Duque ordena militarização de Cali após um mês de convulsão social

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"Marcha do Silêncio" em rejeição aos bloqueios de ruas e à violência nos protestos contra o governo, em Cali, Colômbia, em 25 de maio de 2021

O presidente Iván Duque determinou na sexta-feira a mobilização de tropas militares em Cali, a terceira cidade da Colômbia, diante do caos e de protestos que deixaram ao menos três mortos durante o dia em que se lembrou um mês de uma convulsão social inédita no país.

"A partir desta noite começa a mobilização máxima de assistência militar à polícia nacional na cidade de Cali", anunciou o presidente após chefiar um conselho de segurança nesta cidade de 2,2 milhões de habitantes, onde um toque de recolher noturno entrou em vigor.

"Essa mobilização quase triplicará nossa capacidade em 24 horas", disse o presidente.

"Infelizmente, três pessoas morreram (...) Esta situação ocorreu entre quem bloqueia e quem queria passar" por um dos pontos fechados pelos manifestantes, disse mais cedo o prefeito da cidade, Jorge Iván Ospina.

Em vídeos que viralizaram foi possível ver um homem caído sobre uma poça de sangue e outro próximo com uma arma, perseguido por manifestantes. Em seguida, as imagens mostram o suposto agressor também no chão, após ter sido aparentemente linchado. A terceira vítima morreu em circunstâncias que não foram esclarecidas até o momento.

Uma das vítimas era Fredy Bermudez, um investigador do Ministério Público, que atirou na direção de uma manifestação, "provocando a morte de alguns civis" e que depois foi morto pelos manifestantes, segundo o chefe do organismo, Francisco Barbosa. Ele acrescentou que o funcionário "estava de folga". A emissora W Radio denunciou a morte de outra pessoa que levou vários tiros durante um protesto.

Enquanto isso, o ministério da Defesa divulgou imagens de multidões atacando edifícios públicos com pedras e explosivos artesanais nas cidades vizinhas de Popayán e Pasto.

Em um mês de protestos, morreram 49 pessoas, segundo contagem oficial. O Ministério Público estabeleceu que pelo menos 17 casos têm vínculo direto com as manifestações, mas a ONG Human Rights Watch afirma ter "denúncias confiáveis" sobre 63 óbitos, 28 relacionados com a crise.

A eclosão começou quando o governo quis impor mais impostos à classe média, atingida pela pandemia, para preencher a lacuna fiscal deixada pela emergência econômica.

Duque desistiu da proposta, mas a repressão policial aumentou os ânimos. Atualmente as ruas estão cheias de jovens sem trabalho e sem educação que pedem um Estado mais solidário diante da devastação causada pela covid-19.

Cali foi o epicentro das manifestações. Os bloqueios que atingem esta e outras cidades dividem o governo e as principais lideranças do protesto, que conversam há duas semanas sem chegar a um acordo.

Representantes do governo exigem a suspensão dos bloqueios, enquanto a chamada Comissão Nacional de Greve defende os "pontos de resistência" como forma de protesto e pede ao presidente que peça desculpa pelos excessos das forças de segurança.

As forças policiais, que na Colômbia são controladas pelo Ministério da Defesa, estão sob fortes críticas pelos excessos que as vinculam às mortes de manifestantes.

A comunidade internacional condenou a reação dos órgãos de segurança, enquanto as ruas clamam por uma reforma que "desmilitarize" uma força policial que há décadas luta contra guerrilheiros e narcotraficantes.

O governo garante que as manifestações foram infiltradas por vândalos e grupos armados que sobrevivem à assinatura do acordo de paz com as extintas Farc, guerrilha que se tornou partido político após meio século de fracassada luta pelo poder.

Desde que assumiu o poder em agosto de 2018, Duque enfrentou protestos sem precedentes. A pandemia extinguiu as mobilizações por um tempo, mas elas recomeçaram com força, apesar do fato de que a Colômbia enfrenta uma onda agressiva da covid-19 que tem hospitais à beira do colapso.

As manifestações pacíficas durante o dia, mas que à noite escalaram para confrontos violentos em vários pontos, levaram à demissão do Ministro das Finanças, do chanceler e do Alto Comissário para a Paz.

Enquanto isso, a desaprovação de Duque atinge níveis históricos (76%), a um ano das eleições das quais deverá sair seu sucessor.

A pandemia afetou a economia do país de 50 milhões de habitantes. Em um ano, a porcentagem da população pobre passou de 35,7% para 42,5%, e quase um terço dos colombianos (27,7%) entre 14 e 28 anos não estudam, nem trabalham, segundo o órgão estatal de estatísticas.

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