Edição do Brasileiro até 10ª rodada é a mais equilibrada, mas não significa futebol de qualidade

Se comparado a qualquer grande liga europeia, o futebol brasileiro sempre foi conhecido pelo equilíbrio do campeonato nacional. Na era dos pontos corridos com 20 clubes a partir de 2006, por exemplo, já foram sete campeões diferentes: Atlético-MG, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Palmeiras e São Paulo. No mesmo período, Espanha e Itália só viram três equipes de seus países levantarem o troféu. Porém, a temporada de 2022 vem caprichando na proximidade entre os times como nunca antes vista. O que não significa jogos de alta qualidade.

Ao fim da décima rodada, com cerca de 1/4 do Brasileirão disputado, o Palmeiras assumiu a liderança com 19 pontos. Jamais um líder teve tão poucos pontos a esta altura do campeonato. Até então, os líderes mais modestos haviam sido Botafogo (2013) e Internacional (2020), ambos com 20 pontos.

As provas do equilíbrio fora da curva atual não param por aí. A distância entre o Palmeiras e o Cuiabá, que abre a zona de rebaixamento, é de apenas oito pontos. Bastam dois tropeços do líder e duas vitórias de quem está na degola e ambos estarão disputando posição no topo da tabela. Algo nada impossível de acontecer, uma vez que apenas o time paulista conseguiu engatar três triunfos consecutivos até o momento.

Em termos de comparação com outros anos, a menor vantagem na décima rodada foi de 10 pontos, em 2007, entre Botafogo (21) e Santos (11). Ano passado, o próprio Palmeiras já havia aberto uma diferença de 14 pontos para o São Paulo (22 a 8).

Por isso, o técnico Abel Ferreira coloca as barbas de molho com a liderança de momento. A 28 rodadas do fim, com um campeonato tão cheio de altos e baixos, o título que falta ao português no Brasil é um sonho ainda distante.

O treinador português, inclusive, ratificou mais vez sua opinião em relação à competitividade do futebol brasileiro e a dificuldade em conquistar um título num campeonato longo.

—Só vocês têm dúvida daquilo que digo da competitividade do futebol brasileiro. Veja a tabela do Brasileirão e de outros campeonatos, a diferença que há entre o primeiro e o segundo. Só no Brasileirão é possível o último ganhar na casa do primeiro colocado. Em nenhum outro campeonato acontece isso. São equipes supercompetitivas, há muitos candidatos ao título no Brasil e só um que vai ganhar. Podem ter 12 Guardiolas, 12 Mourinhos e só um que vai ser campeão. Não vamos vencer sempre, precisamos manter a calma, o equilíbrio porque não ganhamos nada. Faltam 28 jogos, é muito tempo — afirmou Abel após a goleada de 4 a 0 sobre o Botafogo na décima rodada.

Entre o G4 e o Z4, a distância é um pulo. Apenas cinco pontos separam o Atlético-MG, quarto colocado com 16 pontos e último classificado direto para a Libertadores, e o Cuiabá. Na rodada que se inicia neste sábado, por exemplo, o time mineiro, atual campeão brasileiro, enfrenta o Santos, que está exatamente na metade da tabela, em décimo lugar. A vitória santista pode tirar a posição dos mineiros.

Na Série B, a distância entre as pontas segue o roteiro de outros anos. Mas o equilíbrio do meio da tabela também chama a atenção. Do oitavo ao 16º, há apenas um ponto de diferença, com parte dos clubes com 13 pontos e a outra parte com 12.

Trocas de técnicos e temporadas exaustivas

Apesar da competitividade amplamente destacada por Abel Ferreira, o equilíbrio visto este ano não vem exatamente da paridade técnica de alto nível. Das três grandes forças consideradas favoritas ao título do Brasileiro, apenas o Palmeiras tem encontrado o caminho de um futebol mais consistente, ofensivo e eficaz. O fato de o português estar em sua segunda temporada e com grande parte do elenco mantido explica tanto a liderança quanto o favoritismo do atual bicampeão da Libertadores. Dos 20 clubes da Série A, apenas cinco iniciaram e continuam com o técnico da temporada passada: o alviverde, São Paulo, Bragantino, Fortaleza e Coritiba.

Já Atlético-MG e Flamengo pisam em terreno mais instável por causa da mudança de técnico. O clube mineiro, sob o comando do técnico Turco nesta temporada, fez poucas modificações, mas ainda busca o equilíbrio ideal entre o poderio ofensivo e defesa segura. A derrota para o Fluminense por 5 a 3, na última rodada, é o exemplo de um time com muito potencial, mas que ainda tem acertos a fazer.

O Flamengo vai para o seu quarto técnico desde o time de Jorge Jesus que parecia iniciar uma nova hegemonia no Brasil sem chances para os adversários. Mas, desde então, o time oscila entre grandes vitórias e tropeços inimagináveis, e tentará, agora, começar um novo ciclo vitorioso com Dorival Júnior. Mas se sabe que o bom futebol, quase sempre, requer tempo de trabalho.

O Corinthians, de Vitor Pereira, é um time que vinha sendo construído por Sylvinho ano passado após contratações do meio da temporada e ainda está em evolução. Times que se destacaram em 2021, como Fortaleza e Bragantino, perderam jogadores ao longo do caminho, e têm mais dificuldades de manter o nível de seus elencos.

Nesta conta, também têm de ser contabilizadas as duas últimas temporadas atípicas que castigaram os elencos do país. Por causa da pandemia, as temporadas 2020 e 2021 foram disputadas em praticamente um ano e meio, com férias suspensas, jogadores acometidos pela Covid-19 e mais riscos de lesões.

Com 28 rodadas em disputa, muito sobe e desce ainda será visto ao longo do campeonato, mas, apesar do equilíbrio atual, dificilmente o campeão será alguém diferente dos últimos seis clubes que levantaram a taça e disputam a Série A.

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