Duro golpe na "máfia dos cultivos" que fica com subsídios da UE

Suspeitos seguidos durante a operação contra a máfia na Sicília em imagem de um vídeo divulgado em 15 de janeiro de 2020 pelo corpo policial italiano Guardia di Finanza

A polícia italiana deu um duro golpe na chamada "máfia dos cultivos" da Sicília especializada na obtenção de milhões de euros para a agricultura na União Europeia.

No total, 94 pessoas foram presas durante uma operação gigantesca, incluindo os chefes de duas famílias da máfia, um notário, empresários e funcionários públicos encarregados de licitações para acessar os fundos.

Desde 2013, a máfia de Tortorici, chamada assim pela cidade situada em uma zona montanhosa no nordeste da ilha, cometeu uma fraude de cerca de 10 milhões de euros à União Europeia, segundo o Ministério Público de Messina.

Os mafiosos se apropriaram de extensões de terra "fantasma" que estavam em mãos de prefeituras, regiões e até de um aeroporto local, para obter fundos europeus destinados ao desenvolvimento da agricultura.

"Eles conseguiram obter subsídios para propriedades que nunca lhes pertenceram", explicou o procurador de Messina, Maurizio de Lucia, à margem de uma coletiva de imprensa realizada na cidade de Nebrodi.

"As duas famílias mafiosas fizeram um pacto concreto para distribuir fundos da União Europeia", disse o general do corpo de carabineiros, Pasquale Angelosanto.

- Ausência de controles -

Entre os presos estão funcionários do órgão público para o desenvolvimento da agricultura, responsável pela alocação de fundos da UE e especialistas em solicitar assistência da entidade internacional.

"Pediam os subsídios onde podiam, porque sabiam que não havia controles", explicou Lucia.

"É uma farsa gigantesca. Tinha somente que ser controlada. Mas a pessoa encarregada de controlar era cúmplice", resume o jornal La Repubblica.

Dos detidos, 48 foram levados para presídios e os demais estão em prisão domiciliar, informou a Polícia.

A Comissão Europeia anunciou que "continuará toda a investigação", explicou um de seus porta-vozes, Daniel Rosario.

"Isso é algo que a Comissão leva muito a sério. Nossa política é de tolerância zero", disse ele, lembrando que os controles são responsabilidade dos Estados.

Mais de 150 empresas estão envolvidas no desvio desses fundos, segundo a ministra do Interior italiana Luciana Lamorgese.

"É necessário mais monitoramento do sistema para acessar os fundos, a fim de impedir que os clãs da máfia se apropriem dos subsídios europeus às custas de produtores e agricultores honestos", afirmou.

O dinheiro obtido pela máfia de Tortorici, com ligações à poderosa máfia Cosa Nostra, acabou em contas correntes na Bulgária e na Lituânia.

Segundo o procurador nacional antimafia Federico Cafiero de Raho, é "um salto qualitativo na máfia" que, graças às funcionários preparados consegue "entrar na economia legal com sistemas ilegais".

"Não se trata mais de crimes tradicionais, como tráfico ou extorsão de drogas, mas de fraudes contra uma entidade internacional", afirmou.