É preciso depilar o corpo para melhorar a velocidade na natação?

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A picture taken with an underwater camera shows USA's Connor Jaeger competing in the Men's swimming 1500m Freestyle Final at the Rio 2016 Olympic Games at the Olympic Aquatics Stadium in Rio de Janeiro on August 13, 2016.   / AFP / François-Xavier MARIT        (Photo credit should read FRANCOIS-XAVIER MARIT/AFP via Getty Images)
O americano Connor Jaeger competindo na final dos 1500 m livres masculinos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, no Estádio Olímpico Aquático do Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 2016 (FRANCOIS-XAVIER MARIT / AFP via Getty Images)

Por Dra. Soledad Echegoyen, especialista em medicina esportiva

Atualmente, há cada vez mais homens que depilam ou raspam os pelos do corpo. Parece que a visão geral da beleza mudou com o passar dos anos. Possivelmente fazem isso porque se sentem mais confortáveis ou apenas porque os padrões estéticos mudaram. Alguns podem dizer que a depilação dá uma aparência mais jovem ou somente proporciona uma sensação de limpeza e conforto. No século XXI, essa atividade se tornou muito popular à medida que cada vez mais homens a praticam. 

No entanto, a depilação corporal é praticada no esporte há muitos anos. O primeiro homem a fazer isso foi o ciclista Giovanni Gerbi nas primeiras décadas de 1900. Para os nadadores isso não é novidade nem está na moda, já que desde os anos 50 os braços, as pernas, o torso e, às vezes, a cabeça são raspados. Em 1968, eles disseram que não havia evidências válidas para se depilarem e, assim, melhorar o desempenho; James Counsilman, importante técnico de natação dos Estados Unidos, chegou a dizer que o que aumentou foi a sensibilidade do nadador, sentindo a pressão da água, e que isso melhorou sua coordenação.

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O que acontece hoje?

Hoje, depilar o corpo é algo comum em todas as competições de natação. Claramente, nas fotos de nadadores olímpicos, você pode ver os corpos livres de pelos corporais nas áreas onde a água poderia ter atrito. Para competir, os nadadores raspam os braços, pernas, torso e, às vezes, a cabeça. Porém, essa atividade tem alguma justificativa científica? Facilita a natação? Isso melhora o desempenho e principalmente a velocidade tão necessária em uma disputa nos Jogos Olímpicos?

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 08:  Laszlo Cseh of Hungary competes in the Men's 200m Butterfly heat on Day 3 of the Rio 2016 Olympic Games at the Olympic Aquatics Stadium on August 8, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil.  (Photo by Adam Pretty/Getty Images)
Laszlo Cseh, da Hungria, compete nos 200 m borboleta nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016 no Estádio Olímpico Aquático em 8 de agosto de 2016 no Rio de Janeiro, Brasil. (Adam Pretty / Getty Images)

Em algumas publicações de domínio público, afirma-se que os nadadores se depilam porque têm um maior deslizamento do corpo na água, porque o consideram mais prático, pela estética ou porque é mais fácil de secar o corpo. Mas com tudo isso, o que é realmente comprovado cientificamente? Estamos falando de competições dos Jogos Olímpicos, onde o mais importante é quebrar recordes, nadar mais rápido, ser melhor que o adversário para ganhar mais medalhas e, para isso, a ciência tem ajudado a evoluir o esporte. A ciência busca, por meio de estudos científicos, as melhores técnicas, treinamentos e equipamentos que possibilitem um melhor desempenho.

Leis da física

Na natação, regem as leis da hidrodinâmica, pois o corpo desliza na água e tem que vencer a resistência dela. Por isso, vários fatores intervêm nesse processo: a forma do corpo em contato direto com a água, a área corporal, a densidade e a posição que o corpo assume ao deslizar. Como um todo, o corpo supera a resistência deslizando na água. A força de atrito laminar da água contra os segmentos está relacionada à sua viscosidade e ao seu atrito com a superfície corporal. Então, se pensarmos assim, poderíamos dizer que o cabelo no corpo causa mais atrito e, quando é removido, há mais deslizamento.

