Editores negros criticam expurgo no acervo da Fundação Palmares

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Fernando Baldraia, historiador e editor de diversidade da Companhia das Letras, identifica um “erro crasso” na argumentação da Fundação Palmares para excluir, de seu acervo, obras que não se refiram “à temática negra ou à promoção do negro na sociedade brasileira”.

— A falácia aí está em pensar que existe uma “temática negra”, um compartimento separado, que influenciasse apenas externamente a formação da sociedade brasileira — explica Baldraia. — Não existe uma “temática negra”, porque a “questão negra” é constitutiva da sociedade brasileira. Pertence, de saída, à nossa formação. É difícil sair dessa lógica da temática porque o negro foi sempre constituído como um “outro”. Enquanto o negro for “tema/temática”, seremos “tematizado” e postos em caixinhas (ou acervos).

Por não tratarem explicitamente de “temática negra”, obras de alguns dos maiores intérpretes do Brasil, como Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr., serão retirados do acervo. Segundo levantamento da própria instituição, 46% das obras que constituem o acervo da Palmares abordam a “temática negra”. No entanto, segundo o relatório, mais da metade desses livros (2.678 títulos) versa sobre “militância política explícita ou divulgação marxista, usando a temática negra como pretexto”.

Embora a exclusão automática de obras marxistas seja uma das diretrizes do expurgo, alguns livros de “divulgação marxista” que recorrem à “temática negra como pretexto” permanecerão no acervo, como “Marxismo negro”, do antropólogo e teórico político americano Cedric Robinson. A justificativa é a seguinte: “Assim como um livro exclusivamente sobre sistemas hidráulicos será excluído simplesmente por ser um livro sobre sistemas hidráulicos, os marxistas também serão. Porque, a rigor, tanto o marxismo quanto os sistemas hidráulicos nada têm a ver com o escopo da Palmares e com a cultura negra. Porém, se for publicado um livro intitulado ‘Os quilombolas e seus sistemas hidráulicos’, então esse título entrará automaticamente no escopo da Fundação”.

Obras marxistas que não remetam à “temática negra logo no título, como “Eros e civilização”, de Herbert Marcuse, “Marx: lógica e política”, de Ruy Fausto, e “História e consciência de classe”, de Georg Lukács, serão excluídos.

— Toda e qualquer obra que pretenta pensar a constituição das sociedades humanas, inclusive as orientadas pelos marxismos, pela teoria feminista e/ou queer ou pela psicanálise podem ajudar a “promover e apoiar a integração cultural, social, econômica e política dos afrodescendentes no contexto social do país”, como determina o regimento da Palmares — afirma Baldraia. — A “questão negra” trata de um problema eminentemente social, da constituição da sociedade brasileira (e mundial) e não de uma “temática” que possa ser circunscrita por qualquer termo, como “raça”, “racial”, “negro” ou “afrodescendente”.

Os limites do 'boom'

Luiz Maurício Azevedo, da editora Figura de Linguagem, também questiona a exclusão de títulos marxistas do acervo, porque “toda leitura pode ajudar as minorias a entender as estruturas que as oprimem”. Ele também afirma que a exclusão de obras consideradas “militantes” ou “vitimistas” pela direção da Palmares é um indício da tentativa da instituição de “construir a autoestima da comunidade negra por meio da substituição de sua história de dor.”

— Na impossibilidade de mudanças estruturais, estamos assistindo à ascensão de uma ideologia que prega soluções individuais para o racismo. É uma nova utopia liberal na qual muitos negros estão engajados — diz Azevedo que lembra que a leitura de autores materialistas às vezes é essencial para a compreensão de teóricos negros. — Não dá para compreender tudo o que uma autora como Angela Davis diz sem conhecer filósofos como Hegel ou Adorno.

O relatório no qual a Palmares explica as diretrizes do expurgo afirma que o acervo da instituição está desatualizado. “Os poucos livros realmente de temática negra formam um conjunto tão defasado que o estudante que consumisse esse material estaria formando uma mentalidade semelhante a quem estivesse nos anos 1960/70”, diz o documento. Como exemplos, são citadas a falta de obras do economista afro-americano Thomas Sowell, que questiona a o “racismo sistêmico” (“já faz vinte anos que o mercado brasileiro lança títulos do pensador”) e o fato de o “título mais ‘atualizado’ do acervo” ser uma “Questão de raça”, do também afro-americano Cornel West.

De fato, o acervo da Palmares não parece refletir as estantes das livrarias brasileiras que, nos últimos anos, ficaram abarrotadas de obras pensadores negros. Recentemente, a Companhia das Letras lançou uma nova edição de “Questão de raça” e, em agosto, a Figura de Linguagem publica outro livro de West: “Dimensões éticas do pensamento marxista”, que pela nova lógica da Palmares talvez seja vetado no acervo, uma vez que carrega marxismo e não “temática negra” no título.

O auge do “boom” dos autores negros aconteceu no ano passado, quando saíram novas edições de pensadores como Frantz Fanon, Audre Lorde, James Baldwin, Angela Davis, bell hooks e Patricia Hill Collins. Os títulos da coleção “Feminismos plurais”, coordenada por Djamila Ribeiro e editada pela Jandaíra, já venderam centenas de milhares de cópias. O “boom” não se limitou a obras de não ficção. Chegaram ao país autores como Bernardine Evaristo, Jacqueline Woodson e Ta-Nehisi Coates. Os dois romances nacionais mais elogiados dos últimos tempos não se furtaram a cutucar a ferida racista brasileira: “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras), de 2020, e “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior (Todavia), lançado em 2019, vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos e que já vendeu 165 mil cópias (físicas e digitais).

O interesse do mercado editorial por autores negros não deve arrefecer tão cedo. Inéditos de Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller “Quarto de despejo”, publicado em mais de 40 países, serão em breve lançados pela Companhia das Letras. Também estão chegando às livrarias pensadores negros do passado que, até agora, não tinham interessado às editoras brasileiras, como os americanos W.E.B du Dois (recém-lançado pela Fósforo e pela Veneta) e Carter Woodson (Edipro e Companhia das Letras).

No entanto, segundo Azevedo, da Figura de Linguagem, o súbito interesse de conglomerados editoriais na temática racial já ameaça prejudicar as editoras menores, as primeiras a dar espaço a autores negros. A concorrência das grandes editoras encareceu os contratos e aumentou as expectativas de sucesso e exposição midiática dos autores negros, sobretudo os estreantes, tentados a comprometer sua obra na esperança de conquistar um público mais amplo.

— Na ânsia de virar best-seller, alguns autores podem mudar suas estratégias e investir em narrativas de conciliação, já que há muita demanda por livros mais didáticos, que expliquem o racismo para quem só acordou agora — observa Azevedo. — Autores negros estão sendo seduzidos a negociar seu ímpeto criativo e nada impede que o mercado editorial logo perca o interesse neles, o que já aconteceu no passado. Carolina Maria de Jesus foi best-seller antes de cair no ostracismo.

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