'E agora, Brasil?': 2023 será um ano ainda mais desafiador para a economia, dizem economistas

Com a inflação caindo, mas ainda elevada, juro alto e desaceleração econômica no Brasil e no mundo, o ano de 2023 tem tudo para ser ainda mais desafiador para a economia e a população brasileiras, apontaram os economistas que participaram da última edição do seminário “E agora, Brasil?”, na última quinta-feira.

Na avaliação de Paula Magalhães, economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, será inevitável uma recessão nos EUA provocada pela alta dos juros do Fed (que impacta o mundo todo), um cenário que ela também não descarta para o Brasil em 2023.

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A série é promovida pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e suas federações. O evento da última quinta-feira foi mediado por Alvaro Gribel, colunista do GLOBO, e Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor. O vídeo com a íntegra do painel está disponível para ser revisto nos canais dos jornais O GLOBO e Valor Econômico no Youtube e pode ser acessado aqui:

Com a alta dos juros por vários bancos centrais no mundo para conter a inflação, o crescimento econômico global será comprometido e afetará o Brasil. Por isso, Paula vê risco de contração da economia brasileira no ano que vem:

—Os números estão mostrando que vai ser um ano muito difícil para a população brasileira.

A renda do trabalhador, ela observou, está praticamente entre as mínimas históricas da série atual da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE: caiu 5,1% frente ao segundo trimestre de 2021, o que inibe o consumo.

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A banalização de propostas de emendas à Constituição (PECs) influencia os indicadores, na visão dele, até porque deteriora a gestão das contas públicas:

— O risco-país e os juros reais ganharam impulso muito forte no ano passado, com a PEC dos Precatórios (que adiou dívidas da União determinadas pela Justiça) para abrir espaço no teto de gastos para políticas do dia a dia. Isso está prejudicando muito o Brasil.

Paula Magalhães disse não ser possível calcular o efeito da crise política nos preços de ativos, mas frisa que “o que vem do institucional, de alguma maneira, está precificado”.

— Houve certa ruptura na credibilidade das instituições democráticas, como as eleições. Se não tivesse uma tensão política, os preços poderiam estar melhores — diz a economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, que criticou a PEC que limitou o ICMS sobre combustíveis em busca de um efeito de curto prazo, às vésperas da eleição, sem um objetivo consistente de elevar a produtividade do país.

No dia 18 de julho, o presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio do Planalto para atacar o sistema eleitoral brasileiro. A atitude provocou reação de países como os EUA e uma mobilização nacional na defesa das instituições democráticas, que reuniu de banqueiros a sindicalistas, de empresários a acadêmicos e cidadãos comuns, com mais de 300 mil assinaturas.

O documento intitulado “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito” vai ser lido no dia 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, em São Paulo.

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A inflação segue muito elevada —e deve continuar acima de 5% em 2023 —, corroendo o poder de compra. São fatores negativos que se somam aos juros restritivos que vão começar a ter mais efeito sobre a economia, principalmente a partir do fim deste ano, diz ela.

—Vamos entrar em 2023 com a renda comprimida. Embora o mercado de trabalho esteja melhorando, vai ter uma desaceleração pelo juro contracionista, com a inflação elevada. O cenário para o ano que vem é muito difícil — afirmou Paula.

‘Crescimento medíocre’

De forma mais qualitativa, José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), também disse ver “muita dificuldade” para o crescimento econômico futuro do Brasil.

—São 40 anos nos quais nosso crescimento é medíocre. O ritmo de crescimento da renda per capita é inferior a 1% ao ano, em média, e a produtividade é cerca de metade disso. Enquanto não nos voltarmos para políticas que, de fato, promovam ganhos de produtividade, não tem expectativa de crescimento robusto —afirmou Senna.

No curto prazo, para além de lidar com as turbulências globais, o Brasil precisa restabelecer a austeridade e a responsabilidade fiscal para abrir espaço para a queda da inflação e dos juros e ajudar a tornar o trabalho da política monetária pelo Banco Central ainda mais eficaz, apontou Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC que recentemente atuou como secretário de Fazenda do Estado de São Paulo e concorreu à Presidência da República em 2018 pelo MDB.

—Tudo isso precisa ser feito para que o Brasil volte a crescer, apesar do fenômeno global —disse Meirelles, em referência à perspectiva de desaceleração da economia mundial.

O ex-ministro também reforçou ser fundamental aumentar a produtividade da economia brasileira, o que, segundo ele, passa por temas como a educação no longo prazo, o treinamento de trabalhadores no curto e questões de infraestrutura, além de resolver a complexidade tributária do país com uma reforma bem-feita.

—O problema todo dessa situação que vivemos é que o curto prazo é tão grave que ficamos concentrados nele, o que é correto porque tem de resolver, mas nos desligamos dos fatores de crescimento e do fato de que nosso crescimento tem sido baixo, e a taxa de crescimento potencial do Brasil é baixa —disse Meirelles.

‘Batalha não está ganha’

Paula concordou que uma agenda positiva para 2023 seria trabalhar nas reformas administrativa e tributária, com efeitos na economia. Senna avaliou que a inflação ainda está muito resistente. Numa média dos últimos três meses, os preços livres sobem 15,1%, citou.

—Enquanto não houver uma alteração importante nesse ambiente institucional, muito difícil trazer essa inflação para baixo. Sem estabilidade institucional, essa batalha ainda não está ganha — disse.

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