'E agora, Brasil?': Bancos centrais vivem independência limitada por pressão social

Foi-se o tempo em que o presidente de um banco central de qualquer país poderia discorrer claramente sobre a necessidade de provocar recessão e desemprego para frear a inflação e garantir a estabilidade necessária para uma recuperação à frente sem se preocupar com a reação da sociedade.

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, tem evitado falar a palavra recessão, preferindo dizer que a desaceleração da economia americana seria suficiente para debelar a maior inflação em 40 anos no país. Foi assim quando ele comentou, na semana passada, a nova alta dos juros na maior economia do mundo, que tem impacto global.

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Para José Júlio Senna, há uma mudança de postura nos bancos centrais. Não cabe mais um líder do Fed como Paul Volcker (1979–1987), que elevou os juros para 20% ao ano, enxugando os recursos do mundo e provocando desemprego nos EUA e calotes nas dívidas de países em desenvolvimento.

O incômodo com o poder dos bancos centrais é muito maior hoje do que naquela época, afirmou Senna no “E agora, Brasil?” da última quinta-feira, que também teve a participação do ex-ministro Henrique Meirelles e da economista Paula Magalhães.

A série é promovida pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e suas federações. O evento da última quinta-feira foi mediado por Alvaro Gribel, colunista do GLOBO, e Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor.

O vídeo com a íntegra do painel está disponível para ser revisto nos canais dos jornais O GLOBO e Valor Econômico no Youtube e pode ser acessado aqui:

— Volcker foi ao Senado e ouviu que a política de juros altos tinha deixado milhões de trabalhadores desempregados. Respondeu: Ih, senador, o senhor não viu nada ainda, vai piorar. Mais milhões de trabalhadores americanos perderão seus empregos —lembrou Senna.

O economista acrescentou que Volcker foi o único presidente do Fed que teve passeata contra suas medidas, com tratores nas ruas de Washington, mas deu as bases de um ciclo de crescimento e estabilidade nos EUA nos anos seguintes:

—Acabou esse tempo. Seria politicamente muito incorreto.

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A atual cautela dos bancos centrais para não provocar recessão no combate à inflação — ou não deixar essa intenção clara nas declarações — levanta uma questão sobre a verdadeira independência dos BCs hoje, provocou o economista.

Em geral, líderes das autoridades monetárias não podem ser afastados pelos chefes de governo (no Brasil, a autonomia do BC foi aprovada em 2020), já que a missão de controlar a inflação pode exigir medidas impopulares, mas o contexto político atual não os isola de influências externas na avaliação de Senna:

— Depois da crise financeira global de 2007, 2008, com crescimento baixo e altos estímulos, criou-se uma atitude defensiva em relação aos BCs. Temos que fazer (aumentar juros), mas tem que ter cuidado para não virar recessão.

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Essa cautela aparece no movimento de alta da taxa de juros nos EUA, que passou de algo próximo de zero para uma faixa de 2,25% e 2,50% com uma inflação de mais de 8% ao ano. Para Senna, ao contrário da comunicação de Powell, os EUA estão ainda longe de uma taxa de equilíbrio.

— Estamos entrando num período de aprender lições diferentes, com BC independente mesmo que tenha que tomar medidas impopulares de curto prazo. O Fed tem mandato de longo prazo, não para reagir a curto prazo e sob pressão popular. Calma, devagar, um BC tem modelos, previsões para maximizar a geração de emprego no longo prazo — alerta.

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