessoa espiritualizada, que acredita em todos os tipos de fé.

A tal fantasia rendeu comentários, e as redes sociais ficaram em polvorosa com a reação do sambista e namorado de Paolla, Diogo Nogueira. Admirado, o portelense tascou-lhe um beijo na concentração, para delírio do público. Desde que assumiu o namoro publicamente, em 2021, o casal é alvo de memes positivos na internet e tem torcida dos fãs.

— Tem algo novo nesse relacionamento para mim: está tudo bem mostrar a mulher Paolla, está tudo bem demonstrar afeto em público, isso foi um aprendizado. Eu sempre compartilhei a profissional, a filha, a irmã, mas a mulher sempre ficou escondida. Estou achando ótimo ter esse lado, de só ser, sem precisar esconder nada — confessa.

Apesar de feliz e realizada no amor, a atriz sabe que toda exposição tem seu preço. Sua nova fase mais aberta permitiu que as pessoas a questionassem, constantemente, sobre filhos. Não por mal, a internet quer um bebê de Paolla Oliveria e Diogo Nogueira. Mas ela, que há dois anos respondeu à Canal Extra que tinha dúvidas sobre ser mãe, continua com a mesma opinião.

— Eu fico muito pensativa sobre esse assunto. Meus óvulos estão congelados porque quero que seja uma escolha minha e não por uma impossibilidade, mas ainda não é o momento. Eu ficava muito aflita com essa questão da maternidade. Saiu até em um lugar que eu não era familiar, amorosa ou feminina o suficiente por ter questões com a maternidade. Mas isso passou, agora se eu tiver que enfrentar uma sociedade inteira para falar disso, eu vou falar. Eu enfrentei meu pai, que sempre sonhou que eu casasse para dar logo cinco netos pra ele. Não é assim, essa não sou eu — desabafa Paolla, compartilhando que sempre recebeu elogios dos namorados com filhos (como é o caso de Diogo): — Sempre ouço que daria uma ótima mãe.

E quem é Paolla Oliveira? Até aqui ela se definiu como independente, corajosa e realizada. Porém, em fevereiro, uma das palavras que entrou para lista foi “vulnerável”, ela diz. Na ocasião, um homem português tentou invadir a casa de Diogo Nogueira num condomínio na Barra da Tijuca. A atriz conta que o rapaz se aproximou dela pelo Instagram e disse que era um fã, conhecido de amigos.

— A última mensagem que vi dele era falando que viria me encontrar porque eu o estava traindo com o Diogo. Aí um dia ele apareceu lá em casa e foi aquela confusão toda. Mas ele foi diagnosticado como esquizofrênico, a família veio buscá-lo. Eu me senti tão vulnerável, tudo está tão delicado — pondera e acrescenta que, para viver num mundo digital, é preciso que as pessoas se eduquem: —Eu tento falar com as pessoas envolta de mim. Na minha casa, ninguém faz stories à toa, não. Tem que pedir, tipo “posso fazer uma foto com o fundo da sua casa?”. Mas a parte boa das redes sociais é que ali é a minha verdade, eu não vou mentir ali. Antigamente eram só os veículos de imprensa.

No espaço digital, onde as possibilidades de filtros e retoques são infinitas, a atriz prefere manter a linha da naturalidade, não gosta de nada exagerado. Sobre intervenções estéticas, também prefere as pontuais, mas não é contra quem faz:

— Acho legal ter recursos, mas eu não quero que as pessoas acreditem nem que eu acredite que sou aquela pessoa do filtro. Eu não sou. Eu acabei de fazer 40 anos e estou tão feliz que as pessoas falem “olha, você é bonita de verdade”. Mas desconfio de que vou ter que começar a fazer um botox, acho que está na hora (risos).

Paolla completou quatro décadas de vida em abril e fez dois pedidos de aniversário. O primeiro — que a Grande Rio ganhasse o título de campeã do carnaval — já foi realizado; o segundo só vai dar para saber em outubro. Paolla gostaria de uma troca de governo. Fora isso, diz estar completa.

— O povo fica falando: “Ai, e a crise dos 40?”. Que crise, gente? Crise vive o mundo, vive o nosso governo, eu não tenho que ter crise. Só posso ter 40 e ser mais feliz hoje porque eu já tive 20, 25, e caí em todas as ciladas possíveis. Aí me questionam: “Mas não é muito poético você falar que está mais madura?”. Não! Ainda bem que eu estou porque tem gente com 40 que continua uma anta. Não tem nada de clichê, é a vida. A única opção para não envelhecer é morrer cedo, e isso eu não quero. Da próxima vez, eu trago uma lista de desejos pra falar pra vocês — diverte-se.

Créditos do ensaio

Stylist Marcell Maia

Maquiagem Make do Theo

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