'E agora, Brasil?': Juros terão que subir ainda mais nos EUA para combater inflação

A combinação de choques de oferta (como escassez de produtos e alta do preço de combustíveis) com estímulos ao consumo na esteira da pandemia ainda vai exigir que bancos centrais pelo mundo, incluindo o do Brasil, trilhem um longo caminho no combate à inflação.

Comunicações conflitantes como a do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA e de seu presidente, Jerome Powell, na semana passada, não ajudam, concluíram os economistas que participaram da última edição do seminário “E agora, Brasil.

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A série é promovida pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e suas federações. O evento da última quinta-feira foi mediado por Alvaro Gribel, colunista do GLOBO, e Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor. O vídeo com a íntegra do painel está disponível para ser revisto nos canais dos jornais O GLOBO e Valor Econômico no Youtube e pode ser acessado aqui:

O choque da Covid-19 desorganizou cadeias de produção e suprimentos de uma forma inédita, apontou o ex-ministro Henrique Meirelles. Em outra frente, descreveu, houve forte injeção de recursos nas economias com benefícios sociais para amenizar os efeitos da pandemia, notadamente nos EUA, com evidências de dose acima da necessária.

A isso se somou, segundo ele, uma certa “ansiedade” de compra por parte dos consumidores, conforme as atividades foram retomando.

Isso não significa, necessariamente, que o mundo tenha passado por uma mudança estrutural do estágio anterior de inflação e juros baixos, sobretudo nos países desenvolvidos, apontou José Júlio Senna:

— Não estou seguro de que tenha havido uma transformação extraordinária nos últimos dois anos. O que houve foi a própria pandemia, agravada, agora, pelos efeitos da guerra na Ucrânia sobre os preços de alimentos e energia.

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A inflação não é um fenômeno só americano ou brasileiro. Na Europa, a zona do euro enfrenta a maior inflação desde 1999, de quase 9%. Dos 14 países do bloco, dez estão com inflação acima de 10%. No mês passado, o Banco Central Europeu fez a primeira elevação de juros em uma década.

O Reino Unido também enfrenta taxas recordes enquanto países emergentes flertam com a hiperinflação. Na Turquia, o índice atingiu 78,6% ao ano. Na Argentina, 64%.

E demorou para ficar claro para os bancos centrais que o problema inflacionário não era tão transitório assim, observou Paula Magalhães. A economista citou indicador do Fed de Nova York que mostra que os choques nas cadeias globais ainda não se dissiparam, já que os fretes continuam elevados.

— Nos EUA, possivelmente, o Fed demorou um pouco a agir — concordou Meirelles.

Longe do campo neutro

O Fed elevou a taxa de juros em 0,75 ponto percentual na semana passada, para o intervalo de 2,25% a 2,50%, em uma tentativa de combater a inflação mais alta no país em quatro décadas.

O comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) reafirmou seu compromisso com a meta anual de inflação de 2% e disse que a taxa de desemprego permaneceu baixa, reforçando o sentimento de que novas altas serão necessárias. Também avaliou que indicadores recentes de gastos e produção se enfraqueceram.

Em entrevista após a decisão, no entanto, Powell disse que uma redução do ritmo de altas provavelmente será necessária “em algum momento”, sem excluir a possibilidade de mais um incremento de 0,75 ponto em setembro, a depender do cenário.

Reiterou que a meta é levar o juro para o terreno “levemente restritivo” e indicou que a taxa já poderia estar no território neutro.

— É um pouco conflitante estar com esse discurso de que subiu o juro, quer chegar na meta, mas estar com medo de causar uma recessão — comentou Paula, para quem esse tipo de comunicação acaba sendo contraproducente. — Não gera um aperto de condições financeiras como deveria, enquanto alivia expectativa de juro para o futuro.

Para que uma taxa de 2,5% de juro nominal (considerando a inflação) seja neutra nos EUA, é fundamental que a expectativa de inflação esteja na meta de 2%, avaliou Senna. Para ele, o juro nos EUA não está no campo neutro ainda.

— O problema é que, hoje em dia, não estamos ainda com as expectativas na meta de longo prazo — afirmou. — O que o Fed está dizendo que está fazendo não representa o juro neutro ainda. O número previsto, 3,25%, é mais ou menos só a inflação esperada, não está no território neutro. Chamar isso de “neutro” não acho nem um pouco correto.

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Para que a inflação ceda nos EUA, o mercado de trabalho no país precisa ser desaquecido, pontuou Senna. Um sinal de desequilíbrio apontado pelos participantes do evento é o número maior de empregos do que de candidatos no país, o que vem elevando os salários numa dinâmica inflacionária para além da alta dos combustíveis.

Ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA tenha caído no segundo trimestre, de acordo com dados divulgados na semana passada, houve alta no consumo e nas importações, observou Paula:

— É preciso ver o que aconteceu com os investimentos para terem caído tanto, mas não muda o fato de que o mercado de trabalho ainda está muito aquecido, são quase duas vagas abertas por pessoa procurando emprego.

Recessão inevitável

Apesar de o PIB ter saído mais fraco que o esperado e de o Fed ter mostrado preocupação com a atividade econômica, a economista-chefe da A.C. Pastore & Associados acredita que o banco central americano terá que provocar retração mais forte na maior economia do mundo para deter a inflação, com repercussões em outros países, como o Brasil.

Para Senna, os juros nos EUA deveriam subir para 4% ou mais:

—Não vejo hoje Powell em condições de chegar e dizer: “olha, estamos planejando uma recessão sim”. Seguramente ele pensa assim, mas ele não pode dizer isso, está amarrado, seria um suicídio político. Isso limita muito a comunicação e atrapalha a formação de expectativas.

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