Edição brasileira de versos de Púchkin faz justiça ao mais importante poeta russo

Há quase um século, a literatura russa vem sendo bem acolhida entre os leitores brasileiros. Nomes como os de Liév Tolstói, Maiakóvski e Fiódor Dostoiévski já se vincularam definitivamente ao nosso imaginário, afinal poucos autores estrangeiros foram tão bem assimilados por nosso teatro e nossa música popular. Além disso, ninguém menos que Lima Barreto aconselhou a um jovem aspirante a escritor: leia sempre os russos.

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As nossas boas relações com as letras russas, porém, se limitam quase sempre à prosa. Com exceção de alguns poetas do século XX, como Maiakóvski, Akhmátova e Tsvetáieva, muito bem traduzidos por Boris Schnaiderman e pelos irmãos Augusto e Haroldo Campos, sabemos pouco sobre os nomes do século XIX, a era de ouro da poesia russa, dadas as dificuldades flagrantes que envolvem a tradução de poemas metrificados.

Pois eis que, em muito boa hora, a editora Kalinka, especializada em títulos russos, acaba de publicar a tradução de Felipe Franco Munhoz para “O Cavaleiro de Bronze e outros poemas”, de Aleksándr Púchkin (1799-1837), considerado o poeta nacional e fundador da língua russa moderna tal como a conhecemos hoje.

Raízes populares

Descendente de africanos etíopes e nascido em Moscou, Púchkin foi o primeiro dos gigantes literários russos, tanto no âmbito cronológico quanto artístico. A universalidade de seu gênio, que também transitou pelo romance e pela dramaturgia, junto à força de seu espírito russo, que buscava nas raízes populares os elementos épicos e líricos de seus versos, garantem a celebração unânime de sua obra ao longo dos séculos.

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Essa unanimidade se manifesta, inclusive, na síntese política simbolizada por seu legado, que sempre agradou a gregos e troianos: em vida, foi próximo, simultaneamente, dos dezembristas e também do seu algoz, o tsar Nicolau I, que se referia a ele como “o homem mais inteligente da Rússia”; durante o período soviético, foi tido como mestre por Lênin e Stálin, e, ao mesmo tempo, celebrado por poetas dissidentes como Anna Akhmátova e Joseph Bródski.

As relações literárias entre o Brasil e a Rússia também são atravessadas em sua gênese pelo legado do poeta. Afinal foi Púchkin, em 1825, quem pela primeira vez traduziu para o russo um poeta brasileiro, Tomás Antônio Gonzaga, e os versos da lira IX da segunda parte de “Marília de Dirceu”, muito provavelmente a partir de uma versão em prosa de língua francesa.

O poeta russo, que admirava o rebelde cossaco Emilian Pugatchóv, e que, certa feita, disse ao tsar Nicolau I que teria se juntado aos dezembristas se estivesse em São Petersburgo no dia da revolta, talvez tenha se identificado pessoalmente com o poeta inconfidente brasileiro.

‘Janela à Europa’

Essa mesma São Petersburgo, palco das revoltas dezembristas de 1825 e, décadas mais tarde, do cerco ao Palácio de Inverno durante a Revolução de 1917, foi cantada por Púchkin enquanto símbolo da modernidade no poema “O Cavaleiro de Bronze”, um dos mais importantes já escritos em língua russa.

Erguida às margens do Rio Nevá, São Petersburgo foi construída por Pedro, o Grande, para ser uma capital europeia (ou, como poema, “para abrir uma janela à Europa”), por isso seus arquitetos e engenheiros foram trazidos de Inglaterra, França, Holanda e Itália.

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Do mesmo modo, seus dois monumentos mais significativos — o Palácio de Inverno, que funcionou como a primeira residência imperial da nova capital, e o Cavaleiro de Bronze, uma enorme estátua equestre de Pedro, o Grande, que dá título ao poema — foram projetados por artistas europeus.

A capital, objeto de amor do eu-lírico narrador (“Que Pedro fez — você, que eu amo”), aparece nos versos como uma mistura de furor e garbo. As noites brancas e o Nevá contornado por enormes blocos de mármore imprimem uma imponente beleza ao caos de elementos da natureza que despertam simultaneamente, como numa sinfonia de som e de fúria regida pelo monumento ao tsar e seu cavalo.

Além de “O Cavaleiro de Bronze”, outros 40 poemas compõem o livro, entre os quais alguns excertos de “Evguêni Oniéguin”, “Cena de Fausto” e “Demônio”, todos cuidadosamente traduzidos segundo os critérios de versificação estabelecidos por Púchkin.

Leitura no original

Conforme a nota do tradutor, “métricas, rimas e tônicas internas aos versos (além da frequente alternância entre terminações paroxítonas e oxítonas) foram sempre mantidas das maneiras apresentadas pelo autor”.

Ademais, a edição bilíngue dispõe de um QR Code que redireciona o leitor para um link em que é possível ouvir a leitura dos poemas em russo.

Com a publicação de “O Cavaleiro de Bronze e outros poemas”, o leitor brasileiro terá, pela primeira vez, a oportunidade de conhecer uma parte relevante da obra poética de um autor que é, ele próprio, o mais elevado monumento às letras russas de todos os tempos, em uma tradução que significa desde já um marco para a história editorial brasileira.

André Rosa é mestrando em literatura comparada pelo PPGCL-UFRJ/Capes

“O Cavaleiro de Bronze e outros poemas”. Autor: Aleksándr Púchkin. Tradução: Felipe Franco Munhoz. Editora: Kalinka. Páginas: 216. Preço: R$ 69,50.

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