Edtechs: como a pandemia da COVID-19 atingiu as startups de educação

Rui Maciel

Com colaboração de Beatriz Vaccari

Em uma época em que a transformação digital está atingindo pessoas e empresas, é claro que a educação não poderia ficar de fora. Tanto é assim, que os últimos anos vêm se mostrando especialmente produtivos para as chamadas Edtechs, que são startups especializadas em educação, oferecendo soluções que conectam professores, alunos, pais e administradores a partir da tecnologia.

Para se ter uma ideia da evolução deste campo, um estudo feito pela ABStartups (Associação Brasileira de Startups) e a CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) apontou que o Brasil teve um aumento de 23% no número de Edtechs em dois anos, pulando de 364 para 449 empresas do gênero. A maioria (59%) está localizada na Região Sudeste, com o estado de São Paulo sediando 35,1% do total.

O Brasil teve um aumento de 23% no número de Edtechs nos últimos dois anos (Crédito da foto: ABStartups)

Além disso, em relação aos perfis, predominam soluções cujo modelo de negócios compreende o Software as a Service (SaaS), com 61% do total, em negócios operados por até 10 funcionários (64,1%). Porém, um dos dados do estudo que mais chama a atenção é o fato de que mais de 70,6% das Edtechs são focadas em soluções para o ensino básico, sendo 48,11% para o ensino fundamental e médio, seguido pelo ensino infantil, com 22,49%.

Em tempos em que a rede de ensino brasileira - pública e privada - precisou suspender suas aulas presenciais para combater a COVID-19, a filosofia por trás das Edtechs ganhou força e levantou a seguinte pergunta: como as empresas do gênero - e as escolas em si - estão lidando com o ensino digital nessa época de pandemia?

Depois de falar com diversas fontes especializadas no assunto, é isso que o vamos responder nas próximas linhas. E, de quebra, ainda vamos indicar diversos cursos que você pode fazer neste período tão delicado.

O COVID-19 causou perdas entre as Edtechs?

Ainda que a educação básica domine boa parte das Edtechs no Brasil, esse setor é formado por outros campos. Entre eles, o ensino de línguas, programação e marketing digital, por exemplo.

Nas Edtechs especializadas em ensino de programação e marketing digital, por exemplo, a migração para o modelo remoto funcionou sem grandes traumas ou perda de vendas. “Se por um lado realmente a dinâmica ficou diferente, por outro lado, estamos muito felizes de não ter parado nenhuma atividade, curso ou venda”, afirmou Guilherme Franco, CEO da Digital House Brasil, escola especializada em Marketing Digital, UX, Dados e Negócios. “Estamos tendo uma aceitação incrível dos alunos com essa migração para o modelo remoto, em que tentamos replicar o modelo pedagógico oferecido e o sistema de aprendizagem, já pro mundo virtual”.

Digital House Brasil afirma que não houve perda de vendas com a pandemia (Crédito da foto: Digital House)

A mesma experiência foi sentida pela codeBuddy, especializada no ensino de programação a crianças e adolescentes: “O número está razoavelmente estável. Existem alguns cancelamentos que são inevitáveis porque tínhamos o modelo presencial de aula, mas num cenário de forma geral o número está bem estável”, afirmou Marcio Chrisostimo, gerente executivo de franquias da escola. “Trabalhamos com crianças e adolescentes, e eles já estão acostumados a ver aulas a distância (EAD). E também, mesmo remotamente, conseguimos manter tudo de forma individualizada, respeitando o ritmo de aprendizado de cada aluno, com um modelo de aulas ao vivo. Então não sentimos tanto essa migração”, completa.

Se em Edtechs voltadas ao mundo da Tecnologia - e acostumadas ao EAD - a procura aumentou (ou está estável), o cenário é ainda melhor nas empresas focadas no ensino básico, especialmente nos serviços de tutoria e reforço escolar.

Um bom exemplo disso é a Shapp, aplicativo que conecta alunos a professores para aulas particulares. Segundo Conrado Luiz Mecchi, um dos fundadores do serviço, o ritmo de trabalho intensificou muito, sendo que a demanda mais do que dobrou em relação a março do ano passado. “Com isso, temos que avaliar mais perfis de professores, apoiar os novos alunos, além do lado da demanda. Na verdade, o que mudou foi o nosso foco”, afirmou o executivo, que citou outra situação delicada. “Na parte da comunicação, nosso desafio é mostrar ao público que, em nenhum momento, estamos nos aproveitando dessa onda do vírus como se fosse uma coisa boa. Então, apesar dos números crescerem, queremos que isso acabe o quanto antes. O nosso foco é a aula presencial, é fortalecer as comunidades locais. Então, não fazemos publicidade em função do coronavírus, e sim, damos isenção de taxa aos alunos e professores".

