Dúvida de 'reinfecção' por Covid-19 acompanhou youtuber por Hungria, Brasil e Polônia

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Youtuber Carol Capel lidou com o coronavírus em estágios diferentes nos três países em que esteve desde janeiro. (Foto: Arquivo Pessoal)
Youtuber Carol Capel lidou com o coronavírus em estágios diferentes nos três países em que esteve desde janeiro. (Foto: Arquivo Pessoal)

com João de Mari

Durante seis meses, a youtuber Caroline Capel, de 30 anos, teve de lidar o novo coronavírus em três países diferentes e em estágios distintos da doença. Mais do que o modo como cada país reagia e enfrentava a pandemia, a influencer carregou consigo a dúvida de ter sido infectada duas vezes pela Covid-19.

Morando em Cracóvia, na Polônia, Caroline esteve de férias com o marido em um hotel em Budapeste, na Hungria, em janeiro deste ano. A cidade sediava o torneio Europeu de Polo Aquático masculino, reunindo atletas de todo o continente buscando uma vaga às Olimpíadas de Tóquio.

“A gente ficou hospedado em um hotel que estava tendo uma competição de polo aquático. O hotel funcionava como uma sede e então tinham várias pessoas de vários países. Muita gente de muitos lugares”, descreve, em entrevista para a série “Eu Tive Covid”.

Até então, o mundo ocidental funcionava em um cenário sem Covid-19: sem necessidade de distanciamento social, sem obrigatoriedade do uso de máscara, sem restrições de lotação por ambiente e etc. O “antigo normal”.

Os sintomas iniciais da doença surgiram nela e no marido logo após o retorno para casa na Polônai e foi, segundo ela, “uma das piores gripes” que já sentiu. Sem informações sobre o surto da nova doença, os dois mantiveram repouso em casa e trataram seus sintomas como quem trata uma gripe mais severa.

EU TIVE COVID - A SÉRIE

“Eu tive muita febre, calafrios, muito cansaço. Aqueles cinco dias que você passa na cama com muita tosse, muito catarro. Muita falta de ar, impossível (respirar). Você puxa e o ar não vem. Você puxa pelo nariz, puxa pela boca, o ar não vem de jeito nenhum”, conta.

No fim de janeiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que “o surto do novo coronavírus constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional”, conforme previsto no regulamento sanitário internacional.

Àquela altura, a organização havia confirmados menos de 300 casos de infecção pelo novo coronavírus e somente em 4 países do mundo (China, Coreia do Sul, Japão e Tailândia).

Nove meses depois, estudos publicados recentemente atestam que pesquisadores encontraram resquícios do novo coronavírus em redes de esgoto no Brasil e em pacientes com sintomas de síndrome gripal nos Estados Unidos ainda no fim do ano de 2019.

MÁSCARA EM FEVEREIRO E VOLTA ÀS PRESSAS

Em fevereiro, Caroline comprou passagens para visitar seus familiares no Brasil, que moram em São Paulo. No dia 4 do mesmo mês, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, publicou uma portaria decretando situação de emergência mesmo sem a confirmação de qualquer caso no país.

No período que esteve no Brasil, a youtuber conta que foi alvo de olhares curiosos e intrigados ao andar na rua de máscara facial, mesmo antes de qualquer determinação de lei.

“Eu andava o tempo todo de máscara e as pessoas olhavam para mim como se eu fosse uma alienígena, porque era só eu andando de máscara, só que as pessoas não sabiam de onde eu tinha vindo. As pessoas achavam que eu estava doente, mas na verdade eu estava tentando proteger as pessoas, porque eu vim dentro do avião com chineses, com italianos, com um monte de gente”, conta.

A passengers, wearing a masks as a precautionary measure to avoid contracting the Covid-19 virus, travels through Guarulhos International Airport, in Guarulhos, Sao Paulo, Brazil on February 26, 2020. - The Brazilian Health Ministry confirmed Wednesday the diagnosis of coronavirus of a Brazilian resident in Sao Paulo, which became the first case of this epidemic in Latin America. The initial diagnosis "was confirmed," Minister Luiz Henrique Mandetta said at a press conference in Brasilia. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Em fevereiro, ainda não havia obrigação pro lei para o uso de máscaras faciais contra a Covid-19. Na foto, tirada em 26 de fevereiro de 2020, um passageiro utiliza máscara como precaução em voo no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)

O retorno à Polônia estava previsto para o dia 15 de março, mas a volta precisou acontecer quatro dias antes do planejado, já que o país iria fechar as fronteiras no dia 12. “Eu voltei dia 11 (de março). Troquei a passagem enlouquecida porque eles iriam fechar a fronteira e eu teria que fazer a quarentena em outro país para depois entrar na Polônia”.

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No mesmo dia em que Caroline embarcou de volta à Europa, a OMS atualizou a situação do novo coronavírus como uma “pandemia mundial”, com mais de 118 mil casos em 114 países e 4,2 mil óbitos regitrados.

No Brasil, a primeira morte confirmada por Covid-19 aconteceu em 16 de março, um paciente de 62 anos na capital paulista. Três meses depois, em junho, o Ministério da Saúde corrigiu a informação e confirmou que o primeiro óbito no país por Covid-19 ocorreu em 12 de março - uma mulher de 57 anos, também em São Paulo.

