Com Chloé Zhao e Emerald Fennell, é a hora das mulheres no Oscar (finalmente)

Natália Bridi
·4 minuto de leitura
Com Chloé Zhao e  Emerald Fennell, é a hora das mulheres no Oscar. Foto: AP
Com Chloé Zhao e Emerald Fennell, é a hora das mulheres no Oscar. Foto: AP

É difícil defender a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas quando o assunto é diversidade, principalmente em relação às mulheres. Os poucos passos em frente dados ao longo dos seus 93 anos de história sempre vieram com muitos passos para trás. 

Em 1939, por exemplo, Hattie McDaniel foi a primeira pessoa negra a receber um Oscar (de atriz coadjuvante por E O Vento Levou…), mas foi colocada em uma sala separada da cerimônia por conta da política segregacionista do hotel em que a entrega dos prêmios era realizada. O único prêmio para uma atriz negra na categoria principal só viria em 2002, na 74ª edição, para Halle Berry por A Última Ceia. Uma marca que será quebrada apenas se a favorita Viola Davis levar mesmo a estatueta por A Voz Suprema do Blues na premiação de 2021.

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Nas outras categorias, as mulheres encontravam prestígio em profissões tidas como mais “femininas” pelo meio, como Figurino (tendo Edith Head como o grande destaque), Design de Produção e Montagem (com Anne Bauchens sendo a primeira indicada em 1934 por Cleópatra). 

Já em Direção de Fotografia, a primeira indicação para uma mulher veio apenas em 2017 para Rachel Morrison por Mudbound. Em outras áreas como a Produção, o primeiro reconhecimento veio em 1973 (Julia Phillips foi a primeira mulher a ser indicada e a vencer na categoria de Melhor Filme), mas até agora apenas 11 produtoras receberam uma estatueta. 

Em 2021, dos oito filmes indicados a melhor filme, quatro têm mulheres na produção: Mank (Ceán Chaffin), Minari (Christina Oh), Bela Vingança (Ashley Fox e Emerald Fennell) e Nomadland (Frances McDormand, Mollye Asher e Chloé Zhao), sendo esse último o grande favorito ao prêmio principal por já ter levado o prêmio do Sindicato dos Produtores de Hollywood.

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Como roteiristas, as mulheres vêm sendo indicadas desde 1929, mas poucas são de fato premiadas. Em roteiro adaptado foram 7 estatuetas (sendo a última em 2005 para Diana Ossana, que dividiu o prêmio com Larry McMurtry por Brokeback Mountain) e em roteiro original foram 12 estatuetas (sendo a última em 2007 para Diablo Cody por Juno). 

A conta pode mudar esse ano se Emerald Fennell levar o prêmio pelo roteiro original de Bela Vingança (ela já levou o prêmio do Sindicato dos Roteiristas de Hollywood). Já na categoria de roteiro adaptado a estatueta pode ir para Chloé Zhao (por Nomadland) ou para equipe (também premiada pelo Sindicato dos Roteiristas Hollywood) de Fita de Cinema Seguinte de Borat, que inclui Erica Rivinoja, Jena Friedman e Nina Pedrad.

Na direção, a conta fica ainda mais complicada. As mulheres aparecem nas categorias de documentário, com 21 estatuetas em longa-metragem e 31 em curtas, mas na ficção essa presença diminui consideravelmente. Em Filme Estrangeiro foram 27 indicações e três estatuetas - para Marleen Gorris por A Excêntrica Família de Antonia (1995), Caroline Link por Lugar Nenhum na África (2001) e Susanne Bier por Em um Mundo Melhor (2010). Em 2021 duas mulheres marcam presença na categoria: Kaouther Ben Hania por O Homem que Vendeu sua Pele e Jasmila Žbanić por Quo Vadis, Aida?.

A diferença entre o número de indicadas a melhor curta live action e melhor direção já é um bom indício da dificuldade para as mulheres manterem-se como diretoras na indústria. São 79 indicações em curta-metragem (com 19 vitórias), um formato que serve de porta de entrada na área, para 7 indicações a direção de longa-metragem e apenas 1 vitória. As desbravadoras foram Lina Wertmüller em 1976 por Pasqualino Sete Belezas, Jane Campion em 1993 por O Piano, Sofia Coppola em 2003 por Encontros de Desencontros, Kathryn Bigelow em 2009 por Guerra ao Terror (a única vencedora) e Greta Gerwig em 2017 por Lady Bird, com Emerald Fennell (Bela Vingança) e Chloé Zhao (Nomadland) chegando em 2021, um ano que não é possível avaliar se essa presença feminina dupla é evolução de pensamento da Academia ou apenas a feliz consequência de um ano de crise na indústria.

Zhao, que levou o prêmio do Sindicato dos Diretores, é a grande favorita na categoria, sendo também a primeira mulher não branca indicada e a primeira profissional a figurar ao mesmo tempo em direção, montagem, roteiro e produção. Além da possibilidade de receber a consagração hollywoodiana máxima, a cineasta também se prepara para lançar o seu primeiro filme de grande orçamento, tendo comandado Os Eternos para o Marvel Studios, o que representa a sua inserção completa em um mercado que costumava se fechar para as mulheres.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ainda tem muito chão para percorrer até se tornar realmente diversa e representativa, mas pelo menos agora parece que caminha apenas para frente, sem passos para trás. Com 70 mulheres indicadas em 2021 esse pode ser o Oscar das Mulheres e dos profissionais não brancos, o que depois de 93 anos não é motivo para comemorar, é apenas o que se espera. Como diz o meme, “Oscar, você não faz mais do que a sua obrigação”.