O que o caso Queiroz ensina sobre o "novo" Brasil?

O ex-assessor Fabrício Queiroz, durante entrevista ao SBT

Cerca de um mês antes da posse de Jair Bolsonaro, o repórter Fábio Serapião, do jornal Estado de S.Paulo, noticiou a existência de um relatório do Conselho de Atividades Financeiras (o Coaf, aquele mesmo) apontando uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta mantida por um até então desconhecido ex-assessor do então deputado estadual, e hoje senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente.

O assessor era Fabrício de Queiroz, ex-PM e homem de confiança da família Bolsonaro, com quem aparece em inúmeras fotos em ambiente descontraído, sem camisa, com churrasqueiras ao fundo.

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A movimentação ocorreu entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, e foi informada em um documento anexado pelo Ministério Público Federal nas apurações da operação Furna de Onça, que um mês antes havia detido dez deputados estaduais do Rio.

A notícia repercutiu tanto que obrigou o ex-assessor a se explicar em uma entrevista ao SBT, emissora alinhada ao governo prestes a tomar posse – e que assim seguiu nos primeiros meses de mandato.

Na entrevista, ele disse ser um homem de negócios e que a movimentação era resultado da compra e venda de veículos usados – nas palavras do próprio presidente, ele “fazia rolo”.

Desde então, conforme lembrou o colunista Athos Moura, do jornal O Globo, Queiroz submergiu.

Nunca mais ninguém soube dele, nunca mais ninguém o viu – como lembrou sua defesa, em mensagem enviada ao colunista, ele não é figura pública, tem direito de preservar sua imagem e dedicar seu tempo a cuidar da saúde.

Após a entrevista, Queiroz realizou uma cirurgia no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, para a retirada de um câncer de cólon.

Desde então, sobram perguntas sobre o paradeiro e as movimentações financeiras do ex-assessor.

Pouca gente entendeu, por exemplo, a razão dos cheques que Queiroz disse ter pagado à primeira-dama Michelle Bolsonaro como devolução de um suposto empréstimo de R$ 40 mil feito pelo presidente. Afinal, por que alguém com tanto dinheiro movimentado precisava desse empréstimo?

O Ministério Público do Rio também não entendeu, e começou a desconfiar que Flávio Bolsonaro era o destino de parte dos salários de seus ex-funcionários na Assembleia Legislativa, num suposto esquema conhecido como “rachadinha”.

Em fevereiro, a defesa de Queiroz encaminhou sua versão aos investigadores, no qual o ex-assessor admite que arrecadava parte do salário dos colegas, sem o conhecimento do chefe, Flávio, para pagar assessores externos informais. O objetivo, afirmou, era impulsionar a candidatura do deputado.

Em maio, a Justiça do Rio autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal do senador, do seu ex-motorista, e de diversos ex-funcionários ligados à dupla – entre eles uma filha de Queiroz, que estava empregada no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, em Brasília, enquanto trabalhava como personal trainner no Rio.

Passaram a ser investigados também familiares do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe do Escritório do Crime. A mãe e a filha do suspeito também trabalhavam no gabinete de Flávio.

Quem não entrou na mira das apurações foi o casal Bolsonaro, já que o caso corre na Justiça estadual. Como lembrou o repórter Rubens Valente, na Folha de S.Paulo, o foro privilegiado impede que as investigações avancem sobre o presidente, mesmo com o indício de que o dinheiro pode ter beneficiado, através dos cheques à primeira dama, o casal.

“Os responsáveis por esse lapso têm endereço: o Ministério Público Federal no Rio e a Procuradoria-Geral da República em Brasília. Os dois órgãos abriram mão do caso, que acabou enviado ao Ministério Público estadual, preso a limites jurídicos e políticos. Simplesmente não pode intimar Bolsonaro”, escreveu o jornalista.

Apesar da blindagem, em seis meses não teve assunto mais incômodo ao Planalto do que o caso Queiroz.

Sergio Moro, o implacável ministro da Justiça e da Segurança Pública, já declarou, quando questionado, que não cabia a ele dar explicação sobre o assunto (ele foi pivô de uma queda de braço pelo Coaf, o conselho que identificou a movimentação estranha sob o guarda-chuva do Ministério da Economia, do qual saiu e voltou).

Flávio, em entrevista ao Estado de S. Paulo, admitiu que as versões dadas até agora por seu ex-assessor soam estranhas e exigiu explicações. Seu maior erro, afirmou, foi confiar demais em Queiroz, de quem disse não saber do paradeiro.

O próprio presidente afirmou, à Veja, que “pode ter coisa” nas movimentações do amigo, mas relevou: “tem o superdimensionamento porque sou eu, porque é meu filho. Ninguém mais do que eu quer a solução desse caso o mais rápido possível”.

No último dia 26, o desembargador Antônio Amado, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, negou uma liminar apresentada pelo senador para suspender a quebras de seus sigilos bancário e fiscal. A investigação corre sob sigilo.

Jogado na estrada, Queiroz parece figurar em um script perfeito dos que querem mudar de assunto e fingir que nada aconteceu. Quanto menos aparecer, menos dúvidas serão levantadas ou trazidas de volta às discussões.

É cedo ainda para saber como o episódio vai se desdobrar e o quanto já arranha a imagem do governo fundado sobre o pilar do combate à corrupção.

Segundo pesquisa Ibope divulgada nesta semana, 32% dos brasileiros já consideram o governo ruim ou péssimo - o mesmo índice dos que o aprovam. Atualmente, porém, há mais gente que desconfia do que confia no presidente (51% contra 46%).

A desconfiança parece confirmar o ditado popular: diga-me com quem andas...