É possível não politizar a pandemia do coronavírus?

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BRASILIA, BRAZIL - APRIL 27: A banner with the message 'Brazilians are dying' is displayed near the 400 crosses placed in honor of the almost 400,000 victims of coronavirus (COVID-19) pandemic at brazilian Congress on April 27, 2021 in Brasilia, Brazil. According to the last official reports, released on  Monday 26, Brazil registers 391,936 victims of COVID-19. With an average of around 2,500 deceases per day, the country expects to reach 400,000 victims this week. Today, Brazilian Congress opened an inquiry into Bolsonaro's COVID handling. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Uma interveção colocou uma faixa em frente ao Congresso Nacional com os dizerem "brasileiros estão morrendo" (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Na última semana, o Senado deu início à CPI da Covid. Uma das casas legislativas que regem o Brasil começou a investigar a ação do governo federal durante a pandemia do coronavírus – que ainda não acabou.

Políticos contrário à instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito justificavam que o marco seria uma maneira de “politizar a pandemia” e que a CPI se tornaria palanque para políticos que se opõe ao presidente Jair Bolsonaro. Mas será que é possível não politizar a pandemia?

A pandemia, essencialmente, é um fenômeno global que começou em decorrência de uma nova doença, a covid-19. Sendo assim, a primeira impressão é que se trata de um fenômeno científico, ligado à biologia e à medicina.

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No entanto, a crise sanitária levou a outras crises, como uma crise econômica e social – essas, questões essencialmente políticas. É o que explica o sociólogo e cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando.

“A crise pandêmica, a crise sanitária e médica, gerou uma crise econômica pela necessidade de distanciamento, do fechamento do comércio, da paralisação da produção em diversas indústrias. Então, você tem uma crise sanitária que se conjuga a uma crise econômica e também, em vários países, houve uma crise política”, explica.

“Por que uma crise política? Porque, com o vírus se apresentando, muitos políticos abdicaram de assumir o processo de liderança e se negaram a compreender a seriedade da situação. A grande questão é que a política é o elemento organizador da sociedade.”

Prando lembra que, no Brasil, mais negros morreram de covid-19 que os brancos, por exemplo. Mais pessoas foram vítimas da pandemia em hospitais privados do que em hospitais particulares. “No Brasil, a pandemia explicitou, tornou agudos problemas que são historicamente conhecidos, como a desigualdade social, que se aprofunda durante a pandemia, em relação à educação, à geração de renda.”

Rodrigo Prando conclui que a resposta para a pandemia deve, sim, ser política. “Na minha perspectiva, seja aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, a resposta à pandemia tem que ser política, porque os políticos foram eleitos para fazer a gestão daquilo que é público. Portanto, as instituições do Estado no nível municipal, no nível estadual e no nível federal têm prerrogativas e devem assumir, dentro dessas situações, as ações de equacionamento e enfrentamento da pandemia.”

A nurse takes part in a demonstration to protest against Brazilian President Jair Bolsonaro and pay tribute to health workers who died from complications of the novel coronavirus COVID-19, in front of Planalto Palace in Brasilia, on May 1, 2021. - Brazil is the most populous population American population affected by the pandemic, with more than 403,781 deaths and 14,659. 011 infections so far. (Photo by Sergio LIMA / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Manifestante protesta contra o presidente da República, Jair Bolsonaro (Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images)

Covid-19 em pauta no mundo

Doutora em ciência política, Deysi Cioccari aponta para o fato de que a agenda política global está totalmente voltada para o coronavírus. “A pandemia é hoje o maior assunto em todas as agendas políticas do mundo. Então, é praticamente impossível o tema não entrar na pauta.”

Um exemplo claro sobre a relevância do coronavírus nas discussões políticas são as eleições nos Estados Unidos em 2020. Donald Trump adotou uma postura negacionista durante muito tempo, o que levou o país a assumir a liderança no número de casos e mortes durante um período.

Com a mudança de rumos políticos, Joe Biden apoiou a ampla vacinação e conseguiu mudar os rumos do país. A população norte-americana vê os números caírem de forma relevante e, aos poucos, conseguem retomar a vida.

Isso não quer dizer, no entanto, que a sociedade não siga dividida. “O problema não vem só dos detentores de poder. A pandemia deveria formar uma coesão social mas a própria população (e não falo somente no Brasil) provoca um alargamento dessa coesão, dando lugar a radicalismos e polarizações”, lembra Cioccari.

Negacionismo durante a pandemia

Deysi Cioccari lembra de uma fala de Michelle Bachelet, Alta Comissão para os Direitos Humanos na ONU, criticando a “politização da pandemia”, mas fazendo uma referência ao negacionismo.