A mesma impressão tem Raphael Coelho, CEO da TutorMundi, Edtech que trabalha com tutores a distância para estudantes dos ensinos médio e fundamental e que se comunicam via aplicativo. “Nós começamos a receber muitas ligações de alunos, de pais, de diretores de escolas e de ONGs. Todas querendo saber como funcionava o app, se era possível fazer uma parceria, agilizar, oferecer uma versão gratuita”, afirmou o executivo. “Tivemos muitas solicitações nas primeiras 2 semanas [ após o início da quarentena]. O ritmo realmente aumentou, bem como o número de usuários, que dobrou, assim como o engajamento. Em uma das escolas parceiras, que conta com 100 alunos, eram utilizados cerca de 7 mil minutos por mês em nosso app. Agora, pelos nossos cálculos, o primeiro mês de pandemia fechará com 14 mil minutos”.

App do TutorMundi: aumento de demanda

Mesmo as Edtechs que trabalham com outros modelos de negócios para além do ensino, a crise causada pela COVID-19 impactou de forma moderada. O Melhor Escola, um marketplace educacional (pertencente ao QueroBolsa) focado em conectar alunos a instituições de ensino, oferecendo vagas com descontos, registrou um aumento em sua demanda na forma de admissão digital. “Um dos nossos produtos era resolver a burocracia presencial, com a escola permitindo que a matrícula seja digital. Na medida em que elas perceberam que ninguém ia ficar indo até lá para resolver problemas de documentação, nossa tecnologia virou essencial” afirmou Sérgio Fiúza, sócio-diretor de novos negócios da Melhor Escola. “Com a pandemia, tivemos de acelerar o desenvolvimento da nossa plataforma, que permite que um processo online de matrícula seja oferecido para 100% dos alunos”, completa.

O mesmo vale para o AmigoEdu, uma plataforma que ajuda estudantes a conseguir bolsas nas universidades. “Nós tivemos uma diminuição em relação à procura de bolsas de estudo. Os alunos neste momento estão procurando menos, mas já era esperado pelo período do ano e o coronavírus acentuou essa queda”, afirmou José Roberto Dantas, CEO da Edtech. “Por outro lado, o AmigoEdu presta serviços para universidades a partir do uso de ferramentas como o vestibular digital, onde conectamos alunos e universidades. Com isso, nosso volume de trabalho aumentou muito, já que se trata de um processo onde não é necessário sair de casa. Ou seja, tivemos um crescimento de um lado, e queda do outro”, completa.

A adaptação ao 100% remoto

Ainda que todas essas Edtechs tenham a tecnologia como motor de seus modelos de negócios, muitas delas ofereciam aulas presenciais a seus alunos. E, com a chegada da pandemia do coronavírus, elas tiveram de se adaptar. E rápido.

Um dos casos curiosos nesse processo aconteceu com a MeuCurso, uma Edtech que oferece cursos preparatórios para exames da OAB, concursos públicos, além de cursos de prática jurídica e pós-graduação. “Tivemos de convencer os professores de que eles poderiam gravar [as aulas] sozinhos e em casa e isso foi um desafio tecnológico” afirmou Marco Antônio Araújo, fundador da escola. “Preparamos 50 home estúdios, validamos e implementamos. Os professores passaram por um treinamento em uma plataforma de vídeos, e lá, eles aprenderam que podem ser operadores da própria aula. Foi desafiador, mas o processo se deu de forma rápida, pois eles aderiram a tudo muito rapidamente”, completa.

Ainda segundo Araújo, mesmo que muitos alunos prefiram aulas presenciais, a imposição de aulas a distância não gerou grande impacto: “Conseguimos transmitir as aulas ao vivo e os alunos podem interagir com o professor em tempo real. Esse modelo deu uma sustentação interessante ao nosso negócio, tanto que tivemos um aumento de alunos, mesmo em uma situação ruim. Observamos um crescimento de 20% no número de estudantes desde a segunda semana de março”.

