É falso que gráfico de apuração dos votos indique fraude com algoritmos

Voluntários realizam um teste de teclado com uma urna eletrônica em São Paulo, em 29 de outubro de 2022. Nas redes, usuários, sem provas, sugerem fraude nas urnas (Foto: VIEWpress / Daniel Munoz)
Voluntários realizam um teste de teclado com uma urna eletrônica em São Paulo, em 29 de outubro de 2022. Nas redes, usuários, sem provas, sugerem fraude nas urnas (Foto: VIEWpress / Daniel Munoz)

Nas redes sociais, usuários compartilham imagens de um gráfico da apuração de votos deste domingo (30) afirmando que a "linearidade" das linhas com os votos em Jair Bolsonaro (PL) e em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicaria uma fraude com a ação de algoritmos.

Especialistas em computação e estatística consultados pelo Yahoo! Notícias explicaram porque o gráfico é normal e não aponta qualquer indício de fraude nas eleições. Confira.

Captura de tela de uma publicação do comentarista da Jovem Pan, Rodrigo Constantino, sugerindo que o gráfico da apuração dos votos no Brasil indicaria fraude com a ação de algoritmos (Foto: Twitter / Reprodução)
Captura de tela de uma publicação do comentarista da Jovem Pan, Rodrigo Constantino, sugerindo que o gráfico da apuração dos votos no Brasil indicaria fraude com a ação de algoritmos (Foto: Twitter / Reprodução)

Comparar os gráficos faz sentido?

Na publicação, que já soma quase 40 mil interações no Twitter, foram compartilhados dois gráficos. Um deles supostamente mostraria a evolução da apuração dos Estados Unidos, nas eleições de 2016, quando Donald Trump (Republicanos) e Hillary Clinton (Democratas) se enfrentaram. Já à direita, é mostrado o gráfico de evolução da apuração das eleições presidenciais do Brasil de 2022:

O gráfico brasileiro foi retirado da capa do Jornal O Globo desta segunda-feira (31):

Captura de tela do gráfico de evolução da apuração publicado na capa do Jornal O Globo desta segunda-feira (31), com base em informações do TSE (Foto: Instagram / Reprodução)
Captura de tela do gráfico de evolução da apuração publicado na capa do Jornal O Globo desta segunda-feira (31), com base em informações do TSE (Foto: Instagram / Reprodução)

O quadro dos Estados Unidos, na verdade, não mostra a evolução da apuração no país e sim as intenções de votos nos candidatos daquele país. Por isso, não há sentido em contrastar um gráfico de pesquisas eleitorais com o da evolução apuração.

Não foi identificada a origem da imagem referente aos EUA, mas um diagrama com curvas e números semelhantes foi encontrado no agregador de pesquisas do portal RCP (RealClearPolitics):

Captura de tela do agregador de pesquisas do site RealClearPolitics com as intenções de votos para Clinton e Trump em 2016. O gráfico apresenta curvas semelhantes ao da publicação (Foto: RealClearPolitics / Reprodução)
Captura de tela do agregador de pesquisas do site RealClearPolitics com as intenções de votos para Clinton e Trump em 2016. O gráfico apresenta curvas semelhantes ao da publicação (Foto: RealClearPolitics / Reprodução)

A curva brasileira indica uso de algoritmos?

"Este tipo de gráfico é comum nas nossas eleições", apontou o professor do Instituto de Informática da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e especialista em segurança cibernética, Jéferson Campos Nobre. Comportamento semelhante pode ser observado nos quadros de 2014 e de 2018.

Ao Yahoo! Notícias ele também constatou que não há lógica alguma na afirmação de que o gráfico referente ao Brasil indicaria uma suposta ação de algoritmos. Isso porque – embora não haja qualquer indício de fraude nas urnas do Brasil desde sua adoção em 1996 – "um algoritmo poderia simular qualquer comportamento, se fosse o caso", explicou ele.

No mesmo sentido, Neale El-Dash, indicou ao Yahoo! Notícias que as linhas podem ser vistas como naturais. El-Dash é doutor em Estatística pela USP (Universidade de São Paulo) e criador do site PollingData.

"Esse gráfico não diz nada para mim sobre fraude", sustentou. De acordo com ele, as curvas dependem da ordem de entrada dos resultados das urnas e das localidades às quais tais resultados correspondem. A partir de determinado ponto, os dados irão convergir com o resultado real, se estabilizando explicou El-Dash.

Em uma análise publicada em 2019 – referente às eleições de 1998 a 2018 –, El-Dash concluiu que "não parecem haver evidências estatísticas de fraude nas eleições do Brasil", com base nos parâmetros usados por ele na ocasião.