Duo português Fado Bicha usa humor e militância queer para romper tabus

“Muitas vezes nos dfadfadoisseram, ao longo da carreira, que o que nós fazemos não é fado. E respondemos que sim, que não é fado, é fado bicha”, esclarece, com um tanto de mel e um outro tanto de fel, a cantora Lila Tiago.

Junto com a guitarrista e violonista João Caçador, ela compõe o duo Fado Bicha, projeto artístico que há algum tempo rompeu os limites da cena queer de Lisboa e que na semana passada lançou seu primeiro álbum, “OCUPAÇÃO”. Um disco no qual se ouve o fado, sim, mas envelopado em sonoridades contemporâneas do pop e aditivado por guitarras distorcidas, efeitos eletrônicos e doses mortais de deboche, humor e ativismo político.

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— Esse é um disco que não só reclama esse patrimônio do fado, como faz umas tantas experimentações nos níveis musical e lírico — avança Lila Tiago, jovem gay portuguesa que, assim como João, se identifica artisticamente como bicha e se intitula no feminino. — Tentamos, acima de tudo, ser fiéis a nós próprias e fazer um álbum que espelhasse o máximo as nossas ânsias, preocupações e alegrias com o prazer dos nossos corpos.

Show no Brasil em julho

Muitas são as intenções de Lila e João com “OCUPAÇÃO”, disco que elas mostram ao vivo no Brasil em julho, antes de seguirem para Nova York, onde dividem um Summerstage com Ney Matogrosso. A mais imediata é a de provocar o máximo de ruído, de forma a remover um pouco do manto de silêncio estendido em Portugal sobre as vidas gays.

— No Brasil há muita música que se pode entender como música queer de intervenção. Aqui, ela esbarra na linha muito rígida de silenciamento — aponta Lila, que já gravou com o Fado Bicha uma música do repertório de Elza Soares (“A mulher do fim do mundo”) e se vê derrubando “cânones do que pode e o que não pode ser cantado”. — O fado, que durante décadas foi instrumentalizado por uma ditadura, acabou por incorporar elementos de normatividade e de rejeição ao marginal. Hoje, mais de 40 anos após o fim da ditadura, restam vestígios dessa herança. O que se vê não apenas em reação ao nosso projeto, mas na própria noção de gênero e sexualidade, que ainda é tabu em comunidades mais tradicionais como a do fado.

Para a cantora, aliás, a ideia de “tradição do fado” nada mais é do que uma falácia.

— O fado passou por múltiplas mutações. O primeiro registro escrito da palavra “fado” enquanto gênero musical foi encontrado na comunidade afro-brasileira e depois é que isso foi trazido para Portugal. O fado já foi dançado, já foi tocado ao piano e, mesmo recentemente, temos a Amália Rodrigues, que introduziu várias novidades no fado e foi vilipendiada várias vezes por suas experimentações. E essas experimentações são hoje em dia consideradas canônicas.

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Ao incorporar o “bicha” (palavra que, segundo Lila, em Portugal também faz parte “do rol de insultos a uma pessoa LGBT”) ao seu nome, o duo tenta mostrar a animalidade que se atribui às pessoas que não se enquadram nas estruturas normativas de gênero (“elas são menos que humanas”).

— Qualquer pessoa LGBT que cresça em Portugal e que consiga chegar à fase adulta é, no meu ponto de vista, uma sobrevivente. A escola não reconhece que haja jovens LGBT, a televisão não te reconhece dessa forma e, muitas vezes, nem a tua família reconhece assim — denuncia João Caçador. — Crescemos em Portugal com um vazio total de história, de referências e de narrativas que possamos agarrar. Crescemos dentro do armário num lugar solitário, com uma ideia de autossabotagem, culpa e vergonha.

Encontro com a morte

Segundo Lila, ela e João nasceram e foram criadas nos subúrbios de Lisboa, com muito pouco acesso a manifestações culturais locais, em famílias que vieram do interior. Lila foi uma criança muito solitária, que se refugiava na natureza e no mundo interior. A sua experiência da infância , ela conta na música “1997”, ano em que tinha 12 anos e “uma crença muito forte de que ia morrer jovem, de aids.” Já para João a consciência veio mais tarde — adolescente, jogava futebol com os meninos e tocava violão, mas, nos tempos de faculdade, um acidente de moto a fez ver a morte de perto e questionar sua própria sexualidade.

— Crescer como uma criança queer nos subúrbios é viver uma insularidade dentro de outra insularidade, são muros dentro de vários muros — diz a guitarrista, que com o dinheiro da indenização do acidente comprou uma passagem para o Rio de Janeiro, onde iniciou uma viagem de mochilão pelas Américas do Sul e Central.

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