'E agora, Brasil?': expansão de gastos públicos agrava efeitos da inflação global no Brasil

O mundo sofre com a inflação crescente desde a pandemia, que paralisou atividades e desorganizou cadeias de fornecimento globais, provocando choques de oferta e obrigando os governos de vários países a injetarem recursos como nunca antes em suas economias para vencer a parada súbita de 2020.

A situação foi agravada com a guerra na Ucrânia, que acelerou a disparada nos preços do petróleo. O Brasil não escapou dos efeitos desse cenário, mas, com o governo aumentando gastos, a pressão sobre os preços se intensifica.

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Essa foi a avaliação dos participantes, na última quinta-feira, da terceira edição da série de debates “E agora, Brasil?”, promovida pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico: Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC), José Júlio Senna, ex-diretor do BC e atual chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, e Paula Magalhães, economista-chefe da A.C. Pastore & Associados.

O evento teve patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e suas federações e foi mediado por Alvaro Gribel, colunista do GLOBO, e Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor.

O vídeo com a íntegra do painel está disponível para ser revisto nos canais dos jornais O GLOBO e Valor Econômico no Youtube e pode ser acessado aqui:

— Essa situação afeta o Brasil, que tem suas causas próprias, problemas e questões, como a fiscal, com a perda de credibilidade do teto de gastos (regra que impede o crescimento das despesas públicas acima da inflação) — afirmou Meirelles no início do debate.

Um sinal claro dessas causas adicionais é o comportamento do real frente ao dólar, segundo o ex-ministro. Num momento de alta de commodities como o atual, natural para um país exportador de matérias-primas como o Brasil seria a queda do dólar. Houve o contrário, com o câmbio alimentando a inflação.

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— O aumento do preço em dólar se refletiu no país. Com incerteza geral, houve contaminação das expectativas de inflação. Foram causas adicionais além da questão global — explicou Meirelles.

Senna foi mais longe ao alertar que deixar o controle da inflação apenas nos ombros do Banco Central, que já subiu os juros para combater a alta de preços de 2% para 13,25%, não vai funcionar para trazer a inflação — atualmente acima de 10% ao ano — para perto de 5%, o teto da meta para este ano: 3,5% com tolerância de 1,5 ponto percentual.

— Estamos vivendo a inflação da pandemia. Mas aqui não é só um fenômeno internacional. Na sua essência sim, mas muito agravado, mas muito mesmo, pela questão doméstica, de conflitos na política. O controle da inflação, numa economia como a brasileira, não é tarefa só do BC — definiu Senna.

Juros em alta

Para Paula Magalhães, houve um erro de avaliação dos bancos centrais ao acharem que a inflação era transitória, com Estados Unidos e Europa demorando um pouco a apertar a política monetária. No Brasil, os juros começaram a subir cedo, mas há uma “descrença grande de termos uma inflação baixa no longo prazo”, diagnosticou:

— O BC começou cedo a subir juros, enquanto o governo pisou no acelerador, colocando recursos na economia. Enquanto o BC está fazendo um trabalho e o governo faz um trabalho contrário vai ficar difícil controlar a inflação.

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Com mudanças na Constituição aprovadas no Congresso, o governo de Jair Bolsonaro (PL) vai gastar R$ 41,2 bilhões em auxílios para os mais pobres, taxistas e caminhoneiros, a dois meses da eleição. As despesas não estão incluídas no teto de gastos, a âncora fiscal brasileira criada em 2016, no governo de Michel Temer (MDB), quando Meirelles era ministro da Fazenda.

Para ele, o caminho para conter os preços no Brasil passa por austeridade fiscal. Na sua opinião, cortar os auxílios com o desemprego atingindo mais de dez milhões de trabalhadores não será possível de imediato. O ideal, para ele, é a abertura de espaço no Orçamento sob o teto de gastos, com medidas como a reforma administrativa, reduzindo o custo da máquina.

Meirelles citou sua experiência recente à frente da Secretaria de Fazenda de São Paulo, na gestão de João Doria (PSDB):

— Fizemos uma reforma administrativa, aprovada pela Assembleia, com corte de benefícios indevidos a diversas classes de funcionários, corte de benefícios para as empresas, fechamos estatais que já tinham perdido utilidade há muito tempo. O estado em 2022 está com R$ 53 bilhões em caixa. Produto de tudo isso. Existe espaço no governo, mas falta vontade política.

Paula avaliou que a atual dinâmica fiscal expansionista do governo vai manter o juro elevado por mais tempo. Dinheiro no bolso das pessoas tem efeito mais rápido no aquecimento da economia (e da inflação) que a política monetária na desaceleração, o que dificulta a ação do BC, apontou:

— Mexe em outro canal, o câmbio, que foi de R$ 5,10 a R$ 5,50, piorando a inflação, mantendo taxas de juros longas elevadas. Na minha visão, o BC não conseguirá parar em 13,75% (projeção do mercado para o fim do ciclo de alta até o fim do ano), enquanto a questão fiscal não se soluciona.

Os juros reais (descontada a inflação) estão entre 6,30% e 6,60%, segundo Senna, que não vê taxas caindo adiante. A inflação implícita (a diferença entre juros nominais e reais) está em 7,3% nos próximos cinco anos, apontou:

— O mercado espera inflação de 7,3%. As expectativas não são boas, e a minha também não é.

Alívio temporário

Medidas recentes adotadas pelo governo e pelo Congresso para conter os preços dos combustíveis, uma das principais pressões inflacionárias, não foram adequadas na visão de Senna, que não acha razoável tirar recursos dos estados com teto de 17% para o ICMS por um alívio temporário:

— Numa canetada somem R$ 100 bilhões da educação, saúde, segurança, não tem cabimento. É incompreensível.

A credibilidade da política fiscal foi arranhada com a facilidade com que a regra do teto foi descumprida no momento em que o governo quis gastar mais, afirmou Paula:

— Isso é muito ruim para manter uma trajetória fiscal crível de sustentabilidade de longo prazo, mantendo juros longos e câmbio pressionados.

José Roberto Tadros, presidente da CNC, observa que o setor de comércio e serviços “é muito impactado” pela inflação e chama a atenção para a necessidade das reformas tributária e administrativa “para promover um ambiente que estimule os investimentos”:

— As medidas implementadas pelo governo, com o aval do Congresso Nacional, devem ser conduzidas com muita responsabilidade para que a economia não pague um alto preço no futuro.

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