E agora, Brasil?: 'Boom' do comércio on-line muda perfil do emprego em setores como o varejo

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO - A pandemia do novo coronavírus forçou um maior ritmo na digitalização das empresas e turbinou o crescimento do comércio eletrônico no país, acelerando uma tendência de alta que já vinha em marcha e criando novas oportunidades de trabalho.

As vendas por meios digitais saltaram 41% no ano passado, atingindo a marca de R$ 87,4 bilhões, de acordo com dados da Ebit Nielsen.

De janeiro a março deste ano, o ritmo de alta se manteve. O faturamento do segmento aumentou 38,2% no período em comparação com o primeiro trimestre de 2020.

O avanço das compras on-line e o investimento em tecnologia, no entanto, não significaram a eliminação de postos de trabalho, e sim uma mudança no perfil das vagas,hoje mais voltadas a logística e tecnologia da informação.

Logística e TI em alta

O caso do Magazine Luiza é icônico. A marca, que tem 1.300 lojas espalhadas pelo país, aumentou a fatia de sua receita proveniente de canais digitais dos 45% em 2019 para mais de 65% hoje.

— Neste ano, continuamos crescendo no digital, mas isso não quer dizer que o mercado físico não vai acabar. No primeiro trimestre deste ano, mesmo com 25% das lojas fechadas devido à pandemia, ainda crescemos 4% em lojas físicas — disse Fabrício Garcia, vice-presidente de operações do Magalu, durante o seminário E Agora, Brasil?

O evento é uma realização dos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio do Sistema Comércio, através da CNC, do Sesc, do Senac e de suas federações.

Segundo Garcia, o crescimento da empresa levou à criação de 10 mil postos de trabalho. E o Magalu ainda tem planos de abrir 140 lojas físicas em 2021, ano em que inaugurou sua rede no Rio de Janeiro. Ele afirma que a presença física reforça a operação digital:

— Quando tenho loja, ganho participação de mercado (no varejo) físico, e possibilito aumento da malha logística para entregas mais rápidas e mais baratas.

Além disso, a digitalização também é usada para turbinar a presença de lojas físicas: 15% das vendas em lojas da rede são feitas via WhatsApp, por exemplo.

— Temos 103 bases logísticas espalhadas pelo Brasil. Há dois anos, eram menos de 30. Para abrir essas bases, tenho de gerar emprego. A venda on-line gera empregos em vez de tirar. Obviamente, você deixa de gerar um emprego de vendedor, mas passa a gerar um de operador logístico — afirmou Garcia.

Onda de aquisições

Além do investimento em logística, há ainda o aporte em tecnologia. O Magazine Luiza tem realizado, por exemplo, aquisições de start-ups para maximizar sua operação digital. Um dos objetivos é trazer mão de obra qualificada que a empresa tem usado na melhoria de seus processos e plataformas digitais.

Esse movimento de consolidação também tem sido marcante na pandemia. O fechamento da economia levou muitas pequenas empresas à falência, ao passo que companhias mais bem estruturadas lideraram aquisições, ganhando escala para enfrentar a crise.

Por um lado, esse fenômeno eleva a concentração do mercado. Por outro, há um aumento na formalização de empregos, concentrados em companhias maiores, além de um aumento na arrecadação, na avaliação da economista Zeina Latif, colunista do GLOBO.

— A cada empresa menor que fecha ou tem atividades reduzidas, desloca-se parte do mercado para as empresas mais bem estruturadas, com impactos na geração de empregos com carteira assinada e na arrecadação. Isso traz alguns ganhos de produtividade e não ocorre só no Brasil, mas no mundo inteiro — salientou Zeina.

Outro caso de empresa que cresceu em meio à pandemia, a BRF aumentou sua receita em 2020 em 18%, para R$ 39,47 bilhões, impulsionada pelos preços das carnes e pela mudança no comportamento do brasileiro na pandemia.

A empresa, que é a maior exportadora de carne de aves no mundo, teve lucro líquido de R$ 1,4 bilhão em 2020, quase quatro vezes o valor registrado em 2019.

— Houve uma migração da refeição feita fora de casa para a feita dentro de casa. E não faltou alimento para ninguém. Asseguramos os compromissos de exportação e com o mercado interno — afirmou Lorival Luz, CEO global da empresa.

Consumo de proteínas

Segundo ele, a BRF criou cerca de 10 mil empregos no ano passado em função da substituição da mão de obra que foi afastada temporariamente em meio à pandemia. Já no primeiro semestre deste ano, a geração líquida de vagas foi de 2.500, devido ao aumento de produção para os mercados interno e externo.

O executivo contou que houve um aumento no consumo de proteína de frango e suína no Brasil, além de ovo. Essas são mais baratas que a carne bovina e têm sido cada vez mais escolhidas pelo brasileiro em meio à recente alta inflacionária.

De acordo com ele, o consumo per capita de frango estava na casa de 42 quilos em 2018 e chegou a 45 quilos em 2020. Neste ano, deve chegar a 47 ou 48 quilos por habitante.

Já o salto no consumo de suínos foi de 15 quilos per capita em 2018 para algo em torno de 17 quilos neste ano. O de ovos subiu de 212 unidades há dois anos para 241 em 2020.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos