Éder Jofre deixa o legado de um herói e de um Brasil dourado

Éder Jofre durante o Prêmio Brasil Olímpico de 2010 (Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images)
Éder Jofre durante o Prêmio Brasil Olímpico de 2010 (Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images)

No dia 2 de outubro, o Brasil teve a notícia do falecimento de Éder Jofre aos 86 anos, em decorrência de uma sepse urinária e uma insuficiência renal aguda. O país perdeu ali um dos seus maiores ídolos esportivos que alcançou respeito pelo globo como tricampeão mundial de boxe profissional, mas também um ser humano decente como pouco visto ainda mais nos dias atuais divisivos e permeados por tons cinzentos. E eu perdi meu amigo e meu ídolo.

O “Galo de Ouro” já vinha lutando contra a Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) e passava por tratamento com Dr. Renato Anghinah, um dos principais neurologistas do mundo. Em 2013, enfrentou uma crise de depressão após o falecimento da esposa Maria Aparecida, a “Dona Cidinha”. Mesmo em seus últimos anos mostrava o sorriso jovial de quando era um menino correndo pelas ruas do Parque Peruche e a garra com a qual marcou seu nome no quadrilátero.

Jofre deixou um cartel de 72 vitórias, sendo 50 por nocaute, quatro empates e apenas duas derrotas, ambas para o japonês Masahiko “Fighting” Harada. O pugilista se sagrou campeão dos galos em 1960 ao bater o mexicano Eloy Sanchez em Los Angeles, na Califórnia, e unificou o título ao bater o inglês Johnny Caldwell no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 1962.

Após a primeira aposentadoria em 1966 sagrou-se campeão dos pesos pena em 1973 aos 37 anos com uma vitória sobre o cubano naturalizado espanhol José Legrá em confronto em Brasília pelo título do Conselho Mundial de Boxe (CMB).

Após intensa pesquisas e esforços do genro Antônio Oliveira e da filha Andrea Jofre, junto com os dirigentes do Conselho Nacional de Boxe (CNB) Geyza Caryny e Mike Miranda Jr., acionaram o BoxRec (site que arquiva o histórico dos pugilistas pelo mundo) identificando que em 4 de abril de 1963 em Tóquio, Japão, ao vencer por nocaute no terceiro round o japonês Katsutoshi Aoki tornou-se assim campeão inaugural do Conselho Mundial de Boxe (CMB), tornando-se assim bicampeão mundial (AMB e CMB).

Em março do ano passado foi lançada a primeira biografia do Galo de Ouro em inglês, ‘Eder Jofre: Brazil’s First Boxing World Champion’ de autoria do britânico-americano Christopher J. Smith que na época falou com o Yahoo Esportes.

Consultado para este artigo sobre a posição de Jofre na história do pugilismo, Smith aponta: “Foi provavelmente o melhor lutador do mundo, independente de peso durante a primeira metade dos anos 1960s e aquela foi a Era de Ouro do boxe, logo isto lhe dá uma ideia de seu tamanho. Ele é corretamente apontado pela maioria de historiadores e experts como o maior peso galo de todos os tempos e teve um dos maiores retornos do boxe quando abandonou a aposentadoria e obteve o cartel de 25-0 para conquistar o cinturão dos pesos penas em 1973. E some a isto suas óbvias habilidades e você tem um dos maiores pugilistas de todos os tempos, independente de peso”.

Éder Jofre é a mais brilhante estrela da dinastia pugilística Jofre-Zumbano e treinado na maior parte de sua vida de atleta pelo também lendário pai, o argentino Aristides “Kid” Jofre, também representou o país nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956.

O Galo de Ouro foi apontado em 2012 pela americana Ring Magazine, o veículo de maior autoridade no mundo do boxe, como o melhor lutador dos anos 1960 independente de peso, superando nomes como Muhammad Ali, Joe Frazier e Emile Griffith, e a mesma publicação o ratificou em 2021 como o “Maior Peso Galo de Todos Os Tempos”.

