Dupla leva doulagem para adoção em serviço pioneiro no Brasil

Gabriel Melloni
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Marianna Muradas (esquerda) e Mayra Aiello (direita), as Doulas de Adoção - Foto: Arquivo Pessoal
Marianna Muradas (esquerda) e Mayra Aiello (direita), as Doulas de Adoção - Foto: Arquivo Pessoal
  • Marianna Muradas e Mayra Aiello criaram no início do ano passado o projeto Doulas de Adoção

  • Elas fazem acompanhamento emocional e legal de pessoas que querem adotar ou já tiveram um filho por esta via

  • O trabalho delas foi alterado durante a pandemia, e a dupla teve de se adaptar a uma nova realidade

A chegada de uma criança a uma família costuma ser um momento único de alegria, mas também de dúvidas e picos emocionais para os pais. Isso vale tanto para filhos biológicos quanto para aqueles “concebidos” via adoção, ainda que nem sempre a atenção dada às famílias seja a mesma em ambos os casos.

Pensando nisso, uma dupla de mulheres decidiu no início de 2019 criar um serviço pioneiro no Brasil, especializado para acompanhamento de mães e pais que buscam um filho via adoção ou que acabaram de ganhar um novo integrante na família por este meio. Assim, nasceram as “Doulas de Adoção”.

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“Nosso trabalho consiste em acompanhar as famílias, independentemente de em qual etapa do processo elas estejam”, explica Marianna Muradas. “É um processo com base em toda uma caminhada legal e com o apoio emocional característico da doulagem, da escuta, do não julgamento, apoio emocional, ferramentas e recursos para lidar com questões emocionais e ligadas à parentalidade”, conclui sua parceira, Mayra Aiello.

Ambas têm ligação direta com a adoção. Marianna, que trabalha também como doula em partos humanizados, foi adotada, enquanto Mayra, psicóloga especializada em questões familiares, é mãe de Maria, de três anos, via adoção.

Elas explicam que o serviço das Doulas busca amparar pais que estejam em qualquer ponto desta trajetória. Desde aqueles que ainda se veem indecisos sobre o início do processo, até os que já adotaram e precisam de auxílio técnico ou emocional.

A dupla promove cursos para formação de novas doulas de adoção - Foto: Arquivo Pessoal
A dupla promove cursos para formação de novas doulas de adoção - Foto: Arquivo Pessoal

“Fazemos curadoria de informações, auxiliando famílias a encontrar respostas técnicas – qual sua Vara, o que significa cada documento, cada atestado que precisa levar –, e, principalmente, nas questões emocionais que a adoção traz. Então, como esse adulto que deseja adotar uma criança vai se preparar emocionalmente para a parentalidade? Porque o que muda na constituição da família é a via. Tem criança que nasce de parto normal. Em outra família, vem via adoção. Não muda mais nada”, diz Marianna. 

A análise da doula, porém, nem sempre é compartilhada por amigos e até parentes dos pais por adoção. Por isso, a dupla luta também “contra os preconceitos e tabus” que envolvem a chegada de uma criança por essa via.

“Se com os pais biológicos as pessoas são ‘sem noção’, muitas vezes, e falam: ‘Ah, mas é seu filho, como assim você não está vendo isso?’, na adoção é um pouco pior. Às vezes, falam: ‘Te falei que só vem criança problemática, que você arrumou sarna pra se coçar’. Então, as pessoas acabam sendo muito menos acolhedoras na adoção. A doula entra nesse lugar”, explica Marianna.

Mayra conta que se viu em situação semelhante após a chegada de Maria, então um bebê de oito para nove meses, no fim de 2018. Inesperadamente, encontrou-se com sentimentos e sensações característicos do puerpério, mesmo sem ter dado à luz aquela criança, e sentiu falta do acolhimento de alguém preparado para aquela situação.

Me vi no puerpério, com as alterações emocionais desta fase. Identifiquei meu marido no puerpério, também com as questões psicoemocionais, com a dinâmica nova de uma criança em casa. Aí, foi quando eu e a Mari decidimos criar o projeto das Doulas de Adoção”, lembra.

Ação durante a pandemia

Além de trabalharem na função, Marianna e Mayra dão cursos para a formação de novas doulas de adoção e possuem um programa para atendimento a famílias que não podem arcar com os custos do serviço.

“Colocamos para nossos alunos, como parte do processo, atenderem uma família gratuitamente, para se formarem. Como um estágio, um serviço social. Então, retribuímos isso para a sociedade, toda essa troca, o que aprendemos com essas famílias”, destaca Mayra.

Com a pandemia, os cursos passaram a ser on-line - Foto: Reprodução
Com a pandemia, os cursos passaram a ser on-line - Foto: Reprodução

Todos os atendimentos ao longo do último ano, porém, tiveram de ser realizados virtualmente. A pandemia impediu que o início da trajetória das Doulas de Adoção acontecesse como esperado, mas, por outro lado, abriu novos horizontes com os quais elas não esperavam se deparar.

“A dinâmica ampliou. Atendemos pessoas on-line no mundo inteiro. Estou com doulandos no Canadá, temos uma doula em processo de certificação em Portugal. É mais intenso o nosso trabalho de se informar. Era mais fácil quando só atendia as Varas de Infância e Juventude de São Paulo, que eu conheço. Agora, tenho que estudar leis de outros estados, conforme as demandas das famílias que chegam. E tem sido uma demanda bem alta”, conta Marianna.