Edição virtual do Festival Amazonas de Ópera abre com temas atuais e estética de cinema para atrair novos públicos

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Contando a história de um “trisal” (“casal” de três pessoas) que está separado por conta da Covid-19, a ópera “Três minutos de sol”, do paulistano Leonardo Martinelli, abre hoje, às 20h, o 23º Festival Amazonas de Ópera, um dos mais conceituados no gênero, que segue até o dia 20 com programação diária, virtual e gratuita, em transmissão por YouTube e Facebook. Com direção artística do maestro Luiz Fernando Malheiro, regente titular da Orquestra Amazonas Filarmônica, o FAO em edição 100% digital terá três óperas e seis concertos inéditos criados por brasileiros da nova geração.

— Não adiantava fazer coisas que já existem, porque elas foram pensadas para outro formato, uma outra interação com o cantor — justifica Flávia Furtado, diretora executiva do FAO. — É uma quantidade de estreias mundiais que dificilmente você encontra em outros eventos do gênero.

A orientação para os compositores, quando Malheiro encomendou as peças, foi apenas que levassem em consideração o agora. Não à toa, as três óperas (apresentadas sempre aos domingos) acabam falando, indiretamente, sobre a Covid-19. Além de “Três minutos de sol”, “O corvo” (dia 13), de Eduardo Frigatti, aborda o luto; e “moto-contínuo”, de Piero Schlochauer (dia 20), tem a ciência como foco.

E não espere lives ou transmissões padrões, filmando palcos ou com músicos em quadradinhos na tela. As óperas ganharam estética cinematográfica. O grande destaque, nesse sentido, é “O corvo”, que será uma animação — algo visto como inédito pelos envolvidos, ao menos em óperas contemporâneas. Com direção de Ana Luisa Anker, direção de arte de Giorgia Massetani e roteiro de Carolina Mestriner, o desenho traz referências como “O gabinete do Dr. Caligari” (Robert Wiene), “Metrópolis” (Fritz Lang) e “Nosferatu” (F.W. Murnau), clássicos do expressionismo alemão, além de “O corvo”, poema de Edgar Alan Poe, inspiração de Eduardo Frigatti para a ópera.

— Essa ópera em especial tem a intenção de chamar um público mais jovem, por isso optaram por um formato mais lúdico, animado — explica Ana Luisa Anker, que produz as três óperas. — Estamos trabalhando nela há oito meses, foi muito prazeroso porque o conto já é incrível e combina com situação atual, o corvo é o vírus.

Para Frigatti, compositor paranaense radicado na Polônia, o luto, que perpassa outras obras de sua carreira, simboliza também uma perda pessoal e profissional, com a morte do mestre polonês Krzysztof Penderecki, de quem foi aluno.

— Usei também fragmentos da “Eneida”, especialmente a passagem do encontro entre o Dido e a Eneias. São trechos que estão no coro da ópera que dialogam com o corvo, que está num processo de luto da amada — cita o estreante no FAO, que teve uma aprovação caseira da animação. — Assisti com minha filha de 9 anos. Ela gostou bastante, mas se assustou em alguns momentos. Assim que terminou ela correu para desenhar o corvo. Significa que temos um potencial de público grande.

A adaptação para o virtual das novas peças passou também pela duração, baseada numa pesquisa da Ópera Latinoamérica com quatro mil pessoas, que mostrou que 69% delas preferem espetáculos virtuais com menos de uma hora. Com isso, as óperas terão cerca de meia hora; os concertos, 15 minutos; e os receitais, de 25 minutos a 1h25.

As transmissões acontecem por YouTube (/festivalamazonasdeoperafao) e Facebook /culturadoam). A programação conta ainda com webinars, masterclasses transmitidas ao vivo e uma série de curtas educacionais. O roteiro completo está em fao.teatroamazonas.com.br/.