Em entrevista ao Yahoo Brasil, o americano Lee Groves, cronista da Ring Magazine, revela que na avaliação votou em Jofre o colocando acima dos respeitados Carlos Zarate, Manuel Ortiz, Ruben Olivares e Veeraphol Sahaprom.

“Jofre era um magnífico lutador técnico competente em todas as áreas”, define Groves. “As vitórias de Jofre fora do Brasil se deram em território hostil e foram obtidas por nocaute. As únicas lutas que foram decididas pelos jurados foram suas duas derrotas para Harada no Japão e o empate com Ruben Cáceres no Uruguai”.

O jornalista da Ring Magazine avalia que a técnica de Jofre é o que primeiro lhe chamou a atenção, “Seu estilo era muito apurado em termos de postura, movimentação, reação defensiva e a maneira com a qual soltava os golpes. Creio que o principal fator para seu enorme poder nos punhos é a maestria ao combinar o momento correto e a força; seus socos eram diretos, compactos e precisos, além da alta capacidade de pensamento e inteligência para seguir a estratégia de combate”.

Groves concorda com Smith sobre Jofre ter tido um dos maiores retornos ao pugilismo. No boxe é comum lutadores deixarem a aposentadoria, porém em muitos casos enfrentam adversários de baixa qualidade ou servem de escada para talentos em ascensão buscando nomes fortes para o currículo, porém Jofre contrariou os “especialistas” da imprensa que pareciam torcer por sua queda e proporcionou mais um grande momento para o boxe mundial.

“Ele já seria um membro do Hall da Fama se tivesse permanecido afastado após a derrota para Harada, mas o que conseguiu com seu retorno o cristalizou como um dos maiores de todos os tempos. Após três anos afastado do esporte, e numa época que aos 30 anos pugilistas competindo na categoria dos leves ou mais baixas já eram considerados anciões, Jofre não apenas conquistou o cinturão dos pesos penas 13 anos após o seu título dos galos, mas o fez aos 37 anos ao destronar o talentoso Legrá, que era apelidado de “Pocket Cassius Clay” (Mini Cassius Clay)”.

O cronista ainda denota que Jofre permanece com o recorde de lutador mais velho na categoria a obter sucesso em defesa de cinturão ao nocautear o mexicano Vicente Saldivar, Jofre ainda tinha 37 anos e 218 dias.

“Com isto, Jofre provou que lutadores mais leves ainda podem ter grandes feitos mesmo em idade avançada contanto que tenham um grande talento combinado com uma fantástica ética de trabalho, ambos atributos que Jofre tinha em abundância”, recorda Groves.

Jofre também mostrou que é possível ser vegetariano e obter enorme sucesso. Até então, lutadores eram fotografados comendo enormes pedaços de carne, “mas Jofre foi para um caminho bem diferente ao eliminá-la de sua dieta”, exclama Groves.

Para o jornalista, a decisão o ajudou a se manter na categoria ainda mantendo a força e “esta escolha foi considerada revolucionária nos anos 1960, e mesmo hoje já que o vegetarianismo raro entre lutadores, Jofre provou que essa dieta pode ser adotada”.

No Brasil, o legado de Jofre transcende as quatro linhas, em sua época era um dos principais ídolos, e hoje é lembrado como um herói de sua nação.

A capacidade de se doar pelo próximo

“Sem dúvida, um papel de ídolo, de herói do país”, avalia o sociólogo Cláudio Coelho sobre a posição ocupada por Éder Jofre dentro da sociedade e história do Brasil.

O intelectual recorda que no período entre a 1950 até a década de 1970, o país obteve grandes conquistas esportivas, como as medalhas de ouro em duas olimpíadas de Adhemar Ferreira da Silva, os títulos nos torneios internacionais de tênis de Maria Esther Bueno, a conquista do bicampeonato mundial pela seleção brasileira de basquete masculino e do tricampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol. Os títulos de campeão mundial de boxe de Éder Jofre fazem parte deste contexto vivido pelo país, com grandes ídolos no esporte.

Foi também uma época de ascensão cultural brasileira para o mundo exterior por meio da bossa-nova, o reconhecimento ao samba, as premiações ao cinema-novo, mesmo enquanto o país atravessava severas crises políticas. Jofre foi um dos personagens centrais desta exposição esportiva-cultural e em muito por suas habilidades e carisma.

A ética pessoal é um dos pontos fortes de Jofre, Groves o define como um “esportista, humilde e magnânimo na vitória, enquanto poderia ser estridente e arrogante considerando como foi dominante, e mesmo que tenha reclamado de algumas das táticas empregadas por Masahiko ‘Fighting’ Harada, o único homem que o derrotou, ainda se tornaram amigos. Isto reforça o caráter de Jofre como pessoa”.

Como lutador no panorama mundial, Smith acredita que está entre os dez melhores da história independente de peso. Para Smith os melhores são o americano Sugar Ray Robinson, o panamenho Roberto Durán, Éder Jofre, e também os americanos Muhammad Ali e Sugar Ray Leonard. “O legado de Jofre fora do boxe também é muito importante, já que sempre manteve uma postura digna e íntegra que impactou muitas vidas.”

Após o boxe, Jofre teve longa carreira como vereador da capital paulista. Vindo de uma família com tios politizados preocupados com o bem-estar do próximo, sua passagem foi pautada por interesses em saúde, educação, meio-ambiente, moradia e condições sanitárias.

Por lei sua, as academias de ginásticas têm a obrigação de ter um professor graduado em suas salas e os frequentadores apresentarem exames médicos prévios, e com outra lei tornou obrigatória a presença de ambulância em estádios de futebol, ginásios e locais com grandes concentrações de pessoas.

Apesar de todo o caráter apresentado, após sua derrota para Harada, o ídolo foi menosprezado pela imprensa e mídia, e com o término de sua carreira foi gradualmente sendo esquecido pelos mesmos órgãos, com exceção do jornalista Henrique Matteucci, autor de sua primeira biografia ‘O Galo de Ouro’ (1962) e alguns outros.

Por outro lado, recebia homenagens no exterior, como a entrada para o Hall da Fama de Boxe em Canastota, Nova York, em 1992 e em 2021, quando entrou para o Hall da Fama de Boxe da Costa Oeste, em Los Angeles, em muito por ação de Smith. Jofre é o único brasileiro em tais espaços.

Nos últimos anos também recebeu obras artísticas reconhecendo sua trajetória como a já mencionada biografia de Smith, o filme ’10 Segundos Para Vencer’ (2018), estrelado por Daniel Oliveira e Osmar Prado, além da miniatura de luxo da Memorabília Esportiva.

Na terceira idade, Jofre enfrentou, ao lado da família, a Encefalopatia Traumática Crônica, doença que afeta pugilistas e outros atletas causando dificuldades mentais. Seguindo prescrições do Dr. Anghinah foi tratado por medicina canábica e acabou ajudando a diminuir um tanto o estigma contra esta ciência. Também participou em campanhas para doação de sangue.

Após seu falecimento, o cérebro de Jofre foi doado para pesquisas científicas, ou seja, até após seu último suspiro o altruísmo segue marcando seu nome assim como quando ajudava os colegas boxeadores na academia do pai Kid Jofre ou atendia populares que o paravam nas ruas.

“Ele representa uma figura de ídolo, de herói nacional, que está vinculada a um período em que esportistas tiveram grandes conquistas internacionais, e quando havia um grande otimismo com a possibilidade do país se igualar aos países mais desenvolvidos do mundo, devido ao crescimento econômico. Esse otimismo entrou em colapso, juntamente com o colapso do ‘milagre econômico’ brasileiro, na segunda metade da década de 1970. Penso que a figura de Éder Jofre simboliza aquilo que o Brasil poderia ter sido, mas nunca conseguimos ser”, avalia Coelho.

Éder Jofre é o Brasil que poderíamos ter sido, portanto quando olho para seu legado ou lembro das tardes que passei ao seu lado apenas admirando os céus de São Paulo em silêncio ou dos conselhos que me deu e os quais uso até hoje, percebo que perdemos o melhor entre nós, alguém que se aspirássemos como modelo, viveríamos em dias mais harmoniosos.