A dupla cartada de Bolsonaro ao mudar os comandos do Ministério da Justiça e da PF

Francisco Leali

O Diário Oficial desta terça-feira torna oficial o desejo do presidente da República: mudar o perfil do comando do Ministério da Justiça e da Polícia Federal. Na mais recente crise provocada pelas revelações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro, o presidente Jair Bolsonaro deixou claro que não estava satisfeito por não ver seus pedidos atendidos. Segundo Moro, Bolsonaro queria acesso a relatórios de inteligência da PF, e estava contrariado com investigações no Supremo Tribunal Federal com potencial de atingir pessoas próximas à presidência.

Moro disse ter alertado Bolsonaro sobre o risco de tirar, sem motivo que justificasse, Maurício Valeixo da direção da PF, e o presidente expôs que precisava de um nome para quem pudesse ligar diretamente e obter informações. Bolsonaro alega que não queria se intrometer em investigações, apenas pretendia ter conhecimento de relatórios de inteligência para orientar suas ações de governo. Na tênue linha que separa investigação de relatório da PF, Bolsonaro, na avaliação de Moro, queria ter maior ingerência num órgão, com "consequências imprevisíveis".

A escolha pelo delegado Alexandre Ramagem, a quem se atribui uma estreita proximidade da família Bolsonaro, indica que, a partir de agora, o presidente pode ter alguém para ligar diretamente e pedir o que bem quiser. Ficará Ramagem com o dever de decidir se aceita os pedidos do chefe de todos no Executivo ou se preserva a autonomia de seus colegas de polícia, em eventuais casos em que essa estiver sob ameaçada.

No caso da nomeação do advogado-geral da União André Mendonça para a pasta que era de Moro, o presidente optou por um nome da burocracia federal. Mendonça serviu a governos passados, dentro de suas atribuições. À frente da AGU na gestão Bolsonaro, atuou como reza a cartilha do órgão, defendendo as posições do governo junto ao Judiciário. Na Justiça, deverá seguir o mesmo caminho, com uma qualidade adicional, para Bolsonaro: ao contrário de Moro, que foi para o governo carregando a fama do juiz que conduzia a Lava-Jato, Mendonça não fará sombra ao presidente.