Ironhack: ouvindo a opinião do aluno na transição para aulas remotas (Crédito da foto: Ironhack)

Já para Ironhack, escola especializada no ensino de Desenvolvimento Web, UX/UI Design e Análise de Dados, apostou na interação com os estudantes, para que a transição fosse a menos traumática possível. “Procuramos estar próximos aos estudantes, comunicando sempre. Quando decidimos mover as aulas para o remoto, anunciamos a todos e ouvimos as opiniões de cada um, com a opção de estudar remotamente ou voltar em uma turma posterior. Quando a gente oferece mais soluções, eles conseguem escolher com menos ansiedade”, declarou Dorly Curvelo, Growth Manager da escola no Brasil. “Estamos tentando oferecer uma experiência similar [ao presencial], com aulas ao vivo, professores-assistentes dando todo o apoio e acionando nosso serviço de carreira com um especialista para dar mentoria a eles. Alguns tiveram que adiar o curso porque precisavam voltar para suas cidades/países, mas a maioria ainda está conosco. Vamos cumprir com o que prometemos em termos pedagógicos”, completa.

Outras 10 Edtechs que vale a pena conhecer

ChatClass: a plataforma de ensino de inglês com apoio de inteligência artificial oferece curso gratuito do idioma até o dia 17 de abril.

Qranio: a Edtech disponibilizou sua plataforma para que professores e alunos possam continuar suas atividades a distância até a normalização das aulas. Além disso, os conteúdos da Qranio também estão liberados para qualquer outra pessoa. Para acessar o app, basta utilizar o cupom promocional CORONAVIRUS para três meses premium gratuitos.

Tera: a startup de educação disponibilizou guia com informações a respeito da pandemia, abordando sintomas e medidas preventivas, além de dicas para conseguir manter uma rotina produtiva no home office. Além disso, todos os cursos da empresa estão disponíveis 100% online, com aulas ao vivo, interação com rede de experts, debate e desenvolvimento de projetos em tempo real.

Para expandir e facilitar o acesso, eles lançaram uma campanha chamada #mudeofuturo que envolve descontos, financiamento, bolsas de estudo e aulas gratuitas.

12Min: a startup que resume grandes volumes de informações em "microbooks" liberou conteúdos especiais sobre a Covid-19 em seu aplicativo ("Tudo o que você precisa saber para manter a calma", "Como manter uma rotina produtiva em casa", "Trabalho remoto em tempos de crise"). Estão oferecendo um trial gratuito de 15 dias, disponível neste link.

Descomplica: startup que oferece uma plataforma de aprendizado online, que prepara os alunos para o ENEM, concursos públicos, pós-graduação, reforço escolar, entre outros.

Witseed: Edtech focada na produção de conteúdo audiovisual. Entre os clientes da instituição, estão empresas como Gerdau, Val, Siemens, Klabn, Oi e Natura.

Brain Academy: Edtech que se propõe a capacitar crianças, jovens e adultos para funcionar de maneira emocionalmente saudável, a partir de conhecimentos das áreas de psicologia cognitiva, neuropsicologia, psicologia positiva e teoria da modificabilidade cognitiva de Feuerstein.

Niduu: oferece um aplicativo de gamificação para treinamento de funcionários de empresas diversas. Para isso, conta com recursos focados em inteligência de dados, mobile learning para criar os programas de desenvolvimento. Saiba mais.

ISMART: projeto social que tem como missão identificar jovens de baixa renda com alta habilidade intelectual, com idade entre 12 e 15 anos, para oferecer bolsas de estudo integrais em escolas de referência. Um dos projetos oferecidos é o ISMART Online, destinado aos estudantes do 7º e do 9º ano, que reúne estudos, tecnologia e um programa especial de desenvolvimento que vai além do espaço físico das salas de aula.

Scaffold: Edtech que disponibiliza a diversas empresas, indústrias, redes de franquias e escolas, uma plataforma que usa recursos como, gamificação, vídeos, EADs, entre outros, para impulsionar resultados corporativos.

Atualmente, devido ao processo de quarentena, a Scaffold disponibilizou gratuitamente no YouTube e na plataforma, dicas de como escolas, universidades e professores particulares podem dar aulas online e manter a qualidade no ensino. Clique aqui e saiba mais.

Na próxima matéria sobre as Edtechs, você verá como as escolas tradicionais e o ensino público precisam se adaptar à filosofia das startups para continuar o ano letivo. Fique ligado!

Fonte: Canaltech