O bebê de uma adolescente grávida da instituição onde eu atendia virou meu filho

Dulce Raquel
Dulce e os 3 filhos: unidos mesmo quando estão distantes.

Sou Dulce Raquel, tenho 60 anos, sou psicóloga de formação e hoje atuo como gerente em uma casa de adolescentes gestantes ou com bebês. Trabalho nessa área há 25 anos.

Tenho 3 filhos, mas às vezes parece mais porque o trabalho com as adolescentes é bastante complexo. Você se sente mãe, avó porque quando a menina chega lá grávida com 11, 12 anos... Primeiro, você tem o impacto. Embora eu já trabalhe há muito tempo, se hoje chegar uma menina gestante é como se fosse a primeira menina que eu estivesse recebendo.

É sempre muito impactante porque são muito meninas, histórias que se repetem de abuso sexual, violência doméstica. A maioria, ou todas, são famílias chefiadas por mulheres, e mulheres sozinhas. 

Então você vai se sentindo parte, e a gente descobre que não adianta cuidar só da menina. Temos que cuidar da menina, do bebê que está por vir e também da família porque essa é a família que ela vai ter como rede. E são pessoas sempre muito marginalizadas, acabam ficando nesse lugar de que não precisam ser ouvidas, que são sempre responsáveis pela própria gravidez de violência, como se a violência não fosse sofrida.

Mas é bastante gratificante quando você consegue quebrar o ciclo. Como estou há muito tempo, a gente já tem a segunda geração dessas meninas, quando não a terceira e você se sente mãe, avó dos bebês.

E um desses bebês virou meu filho. É um processo de adoção que começa em 2010 quando a mãe dele, uma das meninas que recebemos, sai da casa da acolhida. Mas volta a morar na comunidade onde morava antes e engravidou.

Conversei com minha família, marido e filhos, e trago tanto o bebê quanto a mãe para morar comigo. Buscamos trabalho, escola, ajuda para moradia. Ela foi morar sozinha com o bebê, conseguimos creche, ela arranjou um emprego. Mas 10 meses depois descobrimos que ela estava afundada nas drogas de novo. 

Fizemos uma proposta para ela se cuidar. Ela topou, mas na hora de internar, em...

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