Duda Beat: 'Quero cantar em outras línguas mas com a sonoridade do Nordeste. Imagina um maracatu em inglês?'

Quando Caetano Veloso lançou a música “Sem samba não dá”, em outubro do ano passado, Duda Beat ganhou um presente: estava citada na letra. E a homenagem veio na hora certa, Duda estava passando por um momento triste, por vezes, até desacreditada, afinal ela lançou seu segundo álbum “Te amo lá fora” em abril de 2021 e, devido a pandemia, não conseguiu trabalhá-lo como deveria. O reconhecimento foi como um “quentinho no coração” e, finalmente, quase um ano depois do lançamento do disco, Duda Beat vai levar seu show para a Europa.

— Na hora que eu ouvi a música, comecei a chorar. Ele é uma grande inspiração para mim e saber que eu também fui inspiração, de certa forma, para a música dele foi muito recompensador. Algumas frases passaram pela minha cabeça: “ok, eu não tenho milhões de seguidores no Instagram, mas o Caetano me admira”, “ok, eu não toco na rádio do Sudeste, mas o Caetano admira o que eu faço” — diz a cantora, que adianta que encontrou Gilberto Gil e Caetano para gravar um projeto que está para sair em fevereiro.

Ainda que Duda não tenha milhões de seguidores nas redes sociais, no Spotify ela já conquistou dois milhões de ouvintes mensais. Se não toca na rádio no Sudeste, tocou com Adriana Calcanhoto, Anavitória, tem um EP com Nando Reis, vai estar no Rock in Rio e, em abril, vai tocar em sete cidades da Europa — Berlim, Paris, Londres, Lisboa, Porto, Madrid e Barcelona.

— Sinto que minha música já transformou a vida de muita gente que ouviu, então é um objetivo de carreira, quanto mais gente ouvir minhas canções, mais pessoas se sentirão tocadas. Eu tenho muitos sonhos relacionados à carreira internacional. Quero cantar em outras línguas mas com a sonoridade do Nordeste. Imagina um maracatu em inglês? A galera lá de fora vai achar isso tudo, porque é diferente e é interessante. Não quero descaracterizar nada para agradar um mercado, pelo contrário, é manter as minhas raízes e cantar em outras línguas além do portugues — conta a artista, que está estudando inglês, pretende começar a estudar espanhol esse ano para assim, futuramente, lançar um disco nessas línguas.

É fácil se identificar com as letras de Duda Beat. Unindo o piseiro, o maracatu, o frevo e o brega com o pop, ela canta a sofrência de amores não correspondidos, de relacionamentos tóxicos, e em meio a essa narrativa, tenta encontrar sua própria voz. Se em “Sinto muito”, seu primeiro álbum lançado em 2018, Duda dependia que o outro a aceitasse, em “Te amo lá fora” a decisão é dela:

— O que mudou foi me ver caindo na real mesmo. Desde os meus 11 anos de idade eu me apaixono por pessoas que não me retribuem amor. Durante o colégio, na minha adolescência, eu era o cupido. Mas isso me trouxe um carisma maravilhoso (risos). No primeiro disco eu tava muito iludida, por isso que eu falei tanto do olhar do outro. No segundo, quando eu bato na tecla de que eu estou realmente encarando o assombro que é o amor. E eu realmente espero que meu terceiro disco seja muito alto astral, mesmo que às vezes eu caia na sofrência, eu quero estar 80% empoderada e 20% sofrendo.

10 dias sem falar

Duda se descobriu cantora e compositora depois de participar de um retiro, onde ficou 10 dias sem falar. Antes disso, ela passou sete anos tentando entrar para a faculdade de medicina, um dia cansou e resolveu fazer Ciência Política na Unirio.

Recentemente, viralizou um vídeo em que depois de a plateia xingar o atual presidente, a cantora puxa um coro a favor de Lula em um de seus shows.

— Na minha faculdade eu estudei todos os governos e o que deu mais afeto social e possibilidade social foi o governo dele. Eu quero eleger o cara que tirou a gente do mapa da fome. Quero eleger um cara que tem ótimas relações com outros países, que pensa no coletivo, que pensa em todas as classes sociais. Porque eu já vi isso na prática acontecendo. No meu show eu não quero mais falar de um cara que colocou a gente no mapa da fome. Chega de falar sobre esse cara e dar protagonismo a ele, vamos dar protagonismo a outras pessoas. E naquele momento dei protagonismo ao meu candidato — explica ela demonstrando porque repudia Bolsonaro — Além de artista, mulher e ser humano, esse governo me afetou como pessoa política. Eu sou do setor da cultura, que está completamente abandonado. A gente paralisou de novo, não existe nenhuma solução, ninguém está focando na solução.

Apesar dos tempos difíceis, Duda tem esperança de que um plano do governo para o setor cultural aconteça. Enquanto isso, trabalha para que em breve possa voltar aos palcos com o show do “Te amo lá fora”. Para o fim do ano, ela pretende lançar a primeira música do terceiro álbum, que se não chegar ainda em 2022, chega no começo de 2023.

— Tem um single novo chegando. Eu tinha bebido umas e falei “bora fazer uma música” e saiu um trabalho bem despretensioso, com alegria e humor — adianta.