A cientista política acredita que não há problema em usar politicamente as medidas efetivas dos governos no combate à covid. “Isso é política”, afirma. “Como o próprio governador (de São Paulo, João) Doria que eficazmente lutou pelas vacinas. É admissível e esperado que ele use como palanque. O problema é quando a disputa de narrativas retarda decisões que deveriam ser tomadas para salvar vidas. Tornar política a pandemia é inevitável num mundo onde o que é bom aparece o que aparece é bom. Minimizar a gravidade disso é o grande problema.”

Com a morte do ator e humorista Paulo Gustavo – e de outros 420 mil brasileiros –, muito opositores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) o culparam pelo momento vivido pelo país. A negação da ciência e a chamada “guerra de narrativas” é um ponto destacado por Cioccari e Prando.

“Qualquer liderança política hoje, no mês de maio de 2021, já tem conhecimento que, na ausência da vacina, não existe um tratamento comprovado para a doença, então, que as ações preventivas são o distanciamento, o uso de máscara e a higiene das mãos”, diz Rodrigo Prando. “A grande questão são os líderes que foram omissos, comportaram-se desprezando, menosprezando a gravidade da pandemia e, não raro, com posturas negacionistas, com condutas – seja no discurso ou nas ações – que foram de desprezo da ciência, baseadas em fake news, em teorias da conspiração”, aponta.

“Então, é óbvio que uma parcela da sociedade e da população vai fazer uma leitura que essa liderança foi, no mínimo, omissa ou que contribuiu para uma maior disseminação do vírus e, consequentemente, do número de doentes e também dos óbitos, como consequência.”

Perspectiva médica

MARICA, BRAZIL - APRIL 30: A health worker wearing personal protective equipment (PPE) holds the had of a patient at the Doctor Ernesto Che Guevara Public Hospital where patients infected with the novel coronavirus, COVID-19, are being treated  on April 30, 2021 in Maricá, Brazil. The hospital completes 1 year of activities tomorrow, date that celebrates the day of the worker. While Brazil surpasses 400,000 dead since the beginning of the pandemic, the small seaside town of Maricá seems to be implementing a successful strategy to contain the virus. With revenues from the oil industry, Maricá has invested in social programs, health care, education and a universal basic income which allowed its 162,000 inhabitants to stay afloat and fight the pandemic. Apart from the doses provided by the federal government of Bolsonaro, the socialist-ruled town of Maricá and surrounding counties joined forces to buy 500,000 shots of Sputnik V vaccine from Russia. Maricá, a dormitory city located at 60 km away from Rio de Janeiro, has also developed its own virtual currency called mumbucas and bought its own refrigerators to storage vaccines at required temperature. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
Infectologista Gerson Salvador avalia que cabe ao poder Executivo prover os recursos para que os médicos possam atender pacientes com covid-19 (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

Gerson Salvador é médico infectologista e segue a mesma linha que os cientistas políticos. “A pandemia vai modificar a vida das pessoas e das coletividades. Qualquer resposta a ela depende de mobilizar o poder constituído, são respostas que depende da política. Então, a pandemia em si vai trazer modificações políticas e as respostas a ela também passam pela política necessariamente”, opina.

Ele acredita que não seja questão de “politizar” a pandemia em si, mas entende que a doença tem implicação política necessariamente. “Na questão da pandemia no geral, acho que não tem como avalia-la nem intervir nela sem levar em consideração a política. A política faz parte.”

O médico lembra ainda que é responsabilidade do governo distribuir recursos para que os médicos consigam atender a população, como distribuir recursos, insumos, prover materiais e gerenciar os recursos humanos. “É também no poder pública que está concentrada a possibilidade de fazer vigilância, de avaliação de fluxo de pessoas. Tudo isso é competência do poder público.”

A resposta à pandemia é uma resposta política necessariamente, depende do poder constituído. É a ele que cabe distribuir os recursos públicos, em relação à insumos, a prover recursos humanos, a prover materiais.

“É também no poder pública que está concentrada a possibilidade de fazer vigilância, de avaliação de fluxo de pessoas. Tudo isso é competência do poder público”, afirma. Salvador ainda afirma que as decisões do poder público devem ser baseadas na ciência, no que já se sabe sobre a pandemia de covid-19.

Como médico, Gerson Salvador afirma que o papel do profissional da saúde é atuar no tratamento das pessoas – não no controle da pandemia. “O que nos cabe é atender as pessoas quando elas estão doentes. Mas o determinante de como a pandemia circula no país tem a ver com o quanto as pessoas têm condições de permanecer em distanciamento, com o quanto apoio econômico essas pessoas e as empresas conseguem responder, depende do quanto há de imunização, como as vacinas são distribuídas”, aponta.