No dia 16 de março, data do então primeiro óbito, o Brasil tinha 234 diagnósticos positivos da doença em todo o país, dos quais 152 estavam concentrados em São Paulo. E apenas 4 mortes suspeitas estavam sendo investigadas pelo governo.

O vôo que levou Caroline do Brasil à Polônia fez uma escala na Holanda. Antes de entrar no país em que mora, precisou seguir um protocolo rígido de controle de viajantes internacionais que consistia em assinar um termo de compromisso de manter uma quarentena em casa por, pelo menos, 14 dias.

Young foreign passengers awaiting for their 'rescue flights' inside the Terminal Hall of John Paul II Krakow-Balice International Airport. With a total of 119 confirmed cases of coronavirus and three people dead, Poland declared a state of epidemic emergency and closure of its borders. From March 15, all international flights for passenger traffic were suspended. However, a few KLM or EasyJet rescue flights were allowed to land at Krakow airport to pick up foreign passengers On Sunday, March 15, 2020, in John Paul II Krakow-Balice International Airport, Krakow, Poland. (Photo by Artur Widak/NurPhoto via Getty Images)
Passageiros estrangeiros aguardam seus 'voos de resgate' dentro do Terminal Hall do Aeroporto Internacional João Paulo II, na Cracóvia, Polônia. Foto tirada em 15 de março de 2020. O país declarou estado de emergência epidêmica, fechamento de suas fronteiras e suspendeu todos os voos internacionais para tráfego de passageiros. (Foto: Artur Widak/NurPhoto via Getty Images)

“Me fizeram preencher um monte de documentos. Eu poderia ser presa, por exemplo, se eu fosse vista na rua por algum policial (caso descumprisse a quarentena)”, explica. Na data em que chegou ao país, a Polônia tinha 119 casos confirmados de Covid-19 e três mortes atestadas.

A confirmação da infecção de Caroline pelo novo coronavírus veio de um exame de sangue feito após o desembarque.

“Eu não sei se eu peguei no Brasil, se eu peguei no avião, se eu peguei na Holanda, ou se eu peguei aqui na Polônia quando eu cheguei no aeroporto, enfim. (...) Eu pensava ‘se eu peguei no Brasil, passei para todo mundo lá’. Esse era meu medo”, relata.

Uma nova dúvida surgiu durante a consulta com o médico que confirmou seu contágio na Polônia. “O médico falou assim: ‘é muito estranho, porque me parece uma reincidência da doença’. Aí eu falei: ‘como assim, uma reincidência da doença? eu nem sabia que dava para pegar duas vezes’”, afirma.

POSSÍVEL REINFECÇÃO

Sem um exame atestando o possível primeiro contágio, logo após a volta da Hungria, a confirmação de reinfecção através do exame de RNA do vírus Sars-CoV-2 fica impossibilitada, uma vez que é preciso provar que o vírus não é o mesmo nas duas vezes.

Em agosto, Hong Kong, Holanda e Bélgica confirmaram casos de reinfecção pelo novo coronavírus. Especialistas ainda não sabem qual a frequência de possíveis reinfecções, se são casos isolados ou se podem ser comuns.

Em São Paulo, o HC da USP (Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo) investiga, ao menos, quinze casos suspeitos de reinfecção.

Outro fator, no entanto, faz com que a youtuber acredite na reincidência da doença. “Ele (médico) falou que a reincidência geralmente não causa o mesmo problema que a primeira vez. Tanto que, na segunda vez, eu não tive tosse, não tive gripe, não tive febre, não tive nada, só tive muita diarreia e dor de barriga”, garante.

No mês de março, a Polônia registrou seu 100º caso, no dia 14, e seu 500º, exatamente uma semana depois, no dia 21. O número de infectados no país europeu dobrou em 4 dias, atingindo os 1 mil casos no dia 25 de março.

Até 16 de setembro, o país europeu registrou 75.134 casos confirmados e 2.227 mortes, além de 61.548 pacientes recuperados, segundo dados da Universidade de Johns Hopkins.

Youtuber Carol Capel lidou com o coronavírus em estágios diferentes nos três países em que esteve desde janeiro. (Foto: Reprodução/Instagram/Carol Capel)
Youtuber e o marido só conseguiram retomar a rotina após cerca de três meses confinados em casa, na Polônia. (Foto: Reprodução/Instagram/Carol Capel)

Caroline e o marido só retomaram a rotina em um “novo normal” no dia 1º de junho, seis meses após o evento de polo aquático na Hungria, onde acredita ter sido infectada pela Covid.

Durante o período de recuperação, nenhum de seus parentes no Brasil com os quais teve contato atestaram positivo para o novo coronavírus. Mesmo curada do contágio confirmado, a youtuber relata sentir ainda dificuldade em respirar e tem evitado atividades que possam baixar sua imunidade.

“Eu estou com uma fraqueza pulmonar ainda. Estou evitando muito contato com água fria, tomar sorvete, qualquer coisa que baixe minha resistência. A gente está no verão aqui e não fez nada absolutamente de verão. A gente vê todos os poloneses ir para lagos, rios, andar de canoa, fazer trilha e a gente não faz absolutamente nada”.

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