Há alguns estudos científicos realizados para comprovar isso. Sharp e Costill conduziram um estudo em 1988 porque naquela época não havia literatura científica publicada sobre se a depilação poderia melhorar o desempenho. Eles se perguntaram se essa prática era eficaz para reduzir a resistência do corpo ao deslizamento na água. Esse primeiro estudo foi realizado com 4 homens e 2 mulheres. O que se constatou é que a depilação reduziu o custo fisiológico do exercício, mas não conseguiu provar que diminuiu os tempos do nado. Concluiu-se que não havia certeza de que a depilação melhora os tempos, mas havia menor custo e que isso possivelmente se devia ao menor atrito, e também comentou-se sobre a possível intervenção de aumento da sensibilidade.

Em 1989, os mesmos autores publicaram outro estudo realizado com nove nadadores universitários. Com esse estudo, concluiu-se que a depilação possivelmente reduziu a resistência e teve um melhor custo fisiológico. Embora haja poucas evidências de que a depilação reduz a fricção, a redução na resistência causa uma redução na energia do golpe, quando comparada à pele com pelos. Woods (2004) em sua dissertação de mestrado menciona que os nadadores têm sensações subjetivas ao se depilar, sentem que sua massa corporal diminui, a resistência à água diminui, a flutuação aumenta e sentem que é mais fácil nadar. Já foi mencionado que a depilação é mais um placebo pela sensação de deslizar a pele na água. Com base no que já falamos, não podemos dizer que tudo foi estudado. Até o momento, ainda faltam evidências objetivas que mostrem que a depilação causa menos atrito e que isso leva a um melhor desempenho.

A velocidade dos corpos ao nadar depende da propulsão e da resistência da água, portanto um nadador pode melhorar aumentando a força de propulsão e reduzindo as forças de resistência. A ciência investigou mais sobre a técnica, uma vez que melhora tanto a propulsão quanto a resistência, além disso, foram feitos trajes de banho que reduzem o atrito. Para isso, analisa o alinhamento do corpo, a forma da braçada, a forma de posicionar os braços quando são impelidos para baixo da água, bem como os tecidos utilizados nos maiôs e a forma de os confeccionar.

Técnica e tecnologia, a verdadeira resposta

A maior parte das pesquisas em natação tem se concentrado na técnica de natação. Talvez você se lembre de Michael Phelps, com seu maravilhoso chute de golfinho ao entrar na água ou mais tarde ao girar no final da piscina. Ele fica de 12 a 13 metros sob a água antes de sair para a primeira braçada, esse tempo é o que lhe dá a vantagem. É também sobre onde colocar os braços ao entrar na água por impulso ou como dar uma braçada. Parece que o ganho de tempo tem sido mais para os ajustes técnicos, pois mudanças na técnica reduzem a força de resistência ao arrasto e melhoram a propulsão.

PICTURE TAKEN WITH AN UNDERWATER CAMERA
US swimmer Michael Phelps  competes in the men's 100m butterfly final during the swimming event at the London 2012 Olympic Games at the Olympic Park on August 3, 2012 in London. He won gold.  AFP PHOTO / FRANCOIS XAVIER MARIT        (Photo credit should read FRANCOIS XAVIER MARIT/AFP/GettyImages)
O nadador americano Michael Phelps compete no evento de natação borboleta de 100 metros nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012 em 3 de agosto de 2012, em Londres (FRANCOIS XAVIER MARIT / AFP / Getty Images)

Os pesquisadores também se concentraram na roupa de banho, se preocupam com o tecido, as costuras, a forma, os tamanhos, pois os trajes podem produzir menos resistência. Em 2008 foram fabricados wetsuits, que aumentaram a velocidade de natação e 43 recordes mundiais foram conquistados em uma única prova. Desde 2010, os trajes de corpo inteiro não são permitidos, por se tratar de um doping tecnológico.

Embora não haja evidências científicas suficientes sobre a depilação, ainda é recomendada para nadadores e eles a fazem. Ao final de uma competição dos Jogos Olímpicos, é preciso buscar todas as possibilidades que possam influenciar em um melhor resultado, pois a preparação para chegar a esse lugar é exaustiva e extensa. Os atletas não podem permitir que um milissegundo atrapalhe a vitória. Você não faria o mesmo?

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