'E agora, Brasil?': instabilidade política cobra um preço alto e afeta inflação

Ataques às urnas eletrônicas e ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) às vésperas da eleição criam uma instabilidade política que afeta câmbio, percepção de risco do país e inflação, avaliaram Henrique Meirelles, José Júlio Senna e Paula Magalhães durante o debate on-line do “E agora, Brasil?”.

A ação do Congresso aprovando projetos com tramitação acelerada que burlam leis fiscais e eleitorais e, muitas vezes, alteram a Constituição a toque de caixa também cobram um preço do ambiente econômico, concordaram.

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A série é promovida pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e suas federações. O evento da última quinta-feira foi mediado por Alvaro Gribel, colunista do GLOBO, e Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor. O vídeo com a íntegra do painel está disponível para ser revisto nos canais dos jornais O GLOBO e Valor Econômico no Youtube e pode ser acessado aqui:

— As discussões públicas recentes sobre o processo eleitoral contribuem para um risco mais alto, com mais incerteza, câmbio pressionado. Além da questão fiscal, o ambiente institucional e a questão eleitoral estão no bolo — afirmou Senna, descrevendo o ambiente em que só a política monetária do BC enfrenta a inflação.

O economista do Ibre/FGV avalia que, na ausência de reformas, um dia a dia institucional mais estável já ajudaria o país a enfrentar a inflação em um contexto global delicado. Ele critica a rapidez com que a Constituição tem sido mudada, já que a Carta serve para dar estabilidade ao país “e não para cuidar do dia a dia das políticas públicas”.

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A banalização de propostas de emendas à Constituição (PECs) influencia os indicadores, na visão dele, até porque deteriora a gestão das contas públicas:

— O risco-país e os juros reais ganharam impulso muito forte no ano passado, com a PEC dos Precatórios (que adiou dívidas da União determinadas pela Justiça) para abrir espaço no teto de gastos para políticas do dia a dia. Isso está prejudicando muito o Brasil.

Paula Magalhães disse não ser possível calcular o efeito da crise política nos preços de ativos, mas frisa que “o que vem do institucional, de alguma maneira, está precificado”.

— Houve certa ruptura na credibilidade das instituições democráticas, como as eleições. Se não tivesse uma tensão política, os preços poderiam estar melhores — diz a economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, que criticou a PEC que limitou o ICMS sobre combustíveis em busca de um efeito de curto prazo, às vésperas da eleição, sem um objetivo consistente de elevar a produtividade do país.

No dia 18 de julho, o presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio do Planalto para atacar o sistema eleitoral brasileiro. A atitude provocou reação de países como os EUA e uma mobilização nacional na defesa das instituições democráticas, que reuniu de banqueiros a sindicalistas, de empresários a acadêmicos e cidadãos comuns, com mais de 300 mil assinaturas.

O documento intitulado “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito” vai ser lido no dia 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, em São Paulo.

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Para Meirelles, a estabilidade institucional é “importantíssima” para que o país cresça. Senna concordou, observando que a tensão política capaz de gerar esse tipo de mobilização social afeta um componente básico para o país retomar o desenvolvimento econômico: a confiança.

O economista concordou com Paula que é difícil medir os efeitos das perturbações institucionais nos dados macroeconômicos, mas “estão lá”, reforçou.

Para o ex-diretor do BC, não há dúvida de que “deixa uma marca importante, prejudicando o curto e o longo prazo”. Ele alertou que o trabalho de reconstrução não será simples:

— Do jeito que estamos caminhando, estou achando difícil recuperar a confiança. Vai ser preciso muita disciplina, muita firmeza na direção certa, e vai levar tempo para terminar o trabalho.

'Brasil tem jeito'

O ex-ministro da Fazenda observou que, mesmo com os percalços atuais, o “Brasil tem jeito”, e pode reagir rápido adotando a estratégia correta com muita discussão com a sociedade. Ele pregou diálogo entre técnicos e lideranças políticas.

—Temos boas ideias, especialistas. De fato, temos que conseguir mais atenção dos líderes e dos políticos, tanto do Executivo como do Legislativo. Temos que dialogar. Não na base da cooptação, da troca de favores, que têm efeito negativo, mas com propostas discutidas com a sociedade, com firmeza, transparência e serenidade — afirmou Meirelles